Pegadas fósseis: o que revelam sobre o comportamento dos dinossauros
As pegadas de dinossauros preservadas em rocha são muito mais do que curiosidades geológicas. Enquanto os esqueletos mostram o que um animal podia fazer, as pegadas documentam o que ele realmente fez — momento a momento, há dezenas ou centenas de milhões de anos. Graças à icnologia, a disciplina científica dedicada ao estudo de fósseis de traços, tornou-se possível calcular velocidades, inferir comportamentos sociais, identificar patologias locomotoras e até reconstituir sequências de movimentos com precisão milimétrica. Em 2026, a combinação de novos sítios de descoberta e ferramentas de análise digital está a transformar radicalmente o que se sabe sobre o quotidiano dos dinossauros.
A icnologia e a importância das pegadas fósseis
As pegadas fósseis de dinossauros designam-se tecnicamente por icnitos e os conjuntos de trilhos consecutivos chamam-se rastejos (trackways). Ao contrário dos ossos, que resultam da morte do animal, os icnitos são registos diretos de comportamento em vida: andar, correr, nadar, descansar, interagir com outros indivíduos. Esta distinção confere-lhes um valor científico único. Um esqueleto pode ser deslocado por correntes de água ou perturbado por carniceiros; uma pegada preservada in situ pertence invariavelmente ao local onde o animal passou.
Os icnitos formam-se quando um animal pisa um substrato mole — lama, areia húmida, cinza vulcânica — e essa impressão é posteriormente coberta por sedimentos que, ao petrificarem, preservam o molde. A qualidade da preservação depende da composição do substrato, da velocidade de soterramento e das condições químicas do ambiente. Em condições ideais, ficam registados detalhes como almofadas plantares, marcas de garras e até pressões diferenciais exercidas por diferentes partes do pé.
Como se calcula a velocidade de um dinossauro
O método padrão para estimar a velocidade de um dinossauro a partir das suas pegadas foi formalizado pelo paleontólogo britânico Alexander (1976) e continua a ser a base dos cálculos actuais. O procedimento envolve duas medições fundamentais: o comprimento de uma pegada individual (CP) e o comprimento da passada (distância entre pegadas do mesmo pé). A altura da anca é estimada multiplicando CP por quatro, e a velocidade relativa obtém-se dividindo o comprimento da passada pela altura da anca:
- Rácio inferior a 2,0 — o animal estava a andar;
- Rácio entre 2,0 e 2,9 — trote;
- Rácio superior a 2,9 — corrida.
Aplicando este método a um rastejo de 70 metros encontrado na província de Sichuan, na China, os investigadores concluíram que o dinossauro se deslocava a cerca de 5,3 km/h — equivalente a uma caminhada humana rápida — antes de acelerar brevemente para um trote ligeiro. Em contrapartida, pegadas descobertas na Mongólia em 2026 indicam que certos dinossauros de pequeno porte podiam atingir velocidades comparáveis às de um ciclista profissional, confirmando teorias de longa data sobre a agilidade dos terópodes de menor dimensão. Estudos recentes publicados na Biology Letters (Royal Society, 2025) alertam, contudo, para que estas estimativas podem ser afectadas pela compliância do substrato, introduzindo variáveis que os modelos clássicos nem sempre contemplam.
Padrões de marcha e postura
Além da velocidade, os rastejos permitem determinar a largura da base de apoio, isto é, a distância lateral entre pegadas do lado esquerdo e do lado direito. Uma base estreita indica uma postura erecta e um centro de gravidade bem controlado — característica dos dinossauros mais ágeis. Uma base larga sugere uma locomoção mais reptiliana, com o tronco mais próximo do solo. Esta análise foi fundamental para demonstrar, ainda nas décadas de 1970 e 1980, que os dinossauros não eram os répteis lentos e arrastados que os primeiros modelos do século XIX propunham.
Os rastejos revelam igualmente o ângulo de avanço — a orientação do corpo em relação à direcção de marcha — e eventuais viragens. Um estudo publicado em 2024 na revista Quaternary (MDPI) analisou um sítio no Colorado (EUA) e conseguiu reconstituir o padrão de viragem de um saurópode com detalhe nunca antes alcançado, revelando uma marcha lateralizada semelhante à de muitos vertebrados modernos.
Comportamento social: evidências de vida em grupo
Uma das descobertas mais significativas da icnologia diz respeito ao comportamento gregário de vários grupos de dinossauros. Quando múltiplos rastejos paralelos, deixados por animais do mesmo tipo e de dimensões variadas, são encontrados no mesmo nível estratigráfico e com a mesma orientação, a interpretação mais parcimoniósa é a de movimento em grupo. Até à data, identificaram-se pelo menos nove sítios com evidências claras deste tipo de comportamento, distribuídos por estratos do Jurássico Inferior ao Cretácico médio, na Europa, América do Norte e Ásia Oriental.
Os grupos afectados incluem ceratopsídeos, ornitópodes, terópodes e saurópodes. No caso dos saurópodes, os dados icnológicos sugerem ainda uma segregação etária: os indivíduos jovens tendiam a ocupar o centro do grupo, enquanto os adultos se posicionavam na periferia — uma estratégia defensiva análoga à observada em elefantes e outros grandes mamíferos actuais.
Existem também registos de grupos de animais que aparentemente formavam círculos, possivelmente como resposta a uma ameaça predatória. A interpretação permanece controversa, mas ilustra o potencial informativo dos rastejos quando analisados em contexto espacial alargado.
Natação e outros comportamentos aquáticos
As chamadas pistas de natação (swim tracks) correspondem a séries de marcas de garras ou pontas de dedos que surgem quando um dinossauro atravessava um plano de água pouco profundo, tocando intermitentemente no fundo. Os traços de natação de terópodes foram classificados sob o icnogénero Characichnos e são conhecidos principalmente de sítios jurássicos. A sua existência demonstra que os dinossauros não eram ineptos em meios aquáticos, embora a competência e a frequência com que nadavam variasse consoante a espécie e o contexto ecológico.
O sítio boliviano de Carreras Pampas, no Parque Nacional Torotoro, documentado em Dezembro de 2025 por investigadores da Universidade de Loma Linda (Califórnia), contém mais de 16 600 pegadas de terópodes — o maior número alguma vez registado num único local. As trilhas incluem marcas de corrida, possíveis sequências de natação e até arrastos de cauda, sugerindo uma grande diversidade de comportamentos ao longo de uma antiga linha de costa.
Lesões e paleopatologia locomotora
A icnopatologia estuda as anomalias nos rastejos que podem ser atribuídas a lesões ou doenças. Quando um dinossauro sofria uma fractura, infecção óssea ou perda de dígitos, o padrão das suas pegadas alterava-se de forma detectável: passos assimétricos, profundidades de impressão desiguais entre o lado afectado e o são, ou ausência de determinadas marcas de garras. Um exemplo notável são as pegadas de um saurópode com claudicação descobertas no Colorado, datadas do Jurássico Superior, em que a assimetria entre passadas esquerda e direita aponta para uma lesão no membro anterior direito.
A interpretação destes rastejos exige cuidado: um padrão irregular pode resultar de terreno acidentado, de substrato de diferente consistência ou simplesmente de uma aceleração momentânea, e não necessariamente de uma patologia. Os investigadores recorrem a análises estatísticas e à comparação com rastejos de animais vivos para estabelecer critérios diagnósticos fiáveis.
Grandes sítios de pegadas e descobertas recentes
Para além da Bolívia, outros sítios descobertos ou analisados em profundidade entre 2025 e 2026 enriqueceram consideravelmente o registo icnológico mundial. No Parque Nacional de Stelvio, na Lombardia (Itália), foram identificadas milhares de pegadas com cerca de 210 milhões de anos, tornando o local um dos mais ricos do Triássico a nível mundial. Na Austrália, uma escola albergava, inadvertidamente, um sítio com 66 pegadas de 47 dinossauros individuais, uma das maiores concentrações por metro quadrado registadas no país.
Tecnologia ao serviço da icnologia
A fotogrametria por drone e a reconstrução tridimensional de alta resolução permitem hoje documentar rastejos ao milímetro, sem necessidade de contacto físico com os fósseis. Em Janeiro de 2026, a revista PNAS publicou um estudo em que uma rede neuronal não supervisionada processou cerca de 2 000 icnitos, identificando oito eixos principais de variação morfológica e classificando espécimes problemáticos com um grau de coerência comparável ao dos especialistas humanos. Uma aplicação baseada nesta tecnologia atingiu uma taxa de exactidão de aproximadamente 90 % na identificação de pegadas, reduzindo simultaneamente os enviesamentos inerentes à classificação manual.
Esta convergência entre icnologia clássica e inteligência artificial está a permitir analisar colecções de museu que permaneceram por estudar durante décadas, abrindo perspectivas para a redescoberta de comportamentos até agora invisíveis no registo fóssil.
Perguntas frequentes
O que é a icnologia e o que estuda?
A icnologia é o ramo da paleontologia que se dedica ao estudo de fósseis de traços, como pegadas, rastejos, tocas e marcas de alimentação. No caso dos dinossauros, permite inferir velocidade, postura, comportamento social e até patologias locomotoras a partir das impressões deixadas em substratos sedimentares.
Como calculam os paleontólogos a velocidade de um dinossauro a partir das pegadas?
O método mais utilizado baseia-se na fórmula de Alexander (1976): a altura da anca é estimada multiplicando o comprimento de uma pegada por quatro, e a velocidade relativa obtém-se dividindo o comprimento da passada pela altura da anca. Um rácio abaixo de 2,0 indica marcha a passo, entre 2,0 e 2,9 corresponde a trote e acima de 2,9 a corrida.
As pegadas fósseis provam que os dinossauros viviam em grupos?
Sim, em vários casos. Múltiplos rastejos paralelos, com a mesma orientação e deixados por animais do mesmo tipo, constituem evidência de movimento gregário. Foram identificados pelo menos nove sítios deste tipo em estratos do Jurássico Inferior ao Cretácico médio, afectando ceratopsídeos, ornitópodes, terópodes e saurópodes.
Qual é o maior sítio de pegadas de dinossauros conhecido?
Em 2026, o sítio de Carreras Pampas, no Parque Nacional Torotoro, na Bolívia, é o maior conhecido, com mais de 16 600 pegadas de terópodes documentadas numa única localização, descoberto e publicado por investigadores da Universidade de Loma Linda em Dezembro de 2025.
É possível identificar um dinossauro doente ou ferido através das suas pegadas?
Sim. A icnopatologia analisa anomalias nos rastejos — assimetria entre passos, profundidades desiguais ou ausência de marcas de determinados dígitos — que podem indicar lesões, infecções ósseas ou perda de membros. Um exemplo bem documentado são as pegadas de um saurópode claudicante encontradas no Colorado (EUA), datadas do Jurássico Superior.