Acetona: o que é, propriedades e principais utilizações
A acetona, designada em nomenclatura IUPAC por propan-2-ona ou simplesmente propanona, é o composto orgânico mais simples da família das cetonas. Trata-se de um líquido incolor, volátil e altamente inflamável, com odor característico pungente, amplamente reconhecido pelo uso doméstico em produtos de remoção de verniz de unhas. Mas a relevância da acetona vai muito além da cosmética: em 2026, o mercado global desta substância avalia-se em cerca de 8,3 mil milhões de dólares, alimentado por uma procura crescente nos setores de plásticos, produtos farmacêuticos e eletrónica.
Propriedades físicas e químicas
A fórmula molecular da acetona é C₃H₆O, com massa molar de 58,08 g/mol. A sua estrutura consiste num grupo carbonilo (C=O) flanqueado por dois grupos metilo (CH₃–CO–CH₃), o que lhe confere características de solvente polar aprótico de elevada eficácia.
- Estado físico: líquido incolor à temperatura ambiente
- Ponto de ebulição: 56,29 °C (a 760 mmHg)
- Ponto de fusão: −94,9 °C
- Ponto de inflamação: −18 °C (vaso fechado)
- Limites de explosividade no ar: 2,6 % (inferior) a 12,8 % (superior)
- Miscibilidade: completamente miscível em água, etanol e éter
- Densidade: 0,791 g/cm³ a 20 °C
A combinação de polaridade elevada com miscibilidade em água torna a acetona num solvente singular: dissolve tanto compostos orgânicos hidrofóbicos como substâncias mais hidrofílicas, característica que justifica a sua versatilidade industrial.
Produção industrial
Mais de 90 % da acetona produzida mundialmente resulta como coproduto do processo de produção de fenol a partir de cumeno — denominado processo de Hock. Neste processo, o benzeno é alquilado com propileno para formar cumeno, que é posteriormente oxidado pelo ar para gerar hidroperóxido de cumeno; a clivagem ácida deste intermediário origina simultaneamente fenol e acetona, numa proporção aproximada de 1 kg de fenol para 0,6 kg de acetona.
Esta dependência estrutural face à produção de fenol significa que os volumes de acetona disponíveis no mercado estão intrinsecamente ligados à procura de fenol, criando dinâmicas de preço particulares: quando a procura de fenol sobe, a oferta de acetona aumenta como consequência, e vice-versa. Em 2026, perturbações nas cadeias de abastecimento e o aumento dos custos de produção têm influenciado os preços da acetona nos mercados internacionais.
Métodos alternativos de produção, como a desidrogenação do isopropanol ou a fermentação ABE (acetona-butanol-etanol), representam uma fração reduzida da produção global, embora sejam objeto de investigação no contexto da química verde.
Principais utilizações
Produção de bisfenol-A e metacrilato de metilo
A aplicação que consome o maior volume de acetona a nível mundial é a síntese de bisfenol-A (BPA), obtido por reação entre acetona e fenol. O BPA é o precursor essencial dos plásticos de policarbonato (utilizados em garrafas reutilizáveis, lentes óticas e componentes automóveis) e das resinas epoxídicas (presentes em tintas de proteção, adesivos estruturais e revestimentos de embalagens metálicas).
A segunda grande aplicação industrial é a produção de metacrilato de metilo (MMA), a partir do qual se fabrica o polimetacrilato de metilo (PMMA), popularmente conhecido como acrílico ou Plexiglas. O PMMA é amplamente usado em painéis de sinalização, ecrãs de proteção, implantes dentários e folhas translúcidas para a construção civil. Em conjunto, BPA e MMA, juntamente com a cetona metilisobutílica (MIBK) — também sintetizada a partir da acetona —, representam cerca de 85 % do consumo global desta substância.
Solvente industrial e laboratorial
A acetona é um dos solventes orgânicos de maior uso em laboratório e na indústria. Dissolve resinas, lacas, vernizes, adesivos, graxas e polímeros variados, sendo empregue na formulação de tintas e revestimentos, bem como na limpeza de equipamentos e superfícies antes de processos de colagem ou pintura. Nos laboratórios de química e bioquímica, é utilizada na recristalização de compostos orgânicos, na extração de lípidos e na lavagem rápida de vidraria (frequentemente seguida de secagem ao ar pela sua alta volatilidade).
Na indústria têxtil, serve como solvente no processamento de fibras sintéticas e na produção de corantes. Na indústria do couro, é usada no acabamento e tratamento de superfícies.
Indústria farmacêutica
No setor farmacêutico, a acetona de elevada pureza (grau ≥ 99,5 %) é utilizada como solvente de extração e purificação de princípios ativos, na síntese de vitaminas, hormonas e antibióticos, e na limpeza de reatores e equipamentos de processo. Em 2026, o segmento de pureza ≥ 99,5 % representa aproximadamente 60 % do mercado global de acetona, reflexo das exigências regulatórias da indústria farmacêutica e eletrónica.
Cosmética e uso doméstico
O uso da acetona mais familiar ao grande público é o de removedor de verniz de unhas, onde atua como solvente das resinas de nitrocelulose presentes nos esmaltes. Existem no mercado formulações com acetona pura e formulações «sem acetona» que recorrem a solventes alternativos (como o acetato de etilo), considerados menos agressivos para a cutícula e a placa ungueal, embora geralmente menos eficazes em vernizes de gel ou acrílico. A acetona é também utilizada como diluente de colas de contacto e como agente de limpeza de manchas em têxteis resistentes.
Eletrónica e fabricação de semicondutores
Na fabricação de semicondutores e componentes eletrónicos, a acetona de grau ultrapuro é usada para remover resíduos de fotorresiste (fotolacas) durante os processos de litografia. A sua capacidade de limpar superfícies de silício e outros substratos sem deixar resíduos a tornou num produto insubstituível em salas limpas (cleanrooms).
Segurança e precauções
Apesar de a acetona apresentar uma toxicidade relativamente baixa em comparação com outros solventes orgânicos, a sua elevada inflamabilidade constitui o principal risco associado ao manuseamento. O ponto de inflamação de −18 °C implica que os vapores se formam a temperaturas muito abaixo da temperatura ambiente, criando risco de ignição em espaços fechados ou mal ventilados.
A exposição prolongada por inalação pode causar irritação das vias respiratórias, tonturas, cefaleias e, em concentrações elevadas, depressão do sistema nervoso central. O contacto repetido com a pele remove os lípidos naturais, podendo originar dermatite. As fichas de dados de segurança recomendam manuseamento em zonas ventiladas, afastamento de fontes de calor e faíscas, e armazenamento em recipientes hermeticamente fechados, longe de oxidantes e peróxidos.
Do ponto de vista ambiental, a acetona tem baixa persistência no ambiente: é rapidamente biodegradável e não é considerada um composto orgânico volátil regulado (VOC) em várias jurisdições, ao contrário de muitos outros solventes.
Mercado global em 2026
O mercado global de acetona alcançou um valor estimado de 8,3 mil milhões de dólares em 2026, com projeções que apontam para 13,9 mil milhões de dólares até 2036, a uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 6,0 %. Os principais fatores de crescimento incluem a expansão da produção de policarbonatos e resinas epoxídicas na Ásia (em particular na China e na Índia), o aumento da procura de MMA para painéis solares e ecrãs, e o crescimento da indústria farmacêutica global. A estrutura do mercado é moderadamente concentrada, com os maiores produtores integrados verticalmente na cadeia cumeno–fenol–acetona.
Perguntas frequentes
O que é a acetona?
A acetona (propan-2-ona, fórmula C₃H₆O) é o composto cetónico mais simples: um líquido incolor, volátil e altamente inflamável, miscível em água e em solventes orgânicos, amplamente utilizado como solvente industrial, matéria-prima química e produto doméstico.
Como é produzida a acetona industrialmente?
Mais de 90 % da acetona é obtida como coproduto do processo de produção de fenol a partir de cumeno (processo de Hock): o benzeno é alquilado com propileno para formar cumeno, que é oxidado pelo ar e depois clivado em fenol e acetona.
Quais são as principais utilizações industriais da acetona?
As utilizações mais volumosas são a síntese de bisfenol-A (precursor de policarbonatos e resinas epoxídicas) e de metacrilato de metilo (precursor do acrílico/PMMA). Além disso, é amplamente usada como solvente na indústria farmacêutica, na eletrónica, em tintas e revestimentos, e na cosmética como removedor de verniz de unhas.
A acetona é perigosa para a saúde?
A acetona tem toxicidade relativamente baixa, mas é altamente inflamável (ponto de inflamação de −18 °C). A inalação prolongada pode causar irritação respiratória, tonturas e depressão do sistema nervoso central. O contacto cutâneo repetido pode originar dermatite. Deve ser manuseada em locais ventilados e longe de fontes de ignição.
Qual o valor do mercado global de acetona em 2026?
Estima-se que o mercado global de acetona valha cerca de 8,3 mil milhões de dólares em 2026, com perspetivas de crescimento para 13,9 mil milhões de dólares até 2036, impulsionado pela procura de plásticos de engenharia, produtos farmacêuticos e componentes eletrónicos.