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Hermes: o mensageiro dos deuses na mitologia grega

Publicado 3. novembro 2024 Atualizado 24. junho 2026

Quem é Hermes e quais suas principais características?

Hermes é uma das divindades olímpicas da religião e mitologia da Grécia Antiga, filho de Zeus, senhor dos deuses, e da ninfa Maia, a mais jovem das Plêiades. Considerado o arauto e mensageiro do Olimpo, Hermes distinguia-se dos restantes deuses pela sua extraordinária mobilidade: circulava livremente entre o mundo dos vivos, o Olimpo e o reino dos mortos, papel que nenhuma outra divindade exercia com a mesma naturalidade. Ao longo dos séculos, tornou-se uma das figuras mais complexas e fascinantes da mitologia grega, reunindo domínios tão distintos como o comércio, a eloquência, as viagens, os ladrões e a condução das almas ao além.

Origem e nascimento

Segundo a tradição mítica, Hermes nasceu numa gruta do monte Cilene, na Arcádia, região do Peloponeso considerada o seu local de culto mais antigo. A sua mãe, Maia, era filha do titã Atlas e vivia recolhida nessa gruta, onde Zeus a visitou durante a noite, enquanto deuses e mortais dormiam. O nascimento de Hermes foi, desde o primeiro momento, marcado por proezas extraordinárias: ainda bebé, na manhã seguinte ao seu parto, escapou das fraldas, saiu da gruta e executou uma série de façanhas que anunciavam o seu carácter astuto e irreverente.

O Hino Homérico a Hermes, datado provavelmente do século VI a.C., é a fonte literária mais completa sobre o nascimento e as primeiras aventuras do deus. Nesse texto, descreve-se como o recém-nascido encontrou uma tartaruga à entrada da gruta e, com a sua carapaça e tripas de ovelha, fabricou a primeira lira, tornando-se assim o inventor deste instrumento musical. De seguida, conduziu às escondidas uma manada de bois pertencente ao deus Apolo até à Piéria, escondendo o rasto dos animais ao fazê-los caminhar de ré. Apolo descobriu o furto e confrontou Hermes, mas o litigio entre os dois acabou resolvido com uma troca: Hermes ofereceu a lira a Apolo, e este concedeu-lhe o caduceu de ouro e o domínio sobre os rebanhos. Este episódio estabelecia já os traços definidores do carácter de Hermes — a astúcia, a velocidade e a capacidade de mediar conflitos.

Domínios e funções

Hermes era uma divindade de fronteiras e transições, com uma amplitude de domínios raramente igualada no panteão grego. As suas esferas de influência incluíam:

  • Mensageiro dos deuses: função primordial de Hermes, encarregado de transmitir as ordens de Zeus aos restantes deuses e aos mortais.
  • Comércio e mercados: protetor dos mercadores, das trocas comerciais e da boa-fé nos negócios.
  • Viajantes e estradas: guardião dos caminhos, das encruzilhadas e dos que se deslocavam longe de casa.
  • Ladrões e astúcia: por extensão do mito fundador do roubo do gado de Apolo, era também o protetor dos ladrões e de todos os que recorriam ao engenho para obter vantagem.
  • Eloquência e retórica: considerado o patrono dos oradores e dos intérpretes, nomeadamente dos arautos humanos.
  • Atletas e ginásios: venerado nos espaços de treino físico da Grécia Antiga.
  • Sonho e sono: tinha o poder de adormecer mortais e deuses através do seu caduceu.
  • Psicopompo: o papel mais solene de Hermes — o de condutor das almas dos mortos ao submundo, o reino de Hades.

Símbolos e atributos

Hermes era representado na arte grega como um jovem ágil, muitas vezes com barba nas obras mais arcaicas e imberbe a partir do período clássico. Os seus atributos iconográficos são dos mais reconhecíveis de toda a mitologia grega:

  • Caduceu (kerykeion): bastão dourado em torno do qual se enrolam duas serpentes, encimado por um par de asas. O caduceu era o símbolo da sua autoridade como arauto e tinha o poder de adormecer ou despertar qualquer ser. É frequentemente confundido com o bastão de Esculápio, símbolo da medicina, que apresenta apenas uma serpente.
  • Talares (talaria): sandálias aladas que lhe conferiam velocidade sobrenatural e a capacidade de se deslocar entre os diferentes mundos.
  • Pétaso: chapéu de abas largas próprio dos viajantes, por vezes representado com asas laterais.
  • Lira: instrumento que inventou e ofereceu a Apolo, simbolizando a sua ligação às artes e à música.
  • Tartaruga: associada à invenção da lira e à sua origem arcádia.

Na escultura, um tipo particular de monumento — as hermas — estava diretamente associado ao seu culto: tratava-se de pilares de pedra encimados por uma cabeça, colocados nas encruzilhadas, nas fronteiras e nas entradas das casas como proteção e sinalização dos caminhos.

Mitos principais

Para além da história fundadora do roubo do gado de Apolo, Hermes protagonizou ou interveio em inúmeros mitos do ciclo olímpico. Entre os mais relevantes destacam-se:

A morte de Argos Panoptes

Zeus enviou Hermes para libertar Io, amante sua transformada numa vaca branca e guardada pelo gigante Argos Panoptes, ser de cem olhos que nunca dormia todos ao mesmo tempo. Hermes conseguiu adormecer todos os olhos de Argos tocando flauta e contando histórias, matando-o de seguida. Por esta façanha, recebeu o epíteto de Argeifonte ("matador de Argos").

A condução de Perséfone

No mito que explicava as estações do ano, Hermes foi enviado ao submundo para negociar com Hades o regresso de Perséfone à superfície. A sua capacidade de circular livremente entre mundos tornava-o o único ser capaz de desempenhar tal missão.

O julgamento de Páris

Hermes foi o arauto responsável por conduzir Hera, Atena e Afrodite ao príncipe troiano Páris, para que este decidisse qual das três era a mais bela — episódio que precipitaria a Guerra de Tróia.

Psicopompo e os mortos

Nos poemas homéricos, Hermes surge repetidamente a conduzir as almas dos pretendentes mortos por Ulisses até ao Hades, cumprindo o papel de psicopompo, palavra grega que significa literalmente "condutor de almas". Este papel sublinhava a sua natureza de ser liminar, existente entre os mundos, sem pertencer definitivamente a nenhum deles.

Culto e veneração

O culto de Hermes teve origem na Arcádia, onde a sua devoção estava associada aos pastores e às divindades rurais dos rebanhos. A partir dessa região, o culto difundiu-se por toda a Grécia e ganhou especial proeminência em Atenas. Conhecem-se apenas três templos dedicados especificamente a Hermes no período clássico, todos na Arcádia, o que sugere que a sua veneração era praticada sobretudo no quotidiano — através das hermas colocadas nas estradas, nos mercados e nas portas das residências — e não tanto em grandes santuários.

Os atletas veneravam Hermes nos ginásios, onde frequentemente existia uma estátua sua. Os mercadores invocavam-no antes das transações comerciais. Os viajantes pediam a sua proteção ao partir. Este carácter difuso e omnipresente no dia a dia grego diferenciava Hermes de divindades com cultos mais concentrados e formalizados.

Hermes e o seu equivalente romano: Mercúrio

Na religião romana, Hermes encontrou o seu equivalente em Mercúrio (Mercurius), cujo culto em Roma remonta provavelmente ao século V a.C. O nome latino deriva de merx (mercadoria), reforçando o papel comercial da divindade. Mercúrio partilhava com Hermes os mesmos atributos — o caduceu, o pétaso, as sandálias aladas — e as mesmas funções de mensageiro, protetor do comércio e guia dos mortos. O seu templo mais antigo em Roma situava-se no Aventino, e a sua festa, os Mercuralia, celebrava-se a 15 de maio. A influência de Hermes/Mercúrio sobre a cultura ocidental foi tão profunda que deu origem ao termo "hermético" (ligado ao saber secreto e esotérico) e às raízes etimológicas do nome do planeta Mercúrio, bem como do elemento químico mercúrio.

Hermes Trismegisto

Na Antiguidade tardia, a figura de Hermes fundiu-se com o deus egípcio Thoth, deus do conhecimento e da escrita, originando a figura sincrética de Hermes Trismegisto ("Hermes, o três vezes grande"). A esta figura atribuiu-se a autoria dos textos herméticos, um conjunto de escritos filosóficos e religiosos de natureza esotérica redigidos entre os séculos I e III d.C., que exerceram grande influência sobre o neoplatonismo, o gnosticismo e, mais tarde, o Renascimento europeu. O hermetismo, filosofia derivada destes escritos, foi uma das correntes de pensamento mais influentes do ocultismo ocidental.

Perguntas frequentes

Quem são os pais de Hermes?

Hermes é filho de Zeus, rei dos deuses olímpicos, e de Maia, a mais jovem das sete Plêiades e filha do titã Atlas. Nasceu numa gruta do monte Cilene, na Arcádia, na Grécia.

O que é o caduceu de Hermes?

O caduceu é o bastão dourado de Hermes, em torno do qual se enrolam duas serpentes, encimado por asas. Simbolizava a sua autoridade como arauto dos deuses e tinha, segundo o mito, o poder de adormecer ou despertar qualquer ser. Não deve ser confundido com o bastão de Esculápio, símbolo da medicina, que tem apenas uma serpente.

O que significa Hermes ser psicopompo?

Psicopompo é um termo grego que significa "condutor de almas". Hermes desempenhava o papel de guiar as almas dos mortos desde o mundo dos vivos até ao submundo, o reino de Hades. Era o único deus capaz de circular livremente entre todos os mundos: o Olimpo, a terra e o além.

Qual é o equivalente romano de Hermes?

O equivalente romano de Hermes é Mercúrio (Mercurius). As duas divindades partilham os mesmos atributos e funções: mensageiro dos deuses, protetor do comércio, dos viajantes e das almas dos mortos. O nome Mercúrio deriva do latim merx, que significa mercadoria.

O que é o hermetismo e que relação tem com Hermes?

O hermetismo é uma corrente filosófica e esotérica baseada nos escritos atribuídos a Hermes Trismegisto, figura sincrética que combina Hermes grego com o deus egípcio Thoth. Estes textos, redigidos entre os séculos I e III d.C., tratam de temas como a cosmologia, a alquimia e o conhecimento divino, e influenciaram profundamente o pensamento esotérico ocidental até ao Renascimento.

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