O Livro dos Mortos: o guia egípcio para o além
O Livro dos Mortos é um dos textos religiosos mais conhecidos do Antigo Egito: um conjunto de fórmulas mágicas, orações e instruções destinado a acompanhar o defunto na sua viagem pelo mundo dos mortos e a garantir-lhe uma existência feliz no além. Apesar do nome sugestivo que ganhou na Europa do século XIX, não se trata de um livro único nem de uma obra com autor, mas sim de uma compilação flexível de feitiços que variava de cópia para cópia, adaptada a cada pessoa. Foi utilizado durante mais de um milénio e meio e constitui uma das fontes mais ricas para compreender o que os Egípcios pensavam sobre a morte, o juízo e a vida eterna.
O que é, afinal, o Livro dos Mortos
A designação «Livro dos Mortos» é moderna: foi popularizada pelo egiptólogo alemão Karl Richard Lepsius, que em 1842 publicou um papiro do período ptolomaico e usou a expressão alemã Todtenbuch. Os próprios Egípcios chamavam-lhe algo bem diferente — algo como «Livro do Sair para a Luz do Dia» (em transliteração, rw nw prt m hrw). Este nome revela a sua função verdadeira: não celebrava a morte, mas a capacidade de o defunto continuar a «sair» e a viver, de se mover livremente e de renascer a cada amanhecer, à imagem do deus-sol.
O conjunto reúne cerca de duas centenas de fórmulas, habitualmente designadas por capítulos ou esconjuros, das quais nenhum exemplar conhecido contém a totalidade. Cada papiro era uma seleção. Os textos prometiam conhecimento secreto, proteção contra perigos e demónios, poder sobre os elementos, alimento e água no além, e a faculdade de assumir diferentes formas. Muitos vinham acompanhados de vinhetas — pequenas ilustrações coloridas que representavam cenas do além e funcionavam como apoio visual à eficácia mágica das palavras.
Origem e evolução
O Livro dos Mortos não surgiu do nada. Resultou de uma longa tradição funerária. As suas raízes encontram-se nos Textos das Pirâmides, inscritos nas câmaras reais do Império Antigo (cerca de 2400 a.C.) e reservados ao faraó. Mais tarde, no Império Médio, esses conteúdos democratizaram-se e passaram a ser pintados no interior dos sarcófagos de particulares — os chamados Textos dos Sarcófagos.
Foi no Império Novo, a partir de cerca de 1550 a.C., que estas fórmulas migraram para rolos de papiro e adquiriram a forma que hoje conhecemos como Livro dos Mortos. A passagem para o papiro tornou os textos portáteis, mais baratos de reproduzir e acessíveis a um leque mais alargado da população — todos os que pudessem pagar a um escriba. O género manteve-se em uso até ao período greco-romano, atravessando mais de mil e quinhentos anos.
Como era utilizado nos rituais funerários
O papiro era depositado no túmulo, junto ao corpo mumificado. Podia ser colocado dentro do sarcófago, enrolado entre as ligaduras da múmia, escondido em estatuetas ou numa caixa específica. Algumas fórmulas eram ainda inscritas em amuletos, nas paredes das câmaras funerárias ou nas próprias faixas de linho da múmia, multiplicando a sua proteção.
A produção destes manuscritos funcionava quase como uma encomenda. As pessoas mais abastadas mandavam redigir papiros personalizados, com o seu nome e títulos cuidadosamente integrados no texto. Quem dispunha de menos recursos podia adquirir exemplares pré-fabricados, nos quais os escribas tinham deixado espaços em branco para depois inserir o nome do defunto — nem sempre o faziam, e conhecem-se papiros com esses espaços por preencher. O comprimento e a riqueza das ilustrações dependiam diretamente da posição social e da fortuna do encomendante.
O juízo dos mortos e a pesagem do coração
O episódio mais célebre do Livro dos Mortos corresponde ao capítulo 125, que descreve o juízo do defunto perante o tribunal divino presidido por Osíris, senhor do além. A cena, frequentemente ilustrada, é conhecida como a pesagem do coração (ou psicostasia).
O coração do morto — considerado a sede da consciência e do carácter — era colocado num dos pratos de uma balança; no outro estava a pena de Maat, deusa da verdade, da justiça e da ordem cósmica. O deus Anúbis conduzia a pesagem e Tot, deus da escrita, registava o resultado. O defunto pronunciava então a chamada «confissão negativa», uma lista de quarenta e duas faltas que declarava nunca ter cometido. Se o coração equilibrava a pena, a alma era declarada justa e admitida na vida eterna. Se pesava mais, devorava-o Amut, criatura monstruosa parte crocodilo, parte leão e parte hipopótamo — e o defunto deixava de existir definitivamente. As fórmulas serviam precisamente para preparar o morto para esta prova, dando-lhe as respostas e os argumentos certos.
O Papiro de Ani e outros exemplares
O exemplar mais famoso é o Papiro de Ani, produzido por volta de 1250 a.C., na XIX dinastia, para um escriba chamado Ani. Conservado no Museu Britânico, em Londres, distingue-se pela qualidade excecional das suas vinhetas e pela extensão do texto, sendo considerado a versão mais magnífica que chegou aos nossos dias. Foi a sua tradução, no final do século XIX, que tornou o Livro dos Mortos conhecido do grande público ocidental.
A investigação continua a render achados notáveis. Em 2022-2023, uma escavação em Saqqara revelou um papiro com cerca de dezasseis metros — o primeiro Livro dos Mortos completo encontrado num século —, batizado «Papiro de Waziri». Mais recentemente, em 2026, foi anunciado um outro papiro monumental, com aproximadamente treze metros, descoberto na região de Al-Ghuraifa, com passagens que cartografam as doze horas da noite. Estes documentos, hoje à guarda do Museu Egípcio do Cairo, mostram que ainda há muito por desvendar sobre estas tradições.
Perguntas frequentes
O Livro dos Mortos é um único livro?
Não. É uma compilação de cerca de duzentas fórmulas mágicas das quais cada papiro continha apenas uma seleção. Não existe uma versão «oficial» nem fixa, e o conteúdo variava de acordo com a época e com quem o encomendava.
Para que servia exatamente?
Servia para proteger o defunto na viagem pelo além, fornecer-lhe conhecimentos e fórmulas mágicas, garantir-lhe alimento e capacidade de movimento e, sobretudo, ajudá-lo a superar o juízo final perante Osíris para alcançar a vida eterna.
Quem o podia ter?
Inicialmente os textos eram exclusivos do faraó, mas com o tempo democratizaram-se. No Império Novo, qualquer pessoa com meios para pagar a um escriba podia adquirir um exemplar, personalizado ou pré-fabricado com espaços para o nome.
Porque tem este nome?
A expressão «Livro dos Mortos» foi cunhada pelo egiptólogo Karl Richard Lepsius em 1842. O nome egípcio original significava algo como «Livro do Sair para a Luz do Dia», referindo-se à continuação da vida após a morte.