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Purinas: fontes alimentares e impacto na saúde

Publicado 9. novembro 2024 Atualizado 28. junho 2026

Onde encontrar purina e como ela impacta sua saúde?

As purinas são compostos orgânicos azotados presentes em todas as células vivas e numa vasta gama de alimentos. Constituem a base estrutural de moléculas essenciais como o ADN, o ARN e o ATP, participando em processos fundamentais do metabolismo energético. Quando degradadas pelo organismo, as purinas originam ácido úrico, um produto final que, em excesso, pode acumular-se no sangue e desencadear condições dolorosas como a gota e a nefrolitíase úrica. Compreender onde se encontram as purinas e de que forma influenciam a saúde é, por isso, relevante não apenas para doentes com patologias associadas, mas também para quem pretende fazer escolhas alimentares informadas.

O que são purinas: fundamentos bioquímicos

As purinas pertencem à família dos compostos heterocíclicos e integram dois grupos principais com relevância biológica: a adenina e a guanina. Estas bases nitrogenadas constituem blocos de construção dos ácidos nucleicos e de cofactores metabólicos como o NAD+ e a coenzima A. O organismo humano tanto as sintetiza endogenamente a partir de aminoácidos e ribose como as obtém por via alimentar.

A degradação das purinas segue uma via metabólica específica: a adenina e a guanina são convertidas, por sucessivas reacções enzimáticas, em hipoxantina e, em seguida, em xantina. A enzima xantina oxidase catalisa a conversão de xantina em ácido úrico de forma irreversível. No ser humano, ao contrário de outros mamíferos, a ausência da enzima uricase impede a degradação do ácido úrico em alantoína, tornando-o o produto final do catabolismo das purinas. Cerca de dois terços do ácido úrico produzido são excretados pelos rins e o restante é eliminado pelo intestino através da acção de bactérias.

Onde se encontram as purinas

Alimentos de origem animal com teor elevado

Os alimentos de origem animal são geralmente as fontes mais concentradas de purinas. As vísceras — em particular o fígado, o rim, o coração e o timo (chã de vitela) — situam-se no topo da lista, com valores que podem ultrapassar os 300 mg de purinas por 100 g de produto. O marisco, nomeadamente mexilhões, amêijoas, camarão e ostras, apresenta igualmente teores muito elevados. Entre os peixes, destacam-se as anchovas, as sardinhas, o arenque, a truta e o atum enlatado como fontes particularmente ricas. As carnes de caça, como o veado e o javali, e certas aves, como o peru, também se classificam na faixa de alto teor.

As carnes vermelhas em geral (vaca, porco, borrego) contêm purinas em quantidade moderada a elevada, com o teor a variar consoante o corte e o modo de confecção. A cozedura em água pode reduzir o conteúdo de purinas, uma vez que estas são hidrossolúveis e passam parcialmente para o caldo.

Alimentos de origem vegetal

Algumas leguminosas e hortícolas contêm purinas em quantidades não negligenciáveis. Os espargos, os espinafres, as ervilhas, os cogumelos e a couve-flor são frequentemente citados como vegetais de teor moderado a alto. No entanto, as investigações epidemiológicas disponíveis até 2026 indicam que o consumo de purinas de origem vegetal não aumenta o risco de gota de forma clinicamente significativa, distinguindo-se claramente do perfil de risco das purinas animais. As leguminosas, em particular, são consideradas seguras e até aconselháveis como substituto proteico das carnes vermelhas e do marisco em dietas de controlo do ácido úrico.

Bebidas alcoólicas e refrigerantes

A cerveja apresenta um teor de purinas relevante, proveniente do malte de cevada, e é um dos factores dietéticos mais fortemente associados ao risco de gota. O álcool em geral interfere também na excreção renal de ácido úrico, amplificando o efeito metabólico das purinas ingeridas. Os refrigerantes açucarados com frutose, embora não contenham purinas directamente, estimulam a sua síntese endógena ao acelerar o catabolismo de nucleótidos, elevando igualmente os níveis séricos de ácido úrico.

Metabolismo e hiperuricemia

O nível sérico normal de ácido úrico situa-se, em geral, abaixo de 6,8 mg/dL. Acima deste valor, o ácido úrico tende a cristalizar em condições fisiológicas, fenómeno que define a hiperuricemia. Estima-se que cerca de 10% dos indivíduos apresentem hiperuricemia documentada pelo menos uma vez na vida, embora nem todos desenvolvam sintomas. A hiperuricemia resulta de um desequilíbrio entre a produção (endógena e dietética) e a eliminação de ácido úrico; factores como a insuficiência renal, a obesidade, certos medicamentos (diuréticos tiazídicos, aspirina em baixa dose) e perturbações metabólicas contribuem de forma significativa para esse desequilíbrio, independentemente da dieta.

Impacto na saúde

Gota

A gota é a consequência clínica mais conhecida da hiperuricemia crónica. Os cristais de urato monossódico depositam-se preferencialmente nas articulações periféricas, em especial na primeira articulação metatarsofalângica (base do dedo grande do pé), produzindo episódios agudos de artrite extremamente dolorosos. À escala global, o número de casos de gota ascendia a 55,8 milhões em 2020, segundo o estudo Global Burden of Disease, um aumento de 22,5% relativamente a 1990. As projecções apontam para cerca de 95,8 milhões de casos em 2050, impulsionados pelo envelhecimento populacional, pela obesidade e pela dieta ocidental. A doença é três vezes mais frequente no sexo masculino do que no feminino.

Litíase renal úrica

A hiperuricemia pode também favorecer a formação de cálculos renais de ácido úrico, que representam entre 5% e 10% de todos os cálculos urinários. Em pH urinário baixo, o ácido úrico precipita com maior facilidade, um mecanismo que explica a associação entre dietas hipercalóricas ricas em proteínas animais e a nefrolitíase úrica.

Risco cardiovascular

A associação entre hiperuricemia e doenças cardiovasculares é objecto de investigação activa. Estudos publicados na Revista Portuguesa de Cardiologia e em publicações internacionais documentam uma correlação entre níveis elevados de ácido úrico e hipertensão arterial, síndrome metabólica e maior risco de eventos cardiovasculares. Contudo, a relação causal não está completamente estabelecida, sendo a hiperuricemia considerada por muitos investigadores um marcador de risco mais do que um factor causal independente.

Alimentação e controlo das purinas

A gestão dietética das purinas é um componente do tratamento da gota e da hiperuricemia, embora deva ser combinada com terapêutica farmacológica quando indicada. Uma redução da ingestão de purinas para valores inferiores a 700 mg por dia permite diminuir o ácido úrico sérico em 1 a 2 mg/dL ao longo de quatro a oito semanas, segundo orientações clínicas actuais.

As recomendações gerais passam por limitar as vísceras, o marisco e os peixes gordos, moderar o consumo de carnes vermelhas e evitar a cerveja e os refrigerantes com frutose. Em contrapartida, os lacticínios magros — em particular o leite desnatado e o iogurte magro — demonstraram efeito uricosúrico (promoção da excreção de ácido úrico pela urina), sendo considerados benéficos. As cerejas, frescas ou em sumo concentrado sem adição de açúcar, têm evidência de redução da frequência das crises de gota, atribuída às suas propriedades anti-inflamatórias e ao efeito de diminuição do ácido úrico. Alimentos ricos em vitamina C, como o kiwi, a laranja e o pimento, também favorecem a excreção renal de ácido úrico. A hidratação adequada — recomendando-se a ingestão de pelo menos dois litros de água por dia — facilita a eliminação renal do ácido úrico e reduz o risco de cristalização.

Os cereais integrais ganharam atenção na investigação recente: um estudo publicado em 2025 na Arthritis Care & Research identificou uma associação entre o consumo regular de cereais integrais de aveia e a redução do risco de gota, relacionada com o seu menor teor de purinas e com o efeito regulador sobre a glicemia.

Perguntas frequentes

O que são purinas e para que servem no organismo?

As purinas são compostos orgânicos azotados que integram a estrutura do ADN, do ARN e de moléculas energéticas como o ATP. O organismo produz-nas de forma endógena e obtém-nas também através da alimentação. São essenciais para a divisão celular e para o metabolismo energético.

Que alimentos têm mais purinas?

As vísceras (fígado, rim, timo), o marisco (mexilhões, amêijoas, camarão), os peixes gordos (sardinhas, anchovas, arenque), as carnes de caça e a cerveja são os alimentos com maior concentração de purinas. As leguminosas e alguns hortícolas também contêm purinas, mas sem o mesmo impacto negativo sobre os níveis de ácido úrico.

As purinas dos vegetais causam gota?

A evidência científica disponível indica que as purinas de origem vegetal, presentes em leguminosas, espargos e espinafres, não aumentam significativamente o risco de gota, ao contrário das purinas de origem animal. Os vegetais com purinas podem ser consumidos com segurança na maioria dos casos.

Como se pode reduzir o ácido úrico através da dieta?

Reduzir o consumo de vísceras, marisco, carnes vermelhas e álcool (especialmente cerveja), aumentar a ingestão de água, consumir lacticínios magros, cerejas e alimentos ricos em vitamina C são as estratégias dietéticas com maior suporte científico para a redução dos níveis de ácido úrico.

A gota é apenas causada pela alimentação?

Não. Embora a dieta influencie os níveis de ácido úrico, a gota resulta de uma combinação de factores, incluindo predisposição genética, insuficiência renal, obesidade, certos medicamentos e perturbações metabólicas. A alimentação é um factor modificável importante, mas raramente o único determinante.

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