Como os ursos usam o olfato para encontrar comida
O olfato é, sem qualquer dúvida, o sentido mais importante na vida de um urso. Onde os humanos dependem sobretudo da visão, os ursos interpretam o mundo através do nariz: localizam alimento, evitam perigos, encontram parceiros e reconhecem rivais a distâncias que parecem inverosímeis. Estima-se que o olfato de um urso seja cerca de 2100 vezes mais apurado do que o de uma pessoa e até sete vezes superior ao de um cão de São Humberto (bloodhound), uma das raças com melhor capacidade de rastreio por cheiro. Este texto explica como funciona essa capacidade extraordinária e de que forma os ursos a utilizam para se alimentarem.
Porque é que os ursos têm um olfato tão apurado
A razão é anatómica. O bolbo olfativo — a região do cérebro responsável por processar os odores — é proporcionalmente muito maior nos ursos do que nos humanos, chegando a ser cerca de cinco vezes maior, apesar de o cérebro do urso ter, no total, aproximadamente um terço do tamanho do nosso. Esta desproporção mostra quanto recurso o animal dedica à interpretação dos cheiros.
A diferença na superfície sensorial é igualmente marcante. Enquanto um ser humano possui cerca de cinco milhões de recetores olfativos, um urso tem mais de 200 milhões. O focinho alongado está revestido por dezenas de milhões de terminações nervosas sensíveis aos odores, e o nariz contém centenas de minúsculos músculos que o animal manipula com grande precisão, ajustando as narinas para captar melhor as correntes de ar. É esta combinação — enorme área recetora e um cérebro especializado em descodificá-la — que confere ao urso uma das melhores capacidades olfativas entre os mamíferos terrestres.
A que distância um urso consegue cheirar a comida
As distâncias envolvidas ajudam a compreender a dimensão desta capacidade. Em condições favoráveis de vento e relevo, os ursos-pardos (grizzly) e os ursos-negros conseguem detetar odores a cerca de 30 quilómetros (aproximadamente 20 milhas). O urso-polar é ainda mais notável: foi documentado a seguir focas ao longo de distâncias na ordem dos 60 quilómetros (cerca de 40 milhas).
Estes números dependem muito das circunstâncias. Um vento favorável transporta as moléculas odoríferas a grandes distâncias, ao passo que terreno acidentado, vegetação densa ou ar parado reduzem o alcance. Por isso, a mesma carcaça pode ser detetada a vários quilómetros num dia ventoso e passar despercebida noutro.
Como o urso interpreta os cheiros no terreno
Quem observa ursos na natureza repara frequentemente num comportamento característico: o animal levanta a cabeça e move o focinho lentamente de um lado para o outro. Este gesto não é aleatório — serve para amostrar as correntes de ar provenientes de várias direções e aumentar a probabilidade de captar um rasto de odor ténue. Em terreno aberto, é comum ver um urso erguer-se sobre as patas traseiras; ao contrário do que muitas vezes se julga, raramente é um sinal de agressividade, mas antes uma forma de elevar o nariz e alcançar correntes de ar mais altas.
O olfato do urso não se limita a registar a presença de comida: permite-lhe distinguir entre diferentes fontes de cheiro. O animal consegue diferenciar o odor de um alimento, o de um rival da mesma espécie ou o de um acampamento humano, mesmo quando estes chegam misturados e a grande distância. Essa capacidade de discriminação fina é fundamental para decidir se vale a pena percorrer vários quilómetros em busca de uma refeição ou se é mais prudente afastar-se.
O olfato ao serviço da alimentação
Como animais maioritariamente omnívoros e oportunistas, os ursos exploram uma enorme variedade de alimentos ao longo do ano, e o olfato é a ferramenta que orienta praticamente todas essas escolhas:
- Frutos, bagas e vegetação: os ursos localizam manchas de frutos silvestres maduros pelo aroma, o que lhes permite concentrar-se nas zonas mais produtivas durante o final do verão e o outono.
- Carcaças: o cheiro de um animal morto é detetável a vários quilómetros e constitui uma fonte de energia preciosa, sobretudo após a hibernação.
- Peixe: durante as épocas de desova, ursos-pardos detetam o salmão na água, por vezes antes mesmo de o verem.
- Insetos e larvas: o olfato ajuda a localizar formigueiros, ninhos de abelhas e troncos apodrecidos repletos de larvas ricas em proteína.
- Presas escondidas: o urso-polar consegue detetar focas através de camadas de gelo e neve, farejando os respiradouros e as tocas onde as crias se abrigam.
Esta dependência do olfato torna-se especialmente crítica em momentos-chave do ciclo anual. Antes da hibernação, os ursos entram num período de alimentação intensa conhecido por hiperfagia, durante o qual precisam de acumular grandes reservas de gordura. Nessa fase, a eficiência com que o nariz localiza alimentos calóricos pode fazer a diferença entre sobreviver ou não ao longo inverno.
Quando o olfato aproxima os ursos das pessoas
O mesmo sentido que torna os ursos tão eficazes na natureza também explica muitos conflitos com seres humanos. Restos de comida, caixotes do lixo, alimento para animais e mochilas mal guardadas libertam odores que um urso deteta a grande distância, e um animal que aprende a associar pessoas a comida fácil tende a regressar. É por esta razão que zonas com ursos recomendam o uso de recipientes herméticos e à prova de odores, bem como o armazenamento correto dos alimentos longe das áreas de dormida. Compreender o poder do olfato do urso é, em última análise, uma questão de segurança — tanto para as pessoas como para os próprios animais, já que um urso habituado a procurar comida humana acaba frequentemente por ser abatido.
Perguntas frequentes
Quão melhor é o olfato de um urso comparado com o de um humano?
Estima-se que o olfato de um urso seja cerca de 2100 vezes mais apurado do que o de uma pessoa, e até sete vezes superior ao de um cão de São Humberto. Esta capacidade deve-se a um bolbo olfativo proporcionalmente muito maior e a mais de 200 milhões de recetores olfativos, contra os cerca de cinco milhões dos humanos.
A que distância um urso consegue cheirar comida?
Em boas condições de vento e relevo, ursos-pardos e ursos-negros detetam odores a cerca de 30 quilómetros. O urso-polar foi documentado a seguir focas ao longo de distâncias na ordem dos 60 quilómetros. O alcance varia muito consoante o vento, a humidade e o tipo de terreno.
Como é que o urso-polar encontra focas debaixo do gelo?
O urso-polar usa o olfato para detetar focas através de camadas de gelo e neve, localizando os respiradouros que estas mantêm na superfície e as tocas onde escondem as crias. Aproxima-se em silêncio e espera junto a esses pontos.
Porque é que os ursos se aproximam de acampamentos e lixo?
Porque o seu olfato deteta facilmente odores de comida, restos e resíduos a grande distância. Um urso que aprende a associar pessoas a alimento fácil tende a voltar, o que explica a recomendação de guardar a comida em recipientes herméticos e afastados das zonas de dormida.