Porque mudam de cor os camaleões? A ciência explicada
Os camaleões são frequentemente apresentados como mestres da camuflagem, capazes de se confundirem com qualquer fundo. A realidade, revelada pela investigação científica das últimas décadas, é mais subtil e mais fascinante: a mudança de cor destes répteis não serve, na maioria dos casos, para se esconderem, mas sobretudo para comunicarem entre si e para regularem a temperatura do corpo. O mecanismo que torna esta transformação possível foi clarificado em 2015 por uma equipa da Universidade de Genebra e continua, em 2026, a ser uma referência incontornável para compreender este fenómeno.
Como funciona a mudança de cor
Durante muito tempo julgou-se que os camaleões mudavam de cor apenas através da dispersão de pigmentos dentro de células especializadas. Sabe-se hoje que o processo é diferente e assenta sobretudo na física da luz. Na pele destes animais existe uma camada de células chamadas iridóforos, que contêm uma rede ordenada de minúsculos cristais de guanina, os chamados nanocristais.
Estes nanocristais estão dispostos como uma grelha regular, formando aquilo a que os investigadores chamam um cristal fotónico. A cor que vemos depende da distância entre os cristais. Quando o camaleão está relaxado, os nanocristais encontram-se muito próximos uns dos outros e refletem comprimentos de onda curtos, como o azul. Quando o animal fica excitado, a distância entre os cristais aumenta e a pele passa a refletir comprimentos de onda mais longos, como o amarelo, o laranja ou o vermelho.
A cor verde habitual resulta da combinação deste azul estrutural com pigmentos amarelos presentes em camadas superiores da pele. Por outras palavras, o camaleão não pinta a pele de novas cores: reorganiza ativamente a sua própria nanoestrutura para alterar a forma como a luz é refletida.
Duas camadas de iridóforos
Um dos contributos mais relevantes da investigação foi a descoberta de que os camaleões possuem duas camadas sobrepostas de iridóforos. A camada superficial, com cristais mais pequenos e organizados, é responsável pelas mudanças de cor visíveis. Por baixo encontra-se uma segunda camada, com cristais maiores e mais desorganizados, que reflete uma grande quantidade de luz solar, sobretudo na faixa do infravermelho próximo.
Esta segunda camada tem provavelmente uma função térmica: ajuda a proteger o animal do calor excessivo, refletindo parte da radiação solar. A presença destas duas camadas é considerada uma novidade evolutiva dos camaleões, permitindo conciliar a capacidade de exibição espetacular com uma forma de proteção passiva contra o sobreaquecimento.
Porque mudam de cor: as verdadeiras razões
Ao contrário da ideia popular, a camuflagem não é o principal motivo da mudança de cor. As três funções mais documentadas são as seguintes.
Comunicação social
Esta é, segundo a investigação, a razão mais importante. Os machos exibem cores vivas e contrastantes para impressionar rivais ou afirmar domínio durante confrontos. Cores intensas podem sinalizar agressividade ou disponibilidade para o acasalamento, enquanto tons mais apagados podem indicar submissão. As fêmeas, em várias espécies, alteram a coloração para sinalizar recetividade ou, pelo contrário, rejeição de um pretendente.
Regulação da temperatura
Sendo animais de sangue frio, os camaleões dependem do ambiente para controlar a temperatura corporal. Quando precisam de aquecer, tendem a escurecer a pele, absorvendo mais calor; quando o calor é excessivo, adotam tons mais claros que refletem a luz solar e ajudam a arrefecer o corpo. Esta resposta é frequente nas primeiras horas da manhã, quando muitos camaleões surgem mais escuros para captar o calor do sol nascente.
Estado físico e emocional
A cor reflete também o estado interno do animal. O stress, o medo, a doença ou o frio traduzem-se muitas vezes em tons escuros ou acastanhados. Um camaleão saudável e tranquilo apresenta normalmente uma coloração estável e equilibrada, pelo que a cor funciona como um indicador útil do seu bem-estar.
E a camuflagem?
A camuflagem existe, mas tem um papel secundário. A coloração de repouso de muitas espécies já se aproxima do verde e do castanho da vegetação onde vivem, o que por si só oferece discrição. Estudos recentes, publicados em 2025 sobre o camaleão-de-abas (Chamaeleo dilepis), confirmam que algumas espécies conseguem efetivamente ajustar a cor ao fundo para se tornarem menos visíveis, sobretudo perante predadores. Ainda assim, esse ajuste convive com as funções sociais e térmicas, num sistema multifuncional e não numa simples capacidade de "desaparecer".
Como o corpo controla o processo
A mudança de cor é desencadeada e regulada pelo sistema nervoso e por hormonas, em resposta a estímulos externos e internos: a luz, a temperatura, a presença de outro camaleão ou uma situação de ameaça. Estes sinais provocam alterações nas células da pele que modificam a distância entre os nanocristais, traduzindo um estado fisiológico ou emocional numa cor visível. É esta ligação direta entre o sistema nervoso e a estrutura da pele que explica a rapidez com que alguns camaleões transformam o seu aspeto.
Perguntas frequentes
Os camaleões mudam de cor para se camuflarem?
Nem sempre. A camuflagem é apenas uma das funções e, segundo a investigação, não é a principal. A mudança de cor serve sobretudo para comunicar com outros camaleões e para regular a temperatura corporal, embora algumas espécies também consigam aproximar a cor do fundo para se protegerem de predadores.
Como conseguem mudar de cor tão depressa?
A pele contém células chamadas iridóforos, com nanocristais dispostos numa grelha regular. Ao alterar a distância entre estes cristais, o animal muda os comprimentos de onda de luz refletidos. O processo é controlado pelo sistema nervoso e por hormonas, o que permite respostas rápidas.
O que significa um camaleão ficar escuro?
Tons escuros costumam indicar necessidade de absorver calor, mas também stress, medo, frio ou doença. Já cores vivas e contrastantes estão geralmente associadas à comunicação social, como exibições de domínio ou de acasalamento.
Os camaleões podem ficar de qualquer cor?
Não. Cada espécie tem uma paleta limitada, definida pelos pigmentos e pela estrutura da sua pele. As cores variam tipicamente entre verdes, azuis, amarelos, laranjas, vermelhos e castanhos, mas nenhum camaleão consegue reproduzir qualquer cor ou padrão à vontade.