Por que os ursos hibernam? Entenda essa curiosidade
Durante os meses de inverno, os ursos desaparecem das florestas e montanhas onde habitam, recolhendo-se durante semanas ou meses sem comer, beber, urinar nem defecar. Este comportamento, frequentemente designado por hibernação, é uma das adaptações biológicas mais extraordinárias do reino animal. Compreender por que razão os ursos hibernam exige uma análise dos mecanismos fisiológicos envolvidos, das pressões evolutivas que moldaram esse comportamento e das descobertas científicas mais recentes sobre o tema.
Hibernação ou torpor? Uma distinção importante
Do ponto de vista científico, os ursos não realizam uma hibernação verdadeira no sentido estrito do termo. Os animais que hibernam de forma clássica — como os esquilos-terrestres ou os ouriços-cacheiros — reduzem a temperatura corporal até valores próximos dos 0 °C e apresentam frequências cardíacas extremamente baixas, necessitando de vários minutos para despertar. Os ursos, por outro lado, entram num estado fisiológico denominado torpor ou letargo invernal.
Durante o torpor, a temperatura corporal dos ursos desce apenas entre 5 a 7 °C, passando de cerca de 38 °C para valores entre 31 e 35 °C. Esta queda moderada permite-lhes despertar com relativa rapidez caso sejam perturbados — uma capacidade que os distingue dos hibernadores clássicos. Apesar desta diferença, o torpor dos ursos é frequentemente tratado como uma forma de hibernação na literatura científica e no vocabulário corrente, dado que implica adaptações metabólicas igualmente profundas.
Por que razão os ursos hibernam?
A causa primária da hibernação dos ursos é a escassez sazonal de alimento. Durante o inverno, nas regiões temperadas e subárticas onde a maioria das espécies de urso habita, a disponibilidade de frutos, bagas, insetos, peixes e outras fontes alimentares reduz-se drasticamente. Manter um nível de atividade normal nestas condições implicaria um gasto energético que o ambiente não conseguiria sustentar.
A solução evolutiva desenvolvida pelos ursos consiste em reduzir o metabolismo basal em cerca de 75%, passando a consumir exclusivamente as reservas de gordura acumuladas ao longo do outono. Este período de intensa alimentação pré-hibernal, designado hiperfagia, pode levar um urso a consumir entre 15 000 e 20 000 quilocalorias por dia para formar as reservas adiposas necessárias à sobrevivência invernal.
O que acontece no organismo durante o torpor
Frequência cardíaca e respiração
Durante o torpor, a frequência cardíaca dos ursos cai de valores normais de 40 a 70 batimentos por minuto para apenas 8 a 10 batimentos por minuto. Estudos registaram pausas entre batimentos que podem atingir os 20 segundos. A frequência respiratória diminui de forma semelhante, chegando a apenas uma a duas respirações por minuto.
Metabolismo e nutrição
O organismo do urso passa a depender quase exclusivamente da lipólise — a quebra de triglicerídeos armazenados no tecido adiposo em ácidos gordos e glicerol — para fornecer energia aos órgãos e tecidos. Esta adaptação é notável porque permite ao animal manter a função cerebral e orgânica durante meses sem qualquer aporte alimentar externo.
Ao contrário do que seria esperado num animal sedentário em jejum prolongado, os ursos preservam em grande medida a sua massa muscular. Investigação publicada em estudos de fisiologia demonstrou que o músculo esquelético dos ursos negros apresenta uma atrofia mínima após meses de inatividade — um fenómeno que os cientistas procuram replicar para prevenir a sarcopenia em humanos acamados ou em astronautas.
Ausência de excreção
Durante todo o período de torpor, os ursos não urinam nem defecam. Os resíduos azotados resultantes do catabolismo proteico são reprocessados pelo organismo e reincorporados na síntese de proteínas — um mecanismo de reciclagem metabólica sem paralelo nos mamíferos não hibernadores.
Quanto tempo dura a hibernação dos ursos?
A duração do torpor varia consoante a espécie, o sexo, a localização geográfica e as condições ambientais de cada ano. Em geral, os ursos hibernam entre três a sete meses. As fêmeas grávidas tendem a entrar em torpor mais cedo e a permanecer na toca por mais tempo, uma vez que os filhotes nascem durante este período — frequentemente em janeiro ou fevereiro — e necessitam de amamentação intensiva antes de o grupo emergir na primavera.
Os ursos polares (Ursus maritimus) constituem uma exceção: os machos e as fêmeas sem crias raramente hibernam, dado que dependem da caça de focas no gelo marinho durante todo o ano. Apenas as fêmeas grávidas se recolhem em tocas de neve para dar à luz.
Espécies e variações geográficas
Das oito espécies de urso existentes, as que habitam regiões com invernos rigorosos — como o urso-pardo (Ursus arctos), o urso-negro americano (Ursus americanus) e o urso-negro asiático (Ursus thibetanus) — praticam o torpor invernal de forma regular. Em latitudes mais baixas e climas mais amenos, como ocorre com alguns ursos-pardos da Península Ibérica, o período de letargo pode ser mais curto ou mesmo inexistente em anos de abundância alimentar.
A ciência moderna e as implicações para a medicina humana
O estudo da hibernação dos ursos tem ganho crescente relevância na investigação biomédica. Uma revisão publicada em 2025 na revista Annual Review of Genetics sistematizou os avanços recentes na análise genómica do torpor dos ursos, identificando genes e vias moleculares associados à regulação do metabolismo, à resistência à insulina e à preservação muscular.
As implicações clínicas potenciais são diversas. A compreensão dos mecanismos pelos quais os ursos desenvolvem resistência à insulina sazonal sem desenvolver diabetes tipo 2 pode abrir novas vias terapêuticas para doenças metabólicas humanas. A capacidade de preservar massa muscular em condições de imobilidade prolongada é igualmente relevante para o tratamento de doentes acamados, a medicina de reabilitação e a exploração espacial de longa duração.
Perguntas frequentes
- Os ursos acordam durante a hibernação?
- Sim. Ao contrário dos hibernadores clássicos, os ursos podem despertar temporariamente durante o torpor, especialmente se forem perturbados. As fêmeas acordam para cuidar dos filhotes recém-nascidos, mesmo permanecendo na toca.
- Os ursos comem ou bebem durante a hibernação?
- Não. Durante o período de torpor, os ursos não ingerem alimentos nem água. O organismo obtém energia exclusivamente a partir das reservas de gordura acumuladas antes do inverno e recicla os fluidos internos para manter a hidratação.
- A hibernação dos ursos é o mesmo que o sono profundo?
- Não. O torpor dos ursos é um estado fisiológico distinto do sono, caracterizado por reduções profundas do metabolismo, da frequência cardíaca e da temperatura corporal que não ocorrem durante o sono normal.
- O que comem os ursos antes de hibernar?
- Durante a hiperfagia outonal, os ursos alimentam-se vorazmente de frutos silvestres, bolotas, peixes (sobretudo salmão), insetos e carniça, podendo consumir entre 15 000 e 20 000 quilocalorias diárias para acumular as reservas de gordura necessárias.
- Os ursos da Península Ibérica hibernam?
- Os ursos-pardos (Ursus arctos) que habitam a Cordilheira Cantábrica e os Pirenéus entram em torpor invernal, geralmente entre dezembro e março. A duração pode variar conforme as condições climáticas e a disponibilidade de alimento.