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Hermes na mitologia grega: história, mitos e atributos do deus

Publicado 7. outubro 2025 Atualizado 28. junho 2026

Qual é a fascinante história do deus Hermes na mitologia?

Hermes é uma das divindades mais complexas e fascinantes do panteão olímpico grego. Filho de Zeus e da ninfa Maia, ele desempenhava simultaneamente o papel de mensageiro dos deuses, protetor de viajantes e comerciantes, guia das almas dos mortos e hábil trapaceiro. A sua natureza multifacetada tornava-o num ser liminar: capaz de transitar entre o mundo dos vivos e o dos mortos, entre o Olimpo e a terra, entre o sagrado e o profano. Poucos deuses da Antiguidade encarnavam tanta versatilidade e inteligência num único mito.

Nascimento e origens

Segundo a mitologia grega, Hermes nasceu numa gruta do monte Cilene, na Arcádia, região montanhosa do Peloponeso. A sua mãe, Maia, era a mais velha e reservada das sete Plêiades, filhas do titã Atlas. Zeus, atraído pela beleza de Maia, visitava-a secretamente durante a noite enquanto Hera dormia.

O culto de Hermes é, em grande medida, pré-helénico, remontando aos pelasgos — povos que habitaram a Grécia muito antes da chegada dos aqueus. Na Arcádia, a sua veneração associava-se originalmente à fertilidade dos rebanhos e à proteção dos pastores. Com a expansão da civilização grega e o florescimento do comércio marítimo, as funções de Hermes multiplicaram-se e refinaram-se até atingir a riqueza simbólica que os textos homéricos e hesíodicos retratam.

Atributos e símbolos

A iconografia de Hermes é entre as mais reconhecíveis da Antiguidade. Os seus principais atributos eram:

  • O caduceu (kerykeion em grego): um bastão entrelaçado por duas serpentes e encimado por asas. Era o símbolo da sua função de arauto e garantia-lhe imunidade em missões diplomáticas. Na modernidade, o caduceu é frequentemente confundido com o bastão de Asclépio, símbolo da medicina, que possui apenas uma serpente.
  • As sandálias aladas (talária): conferiam-lhe velocidade sobre-humana, permitindo-lhe percorrer em instantes a distância entre o Olimpo e o mundo dos mortais.
  • O pétaso: chapéu de abas largas, típico dos viajantes gregos, por vezes representado com asas laterais.
  • A bolsa ou marsúpio: associada ao comércio e à riqueza.

Nas representações artísticas, Hermes surge habitualmente como um jovem atlético, de expressão viva e esperta. O escultor Praxíteles imortalizou-o numa das mais célebres estátuas da Antiguidade, conhecida como Hermes com o jovem Dioniso, descoberta em Olmpia e datada do século IV a.C.

O dia mais agitado da história: o nascimento de um trapaceiro

O Hino Homérico a Hermes descreve um recém-nascido extraordinário. Ainda no dia em que nasceu, Hermes abandonou o berço de vime, saiu da gruta da sua mãe e aventurou-se pelo mundo. Ao encontrar uma tartaruga, matou-a e, com o casco do animal e cordas feitas de tripa de carneiro, fabricou a primeira lira da história. Com o instrumento em mãos, improvisou uma melodia em honra dos seus próprios pais — um gesto simultaneamente encantador e calculado.

Não satisfeito, o deus-criança aventurou-se pela Tessália e roubou cinquenta bois do rebanho sagrado de Apolo, fazendo-os andar para trás de modo a apagar os rastos. Regressou à gruta antes do amanhecer e voltou a deitar-se no berço como se fosse um bebé inocente. Apolo, furioso, encontrou o ladrão e levou-o perante Zeus. O pai dos deuses, divertido com a esperteza do filho, ordenou que o litígio fosse resolvido pelos próprios irmãos. Hermes ofereceu a lira a Apolo como compensação — gesto que desarmou o deus da música, que em troca lhe cedeu o rebanho e, mais tarde, o caduceu. Deste modo, o deus recém-nascido selou uma aliança com Apolo e conquistou o seu lugar entre os Olímpicos.

O matador de Argos

Um dos epítetos mais antigos de Hermes é Argeïphontes, que significa "o matador de Argos". O mito remete para o episódio em que Zeus se apaixonou pela ninfa Io e a transformou numa vitela branca para a esconder de Hera. A deusa, desconfiante, colocou Io sob a vigilância de Argos Panoptes — um gigante de cem olhos que nunca dormia por completo, mantendo sempre alguns abertos.

Zeus enviou Hermes para libertar Io. O deus disfarçou-se de pastor e aproximou-se de Argos contando histórias e tocando flauta. Com a doçura monótona da música e o dom da palavra, foi adormecendo os cem olhos do gigante um por um. Quando o último olho fechou, Hermes decapitou Argos. Hera, em sinal de luto, colocou os olhos do guardião na cauda do pavão — razão pela qual, segundo o mito, essa ave ostenta os seus característicos "olhos" na plumagem.

Hermes psicopompo: o guia das almas

Entre todas as funções de Hermes, a de psicopompo — "condutor de almas" — era das mais solenes. Cabia-lhe escortar as almas dos recém-falecidos até à entrada do submundo, onde estas atravessavam o rio Estige sob o transporte do barqueiro Caronte. Hermes não julgava as almas nem determinava o seu destino: era apenas o guia, a figura de transição entre dois mundos.

Esta função tornava Hermes num dos raros deuses com livre-trânsito no Hades, o que lhe conferia um estatuto único. No mito de Orfeu, é Hermes quem acompanha Eurídice de regresso ao mundo dos vivos — e novamente ao submundo quando Orfeu quebra a condição imposta. No ciclo de Perséfone, foi também Hermes o enviado por Zeus para negociar com Hades o retorno da jovem à sua mãe Deméter, permitindo a chegada da primavera à terra.

Protetor do comércio, das estradas e dos ladrões

Hermes era igualmente o patrono do comércio, da eloquência e da negociação. Nos mercados das cidades gregas, a sua efígie era uma presença constante, invocada para garantir transações justas e prosperidade. Curiosamente, esta proteção estendia-se também aos ladrões — talvez em memória do roubo do gado de Apolo —, o que tornava Hermes num deus de natureza moralmente ambígua, situado além das categorias simples de bem e mal.

Nas encruzilhadas e ao longo das estradas gregas, erguiam-se estátuas rectangulares de pedra conhecidas como hermai (singular: herma): colunas com o busto de Hermes no topo e um falo em relevo, símbolo de fertilidade e proteção. Estas estruturas marcavam os caminhos, delimitavam propriedades e serviam como amuletos contra o mal. A sua profanação em Atenas, em 415 a.C. — véspera da expedição à Sicília —, provocou um escândalo político sem precedentes e levou à acusação de Alcibíades.

Hermes na Guerra de Tróia e outros mitos

Na Ilíada e na Odisseia, Hermes surge em missões delicadas. É ele quem guia o rei Príamo em segurança através do acampamento grego até à tenda de Aquiles, para que o velho pai possa resgatar o corpo do filho Heitor. Na Odisseia, Hermes visita a ninfa Calipso para lhe transmitir a ordem de Zeus de libertar Ulisses, e fornece ao herói a planta mágica moly que o protege dos feitiços de Circe.

Hermes participou também no Julgamento de Páris, conduzindo Afrodite, Hera e Atena ao monte Ida, onde o príncipe troiano deveria eleger a mais bela. O deus não tomou partido, cumprindo apenas o seu papel de mensageiro e guia — coerente com a sua natureza de mediador neutro.

O culto de Hermes na Grécia antiga

O culto de Hermes era transversal ao mundo grego. Em Atenas, os Hermaia eram festividades anuais durante as quais os jovens participavam em competições atléticas em sua honra. Em Olímpia, existia um altar dedicado ao deus. A Arcádia, terra natal segundo o mito, era considerada o principal centro do seu culto primitivo, onde se venera uma Hermes mais agreste e ligado à natureza selvagem.

Os seus sacerdotes e devotos incluíam mercadores, atletas, oradores, poetas e todos os que dependiam da agilidade — física ou intelectual — para a sua subsistência.

Hermes e o legado na cultura ocidental

O equivalente romano de Hermes era Mercúrio, cujo nome sobrevive no planeta mais próximo do Sol, no elemento químico mercúrio (Hg) e no nome de inúmeras empresas e marcas ligadas à velocidade e ao comércio. O adjetivo hermético deriva do conceito de Hermes Trismegisto ("três vezes grande"), uma figura sincrética greco-egípcia a quem se atribuía a autoria de textos filosóficos e alquímicos medievais conhecidos como o Corpus Hermeticum. O caduceu de Hermes, apesar das frequentes confusões com o bastão de Asclépio, tornou-se símbolo de associações médicas e farmacêuticas em várias culturas.

Perguntas frequentes

Quem eram os pais de Hermes?

Hermes era filho de Zeus, rei dos deuses do Olimpo, e de Maia, a mais velha das Plêiades e filha do titã Atlas. Nasceu numa gruta do monte Cilene, na Arcádia.

O que é o caduceu de Hermes?

O caduceu (kerykeion em grego) é um bastão entrelaçado por duas serpentes e encimado por asas, símbolo da função de arauto e mensageiro de Hermes. Não deve ser confundido com o bastão de Asclépio, símbolo da medicina, que possui apenas uma serpente.

O que significa Hermes ser psicopompo?

O termo psicopompo significa "condutor de almas". Hermes tinha a função de guiar as almas dos mortos desde o mundo dos vivos até à entrada do submundo, escoltando-as para junto do barqueiro Caronte. Era um dos únicos deuses com livre-trânsito no reino de Hades.

Qual é o equivalente romano de Hermes?

O equivalente romano de Hermes é Mercúrio (Mercurius), deus do comércio, dos viajantes e dos mensageiros. O seu nome deu origem ao nome do planeta Mercúrio e ao elemento químico mercúrio.

O que eram as hermai?

As hermai (singular: herma) eram estátuas rectangulares de pedra colocadas nas encruzilhadas e ao longo das estradas gregas, com o busto de Hermes no topo e um falo em relevo. Serviam como marcos de proteção para viajantes e delimitadores de propriedades. A sua destruição em Atenas em 415 a.C. causou um escândalo político de grandes proporções.

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