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História do Sudão: os momentos-chave de Cuche a 2026

Publicado 3. agosto 2025 Atualizado 28. junho 2026

Qual é a história do Sudão em poucos momentos-chave?

O Sudão, hoje o terceiro maior país de África em área, ocupa um território atravessado pelo Nilo que foi, ao longo de milénios, ponto de encontro entre o mundo mediterrânico, o Egito faraónico e a África subsariana. A sua história é marcada por reinos antigos de grande sofisticação, por longos períodos de domínio externo, por uma independência tardia conquistada em 1956 e por um ciclo quase ininterrupto de guerras civis que culminou no conflito iniciado em 2023, considerado em 2026 a maior crise humanitária do mundo. O que se segue é um percurso pelos momentos que melhor explicam o país atual.

A antiga Núbia e o reino de Cuche

Muito antes de existir a ideia de "Sudão", o vale do Nilo a sul do Egito albergou civilizações notáveis. A região da Núbia foi sede do reino de Cuche, cuja capital esteve primeiro em Napata e mais tarde em Méroe. No século VIII a.C., os reis cuchitas chegaram a conquistar o próprio Egito, fundando a chamada XXV dinastia, a dos "faraós negros". Méroe desenvolveu uma escrita própria, uma metalurgia do ferro avançada e centenas de pirâmides que ainda hoje pontuam o deserto e constituem um dos maiores conjuntos arqueológicos do continente.

Cristianismo e islamização

Com o declínio de Méroe, surgiram, a partir do século VI d.C., reinos cristãos núbios como Nobádia, Macúria e Alódia, ligados ao cristianismo copta e bizantino. Estes Estados resistiram durante séculos à expansão muçulmana vinda do Egito. A partir do século XIV e XV, porém, a migração de povos árabes, os casamentos e o comércio foram islamizando gradualmente a população. No início do século XVI consolidou-se o Sultanato Funj, com capital em Senar, que difundiu o islão e estruturou boa parte do Sudão central. No oeste, o Sultanato do Darfur manteve-se como poder autónomo até ao século XIX.

Domínio turco-egípcio e o Estado mahdista

Em 1820-1821, o vice-rei do Egito, Muhammad Ali, então sob soberania nominal otomana, invadiu e unificou grande parte do território, fundando a cidade de Cartum em 1821 como centro administrativo. Este período, conhecido como Turkiyya, ficou associado a impostos pesados e ao tráfico de escravos.

A revolta contra esse domínio deu origem a um dos episódios mais célebres da história sudanesa: em 1881, Muhammad Ahmad proclamou-se Mahdi (o "guiado" esperado pelo islão) e liderou uma insurreição religiosa e nacional. Em 1885, as suas forças tomaram Cartum, num cerco em que morreu o general britânico Charles Gordon. Nasceu assim um Estado mahdista independente, que durou até 1898, quando um exército anglo-egípcio comandado por Herbert Kitchener o esmagou na batalha de Omdurman.

O condomínio anglo-egípcio

De 1899 a 1956 o país foi governado sob a forma de condomínio anglo-egípcio, na prática uma administração dominada pelo Reino Unido. Os britânicos geriram o norte árabe-muçulmano e o sul africano de tradições cristãs e animistas como blocos separados, com políticas distintas. Esta divisão administrativa aprofundou o fosso entre as duas regiões e plantou as raízes dos conflitos que marcariam as décadas seguintes.

A independência de 1956 e as guerras civis

O Sudão tornou-se independente a 1 de janeiro de 1956, sendo um dos primeiros Estados africanos a alcançar a soberania. A euforia foi curta. Ainda antes da independência, em 1955, eclodira no sul uma rebelião que daria origem à primeira guerra civil (1955-1972), motivada pelo receio de marginalização face ao norte. Seguiu-se um período de instabilidade política, golpes militares e, em 1969, a ascensão de Gaafar Nimeiri ao poder.

O acordo de Adis Abeba, em 1972, trouxe uma década de paz relativa, mas a imposição da sharia em 1983 reacendeu o conflito. A segunda guerra civil (1983-2005), travada sobretudo entre o governo e o Exército de Libertação do Povo do Sudão liderado por John Garang, fez cerca de dois milhões de mortos e foi uma das mais mortíferas do mundo no século XX.

O regime de al-Bashir e o Darfur

Em 1989, um golpe de Estado levou ao poder Omar al-Bashir, que governaria o país durante trinta anos com uma orientação islamista e autoritária. O seu regime acolheu temporariamente Osama bin Laden e enfrentou sanções internacionais. A partir de 2003, a repressão de uma revolta no oeste deu origem ao conflito do Darfur, no qual milícias árabes (os Janjaweed) cometeram massacres em larga escala. As Nações Unidas estimaram centenas de milhares de mortos, e o Tribunal Penal Internacional emitiu, em 2009, mandados de captura contra al-Bashir por genocídio e crimes contra a humanidade.

A independência do Sudão do Sul

O Acordo de Paz Global de 2005 pôs fim à segunda guerra civil e previu um referendo de autodeterminação. Em janeiro de 2011, a esmagadora maioria dos sul-sudaneses votou pela separação, e a 9 de julho de 2011 nasceu a República do Sudão do Sul. O Sudão perdeu assim cerca de um quarto do seu território e a maior parte das suas reservas de petróleo, um golpe económico de que nunca recuperou plenamente.

A revolução de 2019 e a queda de al-Bashir

O agravamento da crise económica desencadeou, no final de 2018, protestos populares maciços. Em abril de 2019, perante a pressão das ruas, os militares depuseram al-Bashir, encerrando três décadas de poder. Seguiu-se uma frágil transição civil-militar, mas em outubro de 2021 os generais Abdel Fattah al-Burhan, chefe do exército, e Mohamed Hamdan Daglo "Hemedti", líder das Forças de Apoio Rápido (RSF), deram um novo golpe, travando o processo democrático.

A guerra civil iniciada em 2023

A rivalidade entre os dois generais explodiu em conflito aberto a 15 de abril de 2023, quando as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as paramilitares RSF começaram a combater pelo controlo do país, sobretudo em Cartum. A guerra alastrou rapidamente e transformou-se num dos maiores desastres humanitários contemporâneos.

Em 2026, o conflito entra no quarto ano sem fim à vista. O exército recuperou Cartum em 2025 e o governo regressou à capital a 11 de janeiro de 2026, mas o país está de facto dividido: as SAF controlam o norte e o leste, enquanto as RSF dominam grande parte do oeste. Em outubro de 2025, as RSF tomaram El-Facher, última grande cidade do Darfur sob controlo governamental, num assalto em que a ONU documentou milhares de mortos e indícios de "uma trajetória genocida". Os combates concentram-se agora nas regiões do Cordofão e do Nilo Azul e Branco, com um uso crescente de drones por ambos os lados.

O custo humano é colossal: em 2026 estima-se que mais de 33 milhões de pessoas necessitem de ajuda e que cerca de 11,5 milhões tenham sido forçadas a deslocar-se. Vários organismos descrevem a situação como a maior crise de fome do mundo, agravada pela escassez de financiamento internacional e pelo alegado envolvimento de potências estrangeiras no apoio às partes em guerra.

Perguntas frequentes

Quando se tornou o Sudão independente?

O Sudão tornou-se independente do condomínio anglo-egípcio a 1 de janeiro de 1956, sendo um dos primeiros países africanos a alcançar a soberania.

Porque é que o Sudão do Sul se separou?

Após décadas de guerra civil entre o norte muçulmano e o sul de tradições cristãs e animistas, o Acordo de Paz de 2005 previu um referendo. Em 2011, os sul-sudaneses votaram pela separação e a República do Sudão do Sul tornou-se independente a 9 de julho de 2011.

O que era o Estado mahdista?

Foi um Estado islâmico independente fundado por Muhammad Ahmad, o autoproclamado Mahdi, que se revoltou contra o domínio turco-egípcio. Existiu entre 1885, com a tomada de Cartum, e 1898, quando foi derrotado pelas forças anglo-egípcias em Omdurman.

Qual é a situação do Sudão em 2026?

O país vive uma guerra civil iniciada em 2023 entre o exército (SAF) e as paramilitares RSF. Em 2026, o território está dividido, a violência prossegue no Cordofão e no Darfur, e mais de 33 milhões de pessoas necessitam de ajuda humanitária, numa das maiores crises do mundo.

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