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A História dos Bancos de Sangue e das Transfusões

Publicado 20. agosto 2025 Atualizado 1. julho 2026

História
História · This file was donated to Wikimedia Commons as part of a project by the Metropolitan Museum of Art. See the Image and Dat · CC0 · Wikimedia

A transfusão de sangue é hoje um procedimento de rotina em hospitais de todo o mundo, mas o caminho até aqui foi longo, marcado por tentativas fracassadas, avanços científicos decisivos e, mais recentemente, pela procura de alternativas artificiais ao sangue humano. Em Portugal, no verão de 2026, essa história continua a escrever-se: a Federação Portuguesa de Dadores de Sangue alerta para reservas abaixo do desejável em vários grupos sanguíneos, um lembrete de que, apesar de mais de um século de progresso científico, o sistema de transfusões continua dependente da generosidade de quem doa.

As primeiras tentativas de transfusão

As primeiras experiências documentadas de transfusão remontam ao século XVII. Em 1667, o médico francês Jean-Baptiste Denis transfundiu sangue de cordeiro para um jovem paciente, numa tentativa que, surpreendentemente, o doente sobreviveu inicialmente. Outras experiências semelhantes, feitas sem qualquer conhecimento sobre grupos sanguíneos ou reações imunológicas, terminaram em morte, o que levou à proibição da prática em França e em Inglaterra durante décadas.

Só no século XIX a transfusão voltou a ganhar espaço, sobretudo através do trabalho do obstetra britânico James Blundell, que, entre 1818 e 1829, realizou as primeiras transfusões de sangue humano para humano, usadas principalmente em casos de hemorragia pós-parto. Ainda assim, sem forma de prever a compatibilidade entre dadores e recetores, os resultados mantinham-se imprevisíveis e frequentemente fatais.

A descoberta dos grupos sanguíneos

O momento decisivo da história das transfusões ocorreu em 1901, quando o médico austríaco Karl Landsteiner identificou a existência de diferentes grupos sanguíneos — A, B e O — explicando por que motivo algumas transfusões eram bem-sucedidas e outras provocavam reações graves ou mortais. Pouco depois, colegas de Landsteiner identificaram o quarto grupo, o AB. Esta descoberta valeu-lhe o Prémio Nobel da Medicina em 1930 e transformou a transfusão de uma prática arriscada numa técnica com bases científicas sólidas. Décadas mais tarde, em 1940, Landsteiner e Alexander Wiener identificariam ainda o fator Rhesus (Rh), completando o sistema de classificação sanguínea ainda hoje utilizado.

Anticoagulantes e a Primeira Guerra Mundial

Até à década de 1910, o sangue tinha de ser transfundido diretamente de pessoa para pessoa, uma vez que coagulava rapidamente fora do corpo. A descoberta de que o citrato de sódio impedia a coagulação sem toxicidade significativa, atribuída a investigadores como Richard Lewisohn e Luis Agote por volta de 1914-1915, permitiu, pela primeira vez, armazenar sangue antes de o transfundir. Esta inovação revelou-se crucial durante a Primeira Guerra Mundial: o médico norte-americano Oswald Robertson organizou aquilo que muitos historiadores consideram o primeiro "depósito de sangue" da história, junto às linhas da frente, permitindo tratar feridos em maior número e com maior eficácia.

O nascimento dos bancos de sangue

O termo "banco de sangue" surgiu formalmente em 1937, quando o médico Bernard Fantus criou, no Cook County Hospital de Chicago, o primeiro serviço hospitalar dedicado à recolha, armazenamento e distribuição sistemática de sangue para transfusão. A ideia espalhou-se rapidamente pelos Estados Unidos e pela Europa nos anos seguintes, à medida que hospitais perceberam as vantagens de ter reservas de sangue disponíveis em vez de depender de dadores convocados em cada emergência.

A Segunda Guerra Mundial acelerou ainda mais estes avanços. O cirurgião afro-americano Charles Drew desenvolveu métodos para processar e conservar plasma sanguíneo em grande escala, liderando programas de recolha que salvaram milhares de vidas nos campos de batalha europeus. O plasma, ao contrário do sangue total, podia ser seco, armazenado durante mais tempo e reconstituído no local, facilitando a logística militar. Estes desenvolvimentos lançaram as bases das redes civis de bancos de sangue que se generalizaram após 1945.

A evolução em Portugal

Em Portugal, a organização institucional das transfusões desenvolveu-se ao longo do século XX através de institutos regionais de sangue, culminando na criação do Instituto Português do Sangue, mais tarde reorganizado como Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST, IP), entidade que atualmente coordena a política nacional de dádiva de sangue, promove a autossuficiência do país neste domínio e gere a articulação entre centros de sangue e serviços hospitalares. O IPST assumiu também, ao longo dos anos, competências ligadas à doação de órgãos e tecidos, unificando sob uma mesma estrutura duas áreas próximas da medicina transfusional e da transplantação.

A era da segurança: rastreio e controlo de qualidade

A partir da década de 1980, a emergência da SIDA e a constatação de que o VIH podia ser transmitido por via transfusional provocaram uma transformação profunda nos protocolos de segurança do sangue. Passaram a ser obrigatórios testes sistemáticos a dadores e a unidades de sangue para deteção de VIH, hepatite B, hepatite C e outros agentes infeciosos, além de critérios mais rigorosos de seleção de dadores. Esta mudança, replicada em Portugal e em todo o mundo ocidental, tornou as transfusões atuais extraordinariamente mais seguras do que há quatro décadas, ainda que o risco residual nunca seja totalmente eliminado.

A situação em 2026: entre a dependência da dádiva e o sangue artificial

Apesar de mais de um século de progresso científico, o abastecimento de sangue continua a depender quase exclusivamente da dádiva voluntária. Em julho de 2026, a Federação Portuguesa de Dadores de Sangue alertou publicamente para reservas abaixo do desejável em Portugal, com necessidades imediatas nos grupos A+ e AB-, reservas para apenas um a dois dias nos grupos B- e O+, e reservas de três a cinco dias nos grupos A-, B+ e O-. A instituição estima que sejam necessárias entre 1.000 e 1.100 unidades de sangue por dia para satisfazer as necessidades hospitalares do país, um número que tende a agravar-se durante o verão, quando as dádivas diminuem devido a férias e à menor mobilização de campanhas.

Paralelamente, a investigação científica internacional continua a explorar alternativas ao sangue humano. No Japão, investigadores desenvolvem sangue artificial produzido a partir de hemoglobina extraída de bolsas de sangue fora de validade, envolvida numa camada protetora de lípidos que imita o funcionamento dos glóbulos vermelhos — uma tecnologia que, a confirmar-se segura e eficaz, poderá reduzir a dependência de dadores e chegar a hospitais no final da década. Nos Estados Unidos, a agência de investigação militar DARPA tem investido em projetos como o ErythroMer, um substituto de sangue liofilizado, isto é, transformado em pó, que pode ser conservado à temperatura ambiente durante anos, sem necessidade de refrigeração nem de tipagem sanguínea prévia, pensado sobretudo para uso em contexto militar e de emergência. Estes projetos permanecem, contudo, em fases de investigação e ensaios clínicos, sem previsão de substituírem, a curto prazo, o sangue doado por pessoas reais.

Perguntas frequentes

Quem descobriu os grupos sanguíneos?

O médico austríaco Karl Landsteiner identificou os grupos A, B e O em 1901, descoberta que lhe valeu o Prémio Nobel da Medicina em 1930. O fator Rhesus (Rh) foi identificado mais tarde, em 1940, pelo próprio Landsteiner em colaboração com Alexander Wiener.

Quando surgiu o primeiro banco de sangue?

O termo e o conceito de "banco de sangue" surgiram em 1937, no Cook County Hospital, em Chicago, através do trabalho do médico Bernard Fantus, embora depósitos organizados de sangue já existissem em contexto militar desde a Primeira Guerra Mundial.

Por que motivo as reservas de sangue em Portugal estão baixas no verão de 2026?

Segundo a Federação Portuguesa de Dadores de Sangue, o verão coincide tradicionalmente com uma quebra nas dádivas, devido a férias e a menor atividade de campanhas de recolha, o que faz descer as reservas para níveis próximos dos limites mínimos de segurança em vários grupos sanguíneos.

Existe já sangue artificial disponível para uso hospitalar?

Não. Projetos como o sangue sintético em investigação no Japão ou o ErythroMer, financiado pela agência norte-americana DARPA, encontram-se ainda em fase experimental e de ensaios clínicos, sem previsão de utilização generalizada em hospitais antes do final desta década.

Que entidade gere a dádiva de sangue em Portugal?

O Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST, IP) é a entidade responsável por coordenar a política nacional de dádiva de sangue, promover a autossuficiência do país e gerir a articulação entre centros de sangue e serviços hospitalares.

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