História de Cabo Verde: Resumo da Descoberta à Atualidade
Cabo Verde é um arquipélago atlântico composto por dez ilhas e vários ilhéus, situado a cerca de 600 quilómetros da costa ocidental africana, ao largo do Senegal. Ao contrário de quase todos os territórios africanos, as ilhas estavam desabitadas quando os navegadores europeus aqui chegaram em meados do século XV, o que faz da sua história uma das mais singulares do continente: a de uma sociedade inteiramente formada a partir do encontro — frequentemente violento — entre Europa e África. Em 2025 o país celebrou meio século de independência, e este resumo percorre os marcos essenciais desde o povoamento até à situação política de 2026.
A descoberta e o povoamento (século XV)
As ilhas foram alcançadas por volta de 1460, no contexto da expansão marítima portuguesa patrocinada pelo Infante D. Henrique. A navegação é geralmente atribuída a António de Noli, navegador de origem genovesa ao serviço da Coroa portuguesa, e a Diogo Gomes, embora a cronologia exata continue em debate entre os historiadores. O arquipélago estava deserto, sem população anterior.
O povoamento começou em 1462 na ilha de Santiago, a maior e mais fértil, com a fundação de Ribeira Grande — atual Cidade Velha. Considerada a primeira cidade europeia construída nos trópicos, tornou-se sede administrativa e religiosa do arquipélago. A povoação foi feita com colonos portugueses e, sobretudo, com mão de obra africana escravizada trazida da costa continental, dando origem desde cedo a uma população maioritariamente mestiça e a uma cultura crioula própria, com língua, música e tradições distintas.
O entreposto do Atlântico e o tráfico de escravos
A posição geográfica de Cabo Verde, no cruzamento das rotas que ligavam a Europa, a África e, mais tarde, o Brasil e as Américas, determinou o seu papel histórico. Durante os séculos XVI e XVII, as ilhas funcionaram como entreposto comercial e ponto de reabastecimento de navios, com particular destaque para o comércio de pessoas escravizadas. Ribeira Grande prosperou e atraiu também a cobiça de corsários — o corsário francês Jacques Cassard saqueou a cidade em 1712, episódio que acelerou a transferência da capital para a Praia.
Com a abolição progressiva do tráfico de escravos no século XIX e o fim da função de entreposto, a economia entrou em declínio. A escassez de recursos, a aridez do solo e as secas recorrentes transformaram o arquipélago numa economia pobre, de subsistência. As fomes cíclicas marcaram profundamente a história cabo-verdiana: entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, sucessivas crises de seca causaram dezenas de milhares de mortes e impulsionaram uma emigração massiva, que tornou a diáspora — nos Estados Unidos, em Portugal, nos Países Baixos e em vários países africanos — parte estruturante da identidade nacional.
O caminho para a independência
O movimento de libertação está indissociavelmente ligado à figura de Amílcar Cabral, engenheiro agrónomo nascido na Guiné de pais cabo-verdianos. Em 1956 fundou o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que defendia a libertação conjunta dos dois territórios. A partir de 1963, o PAIGC travou uma guerra de guerrilha na Guiné-Bissau, embora em Cabo Verde a contestação tenha assumido sobretudo formas políticas e clandestinas, dada a impossibilidade de luta armada num território insular.
Amílcar Cabral foi assassinado em janeiro de 1973, não chegando a ver concretizado o seu projeto. A Revolução dos Cravos, em Portugal, a 25 de abril de 1974, abriu caminho à descolonização. A 19 de dezembro de 1974 foi assinado um acordo entre o PAIGC e Portugal que instaurou um governo de transição. Realizadas eleições para uma Assembleia Nacional Popular, a independência foi proclamada a 5 de julho de 1975.
Cabo Verde independente
Aristides Pereira, secretário-geral do PAIGC, tornou-se o primeiro Presidente da República, e Pedro Pires assumiu como chefe do Governo. O projeto inicial de unidade política com a Guiné-Bissau ruiu após o golpe de Estado de 1980 em Bissau; em consequência, a estrutura cabo-verdiana autonomizou-se e adotou a designação de Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV).
Durante os primeiros quinze anos, o país viveu sob um regime de partido único. A viragem deu-se em 1990, com a abertura ao multipartidarismo. As primeiras eleições livres, em 1991, foram ganhas pelo recém-criado Movimento para a Democracia (MpD), que conduziu António Mascarenhas Monteiro à Presidência. Desde então, Cabo Verde consolidou-se como uma democracia parlamentar estável, com alternância pacífica no poder entre o MpD e o PAICV — um percurso frequentemente apontado como exemplar no continente africano.
Em 2007, o arquipélago deixou o grupo dos países menos desenvolvidos das Nações Unidas, ascendendo à categoria de país de desenvolvimento médio, sustentado sobretudo pelo turismo, pelas remessas da diáspora e pela cooperação internacional. Em 2009, a Cidade Velha foi classificada como Património Mundial da UNESCO.
Cabo Verde em 2026
Em 2025, Cabo Verde assinalou os 50 anos de independência. No plano político, as eleições legislativas de 17 de maio de 2026 marcaram uma viragem: o PAICV, liderado por Francisco Carvalho, conquistou a maioria dos 72 lugares do Parlamento (33 deputados, contra 30 do MpD), pondo fim a uma década de governação do MpD. Francisco Carvalho, anterior presidente da Câmara da Praia, foi empossado primeiro-ministro. A Presidência da República é exercida desde 2021 por José Maria Neves, figura histórica do PAICV e antigo chefe do Governo entre 2001 e 2016.
Hoje, Cabo Verde é reconhecido pela sua estabilidade democrática, pela vitalidade da sua cultura crioula — da morna, classificada pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade em 2019, à literatura e à música de Cesária Évora — e pelo peso de uma diáspora que ultrapassa, em número, a população residente.
Perguntas frequentes
Quando foi descoberto Cabo Verde?
O arquipélago foi alcançado por navegadores ao serviço da Coroa portuguesa por volta de 1460, encontrando-se então desabitado. O povoamento começou em 1462, na ilha de Santiago.
Em que data se tornou Cabo Verde independente?
Cabo Verde proclamou a sua independência de Portugal a 5 de julho de 1975, após o acordo assinado com o PAIGC em dezembro de 1974, na sequência da Revolução dos Cravos.
Quem foi Amílcar Cabral?
Foi o fundador, em 1956, do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e o principal líder da luta pela independência. Foi assassinado em 1973, dois anos antes da independência.
Quem governa Cabo Verde em 2026?
O Presidente da República é José Maria Neves, em funções desde 2021. Após as eleições de maio de 2026, vencidas pelo PAICV, Francisco Carvalho assumiu o cargo de primeiro-ministro.