O Papel dos EUA na Primeira Guerra Mundial
A entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, em abril de 1917, foi um dos pontos de viragem decisivos do conflito. Depois de quase três anos de neutralidade declarada, o peso económico, industrial e humano norte-americano inclinou definitivamente a balança a favor da Entente (também designada Aliados ou Tríplice Entente), travou a última grande ofensiva alemã e ajudou a moldar a paz que se seguiu. Este artigo explica por que razão os EUA entraram tarde no conflito, o que fizeram no plano militar e diplomático, e que consequências duradouras essa intervenção teve.
A neutralidade inicial (1914-1917)
Quando a guerra rebentou na Europa, em agosto de 1914, o presidente Woodrow Wilson proclamou a neutralidade dos Estados Unidos e apelou aos cidadãos para se manterem "imparciais no pensamento e na ação". Esta posição refletia uma tradição de não-intervenção nos assuntos europeus, a existência de comunidades de imigrantes de ambos os lados (incluindo milhões de descendentes de alemães) e o receio de ser arrastado para um conflito distante.
A neutralidade era, contudo, sobretudo política. Na prática, a economia norte-americana ligou-se cada vez mais à Entente: bancos como o J. P. Morgan concederam empréstimos avultados à Grã-Bretanha e à França, e as fábricas dos EUA forneciam munições, alimentos e matérias-primas aos Aliados. O bloqueio naval britânico tornava quase impossível um comércio equivalente com as Potências Centrais, pelo que a "neutralidade" beneficiava, de facto, um dos lados.
Por que razão os EUA entraram na guerra
Vários fatores empurraram Washington para o conflito, mas dois foram determinantes.
A guerra submarina alemã
A Alemanha recorreu à guerra submarina para quebrar o bloqueio britânico. O afundamento do paquete britânico Lusitânia, em maio de 1915, causou cerca de 1200 mortos, entre os quais 128 cidadãos norte-americanos, gerando forte indignação pública. Sob pressão diplomática, Berlim moderou temporariamente os ataques. Porém, no início de 1917, a Alemanha retomou a guerra submarina irrestrita, autorizando o ataque a qualquer navio — incluindo os neutros — nas águas em redor das Ilhas Britânicas. Esta decisão tornou quase inevitável o choque com os EUA.
O telegrama Zimmermann
Em janeiro de 1917, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Arthur Zimmermann, enviou um telegrama cifrado propondo uma aliança militar ao México caso os Estados Unidos entrassem na guerra. Em troca, a Alemanha apoiaria o México na recuperação dos territórios perdidos no século XIX — Texas, Novo México e Arizona. O telegrama foi intercetado e decifrado pelos serviços secretos britânicos e, depois de entregue a Wilson, tornado público na imprensa norte-americana a 1 de março de 1917. A revelação provocou enorme indignação e ajudou a consolidar o apoio à entrada na guerra.
A 2 de abril, Wilson dirigiu-se ao Congresso afirmando que era necessário tornar "o mundo seguro para a democracia". A declaração de guerra à Alemanha foi aprovada a 6 de abril de 1917. Significativamente, os EUA recusaram juntar-se formalmente à Entente como "aliados", preferindo o estatuto de potência associada — uma forma de Wilson preservar a sua independência diplomática e de não se vincular aos tratados secretos europeus.
O esforço militar norte-americano
Em 1917, os EUA tinham um exército pequeno e mal preparado para uma guerra continental. Foi necessário um esforço maciço de mobilização: a Lei do Serviço Seletivo instituiu o recrutamento obrigatório, e mais de quatro milhões de homens foram mobilizados. O corpo enviado para a Europa, a Força Expedicionária Americana (AEF), foi colocado sob o comando do general John J. Pershing.
A chegada das tropas foi gradual. Pershing resistiu às pressões britânicas e francesas para integrar os seus soldados — apelidados de doughboys — diretamente nas unidades aliadas, insistindo em manter um exército norte-americano autónomo. No verão de 1918, a AEF já contava cerca de um milhão de homens; no final da guerra, aproximadamente dois milhões de soldados norte-americanos encontravam-se na Europa, com milhares a desembarcar a cada semana.
As batalhas decisivas de 1918
A intervenção norte-americana foi crucial precisamente no momento em que a Entente estava mais fragilizada. Com a Rússia fora da guerra após a Revolução de 1917, a Alemanha lançou na primavera de 1918 uma grande ofensiva no ocidente. As forças americanas contribuíram para travar o avanço em batalhas como Château-Thierry e Belleau Wood. No outono, participaram na vasta ofensiva de Meuse-Argonne, uma das maiores operações da história militar dos EUA, que ajudou a romper a Linha Hindenburg e a precipitar o colapso alemão.
Mais do que o número de batalhas vencidas, foi o efeito estratégico que pesou: a perspetiva de um fluxo praticamente inesgotável de soldados e material frescos minou a moral alemã e tornou a vitória das Potências Centrais impossível. O armistício foi assinado a 11 de novembro de 1918.
O papel diplomático: os Catorze Pontos
O contributo dos EUA não foi apenas militar. Em janeiro de 1918, Wilson apresentou os Catorze Pontos, um programa de paz que defendia a diplomacia aberta, a liberdade de navegação, a redução de armamentos, a autodeterminação dos povos e a criação de uma organização internacional para prevenir futuros conflitos. Estes princípios influenciaram o ambiente em que a Alemanha pediu o armistício e dominaram o debate na Conferência de Paz de Paris.
Contudo, na Conferência de Versalhes (1919), o idealismo de Wilson chocou com os interesses da França e da Grã-Bretanha, que exigiam reparações e garantias de segurança. O resultado foi um tratado punitivo para a Alemanha, longe da "paz sem vencedores" que Wilson preconizara. A sua maior conquista, a Sociedade das Nações, acabou enfraquecida pela própria recusa do Senado dos EUA em ratificar o Tratado de Versalhes — os Estados Unidos nunca chegaram a aderir à organização que o seu presidente tinha idealizado.
Custos e consequências
A guerra custou aos EUA cerca de 117 mil mortos, dos quais uma parte muito significativa não tombou em combate, mas vitimada pela pandemia de gripe de 1918. Embora estas perdas sejam modestas quando comparadas com os milhões de mortos da França, da Alemanha ou do Império Russo, o impacto interno foi profundo.
O conflito acelerou a transformação dos EUA na maior potência económica mundial: de país devedor, a nação passou a credor das economias europeias. No plano interno, a guerra impulsionou a indústria, alterou o papel do Estado e contribuiu para mudanças sociais, incluindo a migração de afro-americanos para o norte e o avanço do sufrágio feminino. No entanto, o desencanto com os resultados da paz alimentou um regresso ao isolacionismo durante os anos 1920 e 1930 — uma tendência que só seria definitivamente revertida com a Segunda Guerra Mundial.
Perguntas frequentes
Quando entraram os EUA na Primeira Guerra Mundial?
Os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha a 6 de abril de 1917, depois de quase três anos de neutralidade. A guerra terminaria com o armistício de 11 de novembro de 1918.
Por que razão os EUA entraram na guerra?
As causas imediatas foram a retomada da guerra submarina irrestrita pela Alemanha, que ameaçava navios neutros, e o telegrama Zimmermann, no qual Berlim propunha uma aliança militar ao México contra os EUA. O afundamento do Lusitânia, em 1915, já tinha agravado a opinião pública.
Qual foi o impacto militar dos EUA no conflito?
Os EUA enviaram cerca de dois milhões de soldados para a Europa até ao fim da guerra. A sua chegada, com homens e material frescos, travou a ofensiva alemã de 1918 e tornou inevitável a derrota das Potências Centrais, sobretudo na ofensiva de Meuse-Argonne.
O que foram os Catorze Pontos de Wilson?
Foi um programa de paz apresentado em 1918 pelo presidente Woodrow Wilson, defendendo a autodeterminação dos povos, a diplomacia aberta e a criação da Sociedade das Nações. Influenciou as negociações de paz, mas foi largamente diluído no Tratado de Versalhes.
Quantos soldados norte-americanos morreram?
Cerca de 117 mil militares norte-americanos morreram, sendo que uma parte considerável das mortes se deveu à pandemia de gripe de 1918 e não a combate direto.