A descoberta do oxigénio: Scheele, Priestley e Lavoisier
A descoberta do oxigénio, ocorrida na segunda metade do século XVIII, é um dos episódios mais fascinantes e complexos da história da ciência. Não foi fruto de um único momento de génio, mas sim o resultado de experiências independentes realizadas por três cientistas de diferentes países — o sueco Carl Wilhelm Scheele, o inglês Joseph Priestley e o francês Antoine Lavoisier. Cada um contribuiu de forma distinta: Scheele isolou o gás primeiro, Priestley foi o primeiro a divulgá-lo, e Lavoisier foi quem compreendeu verdadeiramente a sua natureza e o integrou numa nova visão da química.
Carl Wilhelm Scheele: o pioneiro esquecido
Carl Wilhelm Scheele (1742–1786), farmacêutico sueco que trabalhava em Uppsala, foi o primeiro a isolar o oxigénio em laboratório, entre 1772 e 1773. A partir do aquecimento de substâncias como o óxido de mercúrio e o nitrato de potássio, Scheele obteve um gás que denominou eldluft — "ar de fogo" — porque intensificava visivelmente a combustão. Nas suas notas, descreveu corretamente algumas das propriedades fundamentais do elemento: suportava a chama, era absorvido durante a combustão e estava presente no ar atmosférico.
Apesar de ter realizado estas experiências antes de qualquer outro investigador, Scheele tardou na publicação dos resultados. O seu livro Chemische Abhandlung von der Luft und dem Feuer (Tratado Químico sobre o Ar e o Fogo) apenas foi publicado em 1778, vários anos depois de ter completado as experiências e, sobretudo, depois de Priestley ter divulgado os seus próprios resultados. Esta demora privou Scheele do reconhecimento histórico imediato e tornou a questão da prioridade num dos mais célebres debates da ciência setecentista.
Joseph Priestley: o primeiro a publicar
Joseph Priestley (1733–1804), teólogo e filósofo natural inglês, isolou o mesmo gás de forma independente a 1 de agosto de 1774. O método que utilizou consistiu no aquecimento de óxido vermelho de mercúrio (HgO) com uma lente de ampliação que concentrava os raios solares. O gás libertado mantinha uma vela acesa com inusitada intensidade e permitia que um rato colocado numa câmara cheia desse gás sobrevivesse muito mais tempo do que o habitual — observação que Priestley registou com surpresa nos seus diários.
Priestley chamou à sua descoberta "ar desenflogistizado" (dephlogisticated air), enquadrando-a na teoria do flogisto então dominante. Segundo esta teoria, proposta pelo alemão Georg Ernst Stahl no início do século XVIII, os corpos inflamáveis continham uma substância hipotética chamada flogisto, libertada durante a combustão. O gás descoberto por Priestley funcionaria tão bem como suporte da chama precisamente porque estava desprovido de flogisto, absorvendo-o avidamente dos materiais em combustão. Priestley acreditou nesta explicação até ao fim da vida — e é nisto que reside uma das grandes ironias da história da ciência: o homem que descobriu o oxigénio nunca compreendeu verdadeiramente o que havia descoberto.
Priestley comunicou a sua descoberta a Antoine Lavoisier durante uma visita a Paris, em outubro de 1774. Este encontro revelou-se decisivo para o rumo da química moderna.
Antoine Lavoisier: a interpretação que mudou a química
Antoine Laurent de Lavoisier (1743–1794) não isolou o oxigénio antes dos outros dois, mas foi o único que compreendeu a verdadeira natureza do gás e o integrou numa teoria coerente e revolucionária. A partir das informações obtidas de Priestley e das experiências de Scheele, Lavoisier conduziu uma série de ensaios meticulosos, pesando rigorosamente os reagentes e os produtos das reações — prática então muito pouco comum.
As suas conclusões foram radicais: a combustão não era a libertação de flogisto, mas sim a combinação de uma substância com um gás presente no ar. Em 1778, Lavoisier batizou este gás de oxygène, do grego oxys (ácido) e genes (que produz), pois acreditava — erroneamente, como se viria a verificar — que o oxigénio estava presente em todos os ácidos. Ainda assim, o nome ficou e difundiu-se por todas as línguas europeias.
Lavoisier demonstrou também que o ar atmosférico não era uma substância pura, como se acreditava desde a Antiguidade, mas uma mistura de dois gases: o oxigénio (aproximadamente um quinto do volume total) e o azoto. Estabeleceu, além disso, que a respiração animal era um processo análogo à combustão: os organismos vivos consomem oxigénio e libertam dióxido de carbono e água, produzindo calor. Esta equivalência entre respiração e combustão foi um dos fundamentos da bioquímica moderna.
A queda da teoria do flogisto e a revolução química
A teoria do flogisto, que dominara a química durante décadas, entrou em colapso com os trabalhos de Lavoisier. A explicação lavoisieriana da combustão era mais simples, mais coerente e, acima de tudo, sustentada por medições quantitativas rigorosas. O flogisto — que nunca ninguém conseguira isolar — tornou-se supérfluo e foi abandonado pela comunidade científica no final do século XVIII.
Este episódio é frequentemente citado como exemplo clássico de revolução científica no sentido descrito pelo filósofo Thomas Kuhn: uma mudança de paradigma em que um modelo explicativo estabelecido é substituído por outro qualitativamente diferente. A teoria do oxigénio não foi uma mera correção pontual, mas implicou uma reorganização completa da química como disciplina.
Lavoisier aproveitou o impulso para codificar a nova química numa nomenclatura sistemática, criada em colaboração com outros químicos franceses e publicada em 1787 no Méthode de nomenclature chimique. Em vez de nomes arbitrários herdados da alquimia, as substâncias passaram a ser designadas de acordo com a sua composição. Este sistema, com adaptações, é ainda a base da nomenclatura química utilizada em 2026. Em 1789, Lavoisier publicou o Traité Élémentaire de Chimie, considerado o primeiro manual moderno de química e que consagrou definitivamente a Lei da Conservação da Massa.
O impacto duradouro na ciência e na medicina
A descoberta do oxigénio e a revolução que ela desencadeou tiveram consequências que se estendem muito para além da química pura. Na medicina, a compreensão do papel do oxigénio na respiração abriu caminho ao desenvolvimento da oxigenoterapia, utilizada no tratamento de doenças respiratórias, em cirurgias e em cuidados intensivos. O oxigénio líquido tornou-se um recurso industrial de enorme importância, aplicado na siderurgia, na propulsão de foguetões e em múltiplos processos industriais.
Na fisiologia, os trabalhos de Lavoisier e dos seus sucessores estabeleceram as bases do metabolismo celular. A compreensão de como as células utilizam o oxigénio para oxidar nutrientes e produzir energia — culminando na descrição da cadeia respiratória mitocondrial no século XX — não teria sido possível sem a descoberta setecentista do elemento.
Na história das ideias, este episódio ilustra como o mesmo fenómeno pode ser observado por diferentes investigadores em momentos próximos, e como a interpretação correta de um facto experimental pode ser mais transformadora do que a sua mera observação. Scheele viu o "ar de fogo", Priestley viu o "ar desenflogistizado", mas foi Lavoisier quem viu o oxigénio — e com ele, uma nova química.
Lavoisier foi guilhotinado em Paris a 8 de maio de 1794, durante o Terror da Revolução Francesa, acusado de crimes relacionados com a sua atividade anterior como cobrador de impostos ao serviço do Antigo Regime. Tinha 50 anos. O matemático Joseph-Louis Lagrange comentou: "Bastou um momento para lhe cortar a cabeça; cem anos não serão suficientes para produzir outra igual."
Perguntas frequentes
Quem descobriu o oxigénio primeiro?
Carl Wilhelm Scheele foi o primeiro a isolar o oxigénio em laboratório, entre 1772 e 1773, mas não publicou os seus resultados atempadamente. Joseph Priestley isolou o mesmo gás de forma independente em agosto de 1774 e foi o primeiro a divulgar a descoberta. Antoine Lavoisier foi o primeiro a compreender a verdadeira natureza do elemento e a dar-lhe o nome de "oxigénio".
O que é a teoria do flogisto e porque foi abandonada?
A teoria do flogisto, proposta por Georg Ernst Stahl no início do século XVIII, defendia que os corpos inflamáveis continham uma substância chamada flogisto que era libertada durante a combustão. Antoine Lavoisier demonstrou, com experiências quantitativas rigorosas, que a combustão era na realidade uma combinação com oxigénio, tornando a teoria do flogisto supérflua e contraditória com os dados experimentais.
O que significa o nome "oxigénio"?
O nome "oxigénio" foi criado por Antoine Lavoisier em 1778 e deriva do grego oxys (ácido) e genes (gerador), porque Lavoisier acreditava que o oxigénio estava presente em todos os ácidos. Esta crença revelou-se incorreta, mas o nome ficou e é utilizado em todas as línguas latinas.
Qual foi o impacto da descoberta do oxigénio na medicina?
A descoberta do oxigénio e a compreensão do seu papel na respiração abriram caminho à oxigenoterapia, utilizada atualmente em cuidados intensivos, cirurgias e tratamento de doenças respiratórias. Também estabeleceram as bases da bioquímica do metabolismo celular, permitindo compreender como os organismos vivos produzem energia a partir dos alimentos.
Como morreu Antoine Lavoisier?
Antoine Lavoisier foi guilhotinado em Paris a 8 de maio de 1794, durante o período do Terror da Revolução Francesa. Apesar das suas contribuições científicas, foi condenado à morte pela sua atividade anterior como cobrador de impostos ao serviço do Antigo Regime. Tinha 50 anos de idade.
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