Quem escreveu «Paint It Black» dos Rolling Stones
«Paint It Black» é um dos temas mais reconhecíveis dos Rolling Stones e uma das canções mais marcantes da música popular dos anos 1960. Lançada em maio de 1966 como single, alcançou o primeiro lugar nas tabelas de vendas dos Estados Unidos e do Reino Unido. A autoria oficial é atribuída a Mick Jagger e Keith Richards — a dupla de compositores que assinou a grande maioria do catálogo do grupo —, mas a história real da sua criação é consideravelmente mais complexa e envolve contribuições decisivas de outros membros da banda.
A autoria oficial: Jagger e Richards
Os créditos de composição de «Paint It Black» pertencem formalmente a Mick Jagger e Keith Richards, a parceria criativa que, desde meados da década de 1960, passou a dominar a produção musical dos Rolling Stones. Segundo o próprio Richards em entrevistas ao longo dos anos, a divisão de trabalho foi relativamente clara: ele escreveu a melodia e a progressão harmónica, enquanto Jagger redigiu a letra. A canção terá começado a tomar forma durante as primeiras sessões de gravação do álbum Aftermath, em dezembro de 1965, e foi desenvolvida posteriormente durante a digressão australiana de 1966. A gravação definitiva aconteceu nos estúdios RCA de Hollywood, entre 6 e 9 de março de 1966.
Este modelo de co-autoria Jagger–Richards era já, nessa altura, uma prática estabelecida no seio do grupo, encorajada desde os primeiros anos pelo empresário Andrew Loog Oldham, que via na parceria uma fonte de identidade artística e, sobretudo, de receitas de direitos de autor. A progressão do duo como compositores principais foi acompanhada de um gradual apagamento das contribuições dos restantes membros da banda dos créditos formais.
O papel decisivo de Brian Jones
Apesar de não constar nos créditos, Brian Jones é amplamente reconhecido como o autor da melodia mais emblemática da canção: a linha de sitar que abre e percorre o tema, conferindo-lhe o seu carácter hipnótico e oriental. Jones era um multiinstrumentista de talento excecional e tinha estudado sitar com Harihar Rao, discípulo do célebre músico indiano Ravi Shankar. Quando Jagger e Richards apresentaram a progressão de acordes e a letra ao grupo, foi Jones quem, em poucas horas, desenvolveu a linha melódica no sitar, transformando radicalmente o arranjo e a identidade sonora da canção.
A contribuição de Jones foi, portanto, estrutural: sem a sua linha de sitar, a peça seria irreconhecível na sua forma atual. No entanto, de acordo com a posição de Richards, Jones nunca apresentou uma composição acabada de forma independente, o que, segundo a lógica dos créditos então praticada, justificou a sua exclusão da autoria formal. Esta situação não era inédita: à medida que a dupla Jagger–Richards consolidava o domínio criativo do grupo, as contribuições de Jones foram progressivamente diluídas nos créditos, uma tensão que marcou profundamente os anos finais da sua vida na banda.
A contestação de Bill Wyman
O baixista Bill Wyman foi um dos críticos mais diretos da forma como a autoria de «Paint It Black» foi atribuída. Na sua perspetiva, o tema deveria ter sido creditado ao pseudónimo coletivo Nanker Phelge, que o grupo utilizava para assinar composições nascidas de improvisações conjuntas em estúdio — prática comum nos primeiros anos da banda.
Wyman argumentou que a versão final da canção resultou, em larga medida, de uma improvisação espontânea entre ele próprio, Brian Jones e Charlie Watts, com Jones a fornecer a linha melódica no sitar. Além disso, o baixista reivindicou uma contribuição técnica singular: «Paint It Black» pode ter sido uma das primeiras gravações a utilizar um baixo sem trastos (fretless bass). Wyman havia retirado os trastos do instrumento com intenção de os substituir, mas acabou por se apaixonar pelo som resultante — mais suave e deslizante —, incorporando-o diretamente na gravação. A sua experimentação com um órgão Hammond durante as sessões também influenciou a textura do arranjo final.
A controvérsia do título
Para além da questão da autoria, «Paint It Black» gerou outra polémica, desta vez de natureza tipográfica e interpretativa. O single foi lançado pela editora Decca no Reino Unido com o título «Paint It, Black» — com uma vírgula antes da palavra Black. Este sinal de pontuação, que terá resultado de um erro administrativo da editora, alterou subtilmente o sentido do título: em vez de «pinta de preto», a leitura passou a ser «pinta, Black» — como se houvesse uma interpelação a alguém de nome ou identidade «Black».
A vírgula espúria deu origem a interpretações raciais que os Rolling Stones nunca pretenderam. Alguns setores leram no título uma referência à segregação racial nos Estados Unidos ou uma declaração política sobre a comunidade negra americana. Os próprios membros da banda desmentiriam essas leituras, afirmando que se tratava de um erro tipográfico sem qualquer intenção subjacente. O título correto, sem vírgula, é «Paint It Black».
Significado e recepção da letra
A letra de Mick Jagger descreve o estado emocional de alguém devastado pela perda súbita de uma pessoa amada. O narrador, incapaz de suportar a cor e a luz do mundo após o luto, deseja que tudo à sua volta seja pintado de preto — um impulso de aniquilamento visual que traduz a desorientação e o desespero que a morte de um ente querido pode provocar. É uma das letras mais sombrias e introspetivas dos Rolling Stones, num período em que a banda transitava de temas mais ligeiros para uma escrita mais densa e psicologicamente carregada.
Ao longo das décadas, a canção foi utilizada em inúmeros contextos culturais — filmes, séries de televisão e jogos de vídeo —, tornando-se um símbolo de luto, violência e tensão dramática. A série Tour of Duty (1987–1990), sobre a Guerra do Vietname, popularizou ainda mais a associação do tema à guerra, embora tal não fosse a intenção original dos compositores.
Legado e posição no cânone
«Paint It Black» é regularmente citada entre as melhores canções dos Rolling Stones e da história do rock. O uso do sitar por Brian Jones foi pioneiro no contexto da música pop ocidental e antecipou a vaga de influências orientais que dominaria o rock psicodélico de finais dos anos 1960. A canção entrou para o Rock and Roll Hall of Fame e figura em múltiplas listas das melhores gravações de todos os tempos.
A tensão entre a autoria formal — Jagger e Richards — e as contribuições criativas de Jones, Wyman e Watts continua a ser debatida por historiadores da música e fãs. O caso de «Paint It Black» ilustra de forma exemplar as complexidades e injustiças que frequentemente marcam a atribuição de direitos de autor em bandas de rock, onde a criação coletiva e improvisada raramente encontra reflexo adequado nos créditos oficiais.
Perguntas frequentes
Quem escreveu «Paint It Black»?
A autoria oficial pertence a Mick Jagger (letra) e Keith Richards (música). No entanto, Brian Jones compôs a icónica linha de sitar e Bill Wyman, juntamente com Jones e Charlie Watts, contribuiu através de improvisações em estúdio que moldaram o arranjo final.
Qual é o papel de Brian Jones na canção?
Brian Jones criou a linha melódica de sitar que define o som da canção, adaptando a progressão harmónica de Jagger e Richards com influências orientais aprendidas com Harihar Rao, discípulo de Ravi Shankar. Apesar desta contribuição decisiva, Jones não foi incluído nos créditos de composição.
Porque é que o título aparece com uma vírgula em algumas edições?
A vírgula em «Paint It, Black» resultou de um erro tipográfico da editora Decca aquando do lançamento do single no Reino Unido em 1966. O título correto é «Paint It Black», sem vírgula. A pontuação errada gerou interpretações raciais que os Rolling Stones sempre desmentiraram.
Quando foi lançada a canção?
«Paint It Black» foi lançada a 13 de maio de 1966 como single, antecipando a versão americana do álbum Aftermath. Atingiu o número um nas paradas de vendas tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido.
Qual é o tema da letra de «Paint It Black»?
A letra descreve o luto e o desespero de alguém que perdeu um ente querido e, incapaz de suportar a beleza e a cor do mundo, deseja que tudo seja pintado de preto. É uma das letras mais sombrias do catálogo dos Rolling Stones.