Jack, o Estripador: crimes, vítimas e identidade por revelar
Jack, o Estripador (Jack the Ripper, em inglês) é o nome atribuído a um assassino em série não identificado que aterrorizou o bairro de Whitechapel, no East End de Londres, no outono de 1888. Os seus crimes — marcados pela brutalidade extrema e pela mutilação cirúrgica das vítimas — nunca foram solucionados, tornando-o num dos maiores enigmas criminais da história. Mais de um século depois, a sua identidade continua a ser objeto de investigação, debate académico e especulação popular.
Contexto histórico: o Whitechapel de 1888
O East End de Londres era, em finais do século XIX, uma das zonas mais empobrecidas de toda a Europa ocidental. Whitechapel era um bairro densamente habitado, com elevados índices de desemprego, alcoolismo, prostituição e criminalidade. A maioria das habitantes sem recursos dependia da venda de serviços sexuais para sobreviver, o que as tornava particularmente vulneráveis. A iluminação pública era deficiente, os becos e vielas eram labirínticos, e a polícia metropolitana tinha grande dificuldade em patrulhar eficazmente a área.
Foi neste ambiente que surgiu o assassino que ficaria conhecido em todo o mundo. Entre abril de 1888 e fevereiro de 1891, onze mulheres foram assassinadas em Whitechapel e arredores, embora apenas cinco desses crimes sejam atribuídos com maior certeza ao mesmo autor.
As cinco vítimas canónicas
Os historiadores e investigadores referem-se habitualmente às chamadas "cinco canónicas" (canonical five), os casos cujas características apontam de forma mais consistente para o mesmo perpetrador:
- Mary Ann Nichols (conhecida como "Polly"), assassinada a 31 de agosto de 1888, encontrada na Buck's Row. Foi a primeira vítima geralmente atribuída a Jack, o Estripador. O corpo apresentava a garganta cortada e mutilações abdominais.
- Annie Chapman, morta a 8 de setembro de 1888, no pátio de uma pensão na Hanbury Street. O corpo foi gravemente mutilado e alguns órgãos internos foram removidos, suscitando nas autoridades a suspeita de que o agressor possuía conhecimentos de anatomia.
- Elizabeth Stride, assassinada na noite de 30 de setembro de 1888, na Berner Street. A garganta foi cortada, mas o corpo não apresentou mutilações adicionais — os investigadores especularam que o assassino terá sido interrompido.
- Catherine Eddowes, também morta na madrugada de 30 de setembro de 1888, na Mitre Square, cerca de meia hora após Elizabeth Stride. O rosto foi mutilado, a garganta cortada e vários órgãos removidos. Esta dupla morte numa única noite ficou conhecida como o "duplo evento".
- Mary Jane Kelly, assassinada a 9 de novembro de 1888, na Miller's Court. Foi a última das cinco vítimas canónicas e a que sofreu as mutilações mais extremas: o corpo foi praticamente destruído, com partes removidas e dispostas pelo quarto. O seu companheiro identificou-a apenas pelos olhos e orelhas.
O nome "Jack, o Estripador"
O nome surgiu de uma carta enviada à Central News Agency em setembro de 1888, assinada por "Jack the Ripper" — em português, "Jack, o Estripador". O documento, denominado Dear Boss letter ("Cara chefia"), descrevia os crimes com linguagem sarcástica e prometia novos ataques. A maioria dos investigadores contemporâneos acredita que a carta foi um embuste, possivelmente da autoria de um jornalista que pretendia alimentar a cobertura sensacionalista do caso e aumentar as vendas dos jornais. No entanto, o nome ficou gravado no imaginário coletivo.
Outra carta, conhecida como From Hell ("Do Inferno"), enviada junto de metade de um rim humano ao presidente de uma organização de vigilância local, é considerada por alguns investigadores como potencialmente autêntica, mas a sua origem continua por confirmar.
Métodos e perfil criminal
As autópsias revelaram que o assassino agia de forma rápida e sistemática: cortava a garganta das vítimas — possivelmente para as silenciar antes de as matar — e procedia depois a mutilações abdominais e à remoção de órgãos. O nível de precisão nas incisões levou vários médicos da época a afirmar que o agressor possuía conhecimentos cirúrgicos ou, pelo menos, experiência com o manuseamento de animais abatidos.
Todos os crimes ocorreram durante as madrugadas de fim de semana ou início de semana, o que levou os investigadores a supor que o assassino trabalhava durante a semana ou precisava de cobrir as suas deslocações. As vítimas foram encontradas sempre em espaços públicos ou semi-públicos, o que indica audácia e familiaridade com a zona.
A investigação e o fracasso da polícia
A polícia metropolitana de Londres, então dirigida pelo Comissário Sir Charles Warren, enfrentou críticas severas pela sua incapacidade de deter o assassino. A investigação sofreu com a falta de métodos forenses modernos — a dactiloscopia e a análise de ADN eram desconhecidas —, a ausência de testemunhas credíveis e a dificuldade em patrulhar eficazmente uma zona com centenas de becos e pátios interiores. Um incidente particularmente controverso ocorreu quando Warren ordenou apagar uma inscrição encontrada perto de um dos locais do crime — possivelmente escrita pelo assassino — com receio de provocar distúrbios antissemitas.
Suspeitos e investigações contemporâneas
Ao longo de mais de 130 anos, mais de cem suspeitos foram avançados por investigadores, jornalistas e entusiastas. Entre os mais discutidos encontram-se:
- Aaron Kosminski, barbeiro polaco de origem judia, considerado suspeito principal pela polícia da época. Em 2014, um investigador britânico afirmou ter identificado ADN mitocondrial de Kosminski num xaile supostamente pertencente a Catherine Eddowes, mas a validade científica da análise foi amplamente contestada.
- Montague John Druitt, advogado e professor que se suicidou em dezembro de 1888, referenciado em documentos policiais como suspeito.
- Francis Tumblety, médico charlatão norte-americano que foi detido em Londres em novembro de 1888, fugiu para os Estados Unidos sob fiança e nunca regressou.
Em 2026, a investigação continua a produzir novas teorias. Sarah Bax Horton, neta de um dos investigadores originais do caso, avançou com o nome de Hyam Hyams, fabricante de charutos, como suspeito, com base em registos médicos da época. Paralelamente, os historiadores Tom Holland e Dominic Sandbrook defenderam que o perfil mais provável seria o de um trabalhador de matadouro, carniceiro ou tratador de animais, dado que tais profissões confeririam o conhecimento anatómico necessário, acesso a facas e uma justificação para ter sangue nas roupas.
Impacto cultural e legado
Os crimes de Jack, o Estripador marcaram o início da era do jornalismo sensacionalista de massas. A cobertura mediática foi intensa e, em grande medida, responsável pela construção do mito. O caso também impulsionou reformas na polícia britânica e contribuiu para sensibilizar a opinião pública para as condições de vida miseráveis do East End londrino.
A figura de Jack, o Estripador tornou-se um ícone da cultura popular, representado em centenas de romances, filmes, séries televisivas, peças de teatro e jogos. Whitechapel recebe anualmente milhares de turistas que participam em visitas guiadas pelos locais dos crimes. O caso é frequentemente citado como o precursor dos modernos estudos de criminologia e de perfil criminal (criminal profiling).
Perguntas frequentes
Quantas vítimas teve Jack, o Estripador?
Os historiadores reconhecem cinco vítimas com grande certeza — as chamadas "cinco canónicas": Mary Ann Nichols, Annie Chapman, Elizabeth Stride, Catherine Eddowes e Mary Jane Kelly. No total, onze mulheres foram assassinadas em Whitechapel entre 1888 e 1891, mas nem todas são atribuídas ao mesmo autor.
Jack, o Estripador foi alguma vez identificado?
Não. Apesar de mais de cem suspeitos terem sido avançados ao longo dos anos, nenhum foi definitivamente identificado como o assassino. O caso continua oficialmente por resolver em 2026.
Porque se chamava "Jack, o Estripador"?
O nome provém de uma carta anónima enviada à imprensa em setembro de 1888, assinada com esse pseudónimo. A maioria dos investigadores acredita que a carta foi escrita por um jornalista e não pelo verdadeiro assassino.
Qual é o suspeito mais credível segundo a investigação atual?
Não existe consenso. Aaron Kosminski foi o principal suspeito para a polícia victoriana e é ainda muito referido. Em 2026, investigadores como Sarah Bax Horton apontam para Hyam Hyams, enquanto outros historiadores favorecem um perfil de trabalhador de matadouro ou carniceiro.
Os crimes de Jack, o Estripador poderiam ser resolvidos hoje?
Com as técnicas forenses modernas — análise de ADN, perfil criminal, reconstrução de cenas de crime — seria provavelmente mais fácil reunir indícios. No entanto, as provas físicas de 1888 estão em grande parte degradadas ou destruídas, o que torna extremamente difícil uma resolução definitiva.