Quem liderou a Longa Marcha na China: Mao Tsé-Tung
A Longa Marcha (ou Grande Marcha) foi um dos episódios mais marcantes da história contemporânea da China: uma retirada militar épica das forças comunistas chinesas, realizada entre outubro de 1934 e outubro de 1935, que cobriu aproximadamente 10 000 quilómetros através de alguns dos terrenos mais hostis do interior chinês. O nome mais associado a este evento é o de Mao Tsé-Tung (em romanização moderna, Mao Zedong), que emergiu da marcha como o líder incontestável do Partido Comunista Chinês (PCC) — embora a sua supremacia não fosse absoluta desde o início.
O contexto: fuga ao cerco nacionalista
Na década de 1930, os comunistas chineses mantinham as suas bases (sovietes) sobretudo na província de Jiangxi, no sul do país. O governo nacionalista do Kuomintang, liderado por Chiang Kai-shek, lançou sucessivas campanhas de cerco e aniquilamento contra estas bases. A quinta campanha, iniciada em 1933, revelou-se devastadora: o exército nacionalista, apoiado por assessores militares alemães, utilizou táticas de bloqueio progressivo que tornaram insustentável a defesa comunista em posições fixas.
Em outubro de 1934, os comunistas não tinham alternativa senão abandonar Jiangxi. Cerca de 86 000 homens e mulheres — incluindo combatentes, quadros políticos e pessoal administrativo — romperam as linhas inimigas e iniciaram a retirada para oeste e norte, em busca de uma nova base segura.
Quem comandava no início da marcha
Ao contrário do que a narrativa histórica oficial chinesa tendeu a simplificar, Mao Tsé-Tung não detinha o comando supremo quando a marcha teve início. Havia sido afastado da liderança do partido pelos chamados "internacionalistas de Moscovo" (o grupo de Wang Ming) no início de 1934. A direção militar estava nas mãos de Zhu De, comandante do Exército Vermelho, enquanto Zhou Enlai exercia as funções de comissário político do partido. A estratégia adotada — guerra de posições em linha — divergia radicalmente das táticas de guerrilha que Mao preconizava.
Os primeiros meses foram calamitosos. Ainda em dezembro de 1934, na travessia do rio Xiang, os comunistas sofreram perdas devastadoras — estima-se que o efetivo tenha sido reduzido para cerca de 30 000 a 40 000 homens. O fracasso da estratégia em vigor abriu espaço para uma profunda crise de liderança.
A Conferência de Zunyi: o momento decisivo
Entre 15 e 17 de janeiro de 1935, em Zunyi, capital da província de Guizhou, o Comité Central do PCC realizou uma conferência alargada do Bureau Político que viria a mudar o rumo da marcha e da história do partido. Nesta reunião, Mao Tsé-Tung conseguiu reunir apoio suficiente para criticar abertamente a direção militar vigente, responsabilizando-a pelas derrotas sofridas. A conferência concluiu com o estabelecimento da posição de liderança de Mao sobre o Exército Vermelho e o Comité Central, pondo fim ao domínio das linhas dogmáticas associadas a Wang Ming.
Foi formado um novo comando militar composto por Mao Tsé-Tung, Zhou Enlai e Wang Jiaxiang. A partir deste ponto, adotou-se uma estratégia mais flexível, baseada na mobilidade e na guerrilha, que permitiu ao Exército Vermelho escapar repetidamente ao cerco inimigo.
A marcha sob o comando de Mao
Após Zunyi, as forças comunistas realizaram movimentos de grande audácia táctica. Atravessaram o rio Jinsha (afluente superior do Yangtzé) em condições extremas, escalaram as montanhas cobertas de neve dos Grandes Montes da Neve (Da Xue Shan), cruzaram os pântanos traiçoeiros do planalto tibetano e enfrentaram, quase diariamente, ataques do exército nacionalista e de milícias locais. Aos obstáculos militares somaram-se a fome, o frio, as doenças e o terreno de altitude.
Em outubro de 1935, o Primeiro Exército Vermelho chegou à província de Shaanxi, no noroeste da China, onde se juntou às forças comunistas locais. Mao Tsé-Tung deteve a marcha junto à Grande Muralha em 20 de outubro de 1935. A jornada havia durado cerca de um ano.
Dimensão humana: as perdas
Os números variam consoante as fontes, mas o consenso histórico é que as perdas foram extraordinárias. Dos cerca de 86 000 que partiram de Jiangxi, menos de 10% chegaram ao destino final. Algumas estimativas apontam para que apenas 4 000 a 8 000 soldados tenham completado a totalidade do trajeto. Morreram combatentes, quadros, e até familiares de dirigentes — entre os quais um irmão do próprio Mao.
A marcha não se limitou ao Primeiro Exército Vermelho. Outras colunas comunistas, nomeadamente o Segundo e o Quarto Exércitos Vermelhos, realizaram as suas próprias retiradas, algumas cobrindo distâncias ainda maiores. No total, estima-se que entre 100 000 e 200 000 pessoas participaram nas diversas marchas, com uma taxa de sobrevivência igualmente baixa.
O significado político e o legado de Mao
A Longa Marcha transformou-se num dos mitos fundadores da República Popular da China, proclamada em 1949. A narrativa oficial apresentou-a como uma demonstração de resistência revolucionária e da superioridade da liderança de Mao — um enquadramento que o próprio consolidou ao longo das décadas seguintes. Os sobreviventes da marcha constituíram a elite do partido e do exército durante gerações.
Para Mao Tsé-Tung, a marcha foi o ponto de viragem que o transformou de um dirigente regional em líder nacional incontestado. A sua ascensão definitiva à chefia do PCC ficou formalizada na Conferência de Yan'an nos anos seguintes, mas foi em Zunyi, durante a marcha, que o poder real mudou de mãos. Em 1949, Mao proclamou a República Popular da China em Pequim, governando o país até à sua morte, em setembro de 1976.
Perguntas frequentes
Quem foi o líder da Longa Marcha na China?
O líder mais associado à Longa Marcha é Mao Tsé-Tung (Mao Zedong). No início da marcha, em outubro de 1934, a chefia militar formal pertencia a Zhu De e a chefia política a Zhou Enlai, mas após a Conferência de Zunyi (janeiro de 1935) Mao consolidou a liderança suprema do partido e do exército.
Quando decorreu a Longa Marcha?
A Longa Marcha decorreu entre 16 de outubro de 1934 e 20 de outubro de 1935, com a partida de Jiangxi e a chegada à província de Shaanxi, no noroeste da China.
Quantos quilómetros percorreu o Exército Vermelho durante a Longa Marcha?
O Primeiro Exército Vermelho percorreu aproximadamente 10 000 quilómetros (cerca de 9 650 km segundo algumas fontes), atravessando províncias, rios, montanhas nevadas e pântanos ao longo de cerca de um ano.
Quantas pessoas sobreviveram à Longa Marcha?
Das estimadas 86 000 pessoas que partiram de Jiangxi, menos de 10% — entre 4 000 e 8 600 — chegaram ao destino final em Shaanxi. As causas de morte incluíram combates, fome, doenças e as condições extremas do percurso.
Qual foi a importância da Conferência de Zunyi para a Longa Marcha?
A Conferência de Zunyi (15 a 17 de janeiro de 1935) foi o momento em que Mao Tsé-Tung assumiu o controlo efetivo do Partido Comunista Chinês e do Exército Vermelho durante a marcha. A reunião criticou a estratégia de guerra de posições até então seguida, adotou táticas de guerrilha mais flexíveis e formalizou um novo comando militar sob Mao.