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Quem ordenou o lançamento das bombas atómicas em 1945

Publicado 17. dezembro 2024 Atualizado 28. junho 2026

Quem foi o responsável pelo uso de bombas atômicas?

O uso das bombas atómicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, constituiu um dos acontecimentos mais marcantes e controversos do século XX. A responsabilidade por essa decisão não recaiu sobre uma única pessoa, mas sobre uma cadeia de figuras políticas, militares e científicas, cuja convergência de papéis tornou o ataque possível. No topo dessa cadeia estava o Presidente dos Estados Unidos Harry S. Truman, que emitiu a ordem final. Contudo, compreender verdadeiramente a responsabilidade implica examinar o Projeto Manhattan, os seus dirigentes científicos e militares, e os comités que assessoraram a decisão.

O Projeto Manhattan: a criação das bombas

O Projeto Manhattan foi o programa secreto norte-americano que, entre 1942 e 1945, desenvolveu as primeiras armas nucleares da história. Financiado pelos Estados Unidos com apoio do Reino Unido e do Canadá, mobilizou mais de 130 000 pessoas e contou com instalações em vários estados norte-americanos, nomeadamente em Oak Ridge (Tennessee), Hanford (Washington) e Los Alamos (Novo México).

A direção militar do projeto ficou a cargo do General Leslie R. Groves, do Corpo de Engenheiros do Exército dos Estados Unidos. Foi Groves quem supervisionou a construção das instalações, coordenou os recursos logísticos e manteve a ligação entre o governo e os cientistas. A direção científica coube a J. Robert Oppenheimer, físico teórico nomeado em 1943 para dirigir o Laboratório Nacional de Los Alamos, onde se projetou e construiu o dispositivo nuclear propriamente dito.

Em 16 de julho de 1945, o primeiro engenho atómico da história foi testado com êxito no deserto do Novo México, no ensaio denominado Trinity. A detonação, equivalente a cerca de 21 quilotoneladas de TNT, ultrapassou largamente as estimativas de Oppenheimer. A viabilidade técnica das bombas ficava assim demonstrada.

A cadeia de decisão política e militar

Harry S. Truman: o decisor final

Harry S. Truman tinha assumido a presidência dos Estados Unidos em abril de 1945, após a morte de Franklin D. Roosevelt, sem ter sido informado da existência do Projeto Manhattan. Logo nas primeiras semanas no cargo, foi posto a par do programa e das suas implicações. A 25 de julho de 1945, Truman aprovou a ordem de utilização das bombas atómicas contra alvos japoneses, que foi formalizada na Ordem Geral n.º 1 do Estado-Maior.

Em 6 de agosto de 1945, a bomba de urânio Little Boy foi lançada sobre Hiroshima, matando entre 70 000 e 80 000 pessoas de imediato e dezenas de milhares nos meses seguintes, em consequência da radiação. A 9 de agosto, a bomba de plutónio Fat Man destruiu Nagasaki, causando entre 40 000 e 80 000 mortes imediatas. O Japão anunciou a capitulação a 15 de agosto de 1945.

Truman justificou a decisão com a necessidade de acabar rapidamente com a guerra e evitar uma invasão terrestre do Japão — operação que, segundo as estimativas militares da época, poderia custar centenas de milhares de vidas aliadas. Em declarações posteriores e nas suas memórias, publicadas em 1955, o ex-presidente defendeu que a bomba salvou vidas em termos líquidos. Nunca expressou arrependimento público pela decisão.

O Comité Interino e Henry Stimson

A decisão de Truman não foi tomada de forma isolada. O Secretário da Guerra Henry L. Stimson presidiu ao Comité Interino (Interim Committee), criado em maio de 1945 com o propósito específico de assessorar o presidente sobre o uso das armas nucleares. O comité incluía altos funcionários civis e militares, bem como representantes científicos, entre eles o físico James F. Byrnes, futuro Secretário de Estado.

O Comité Interino recomendou que as bombas fossem usadas o mais rapidamente possível, sem aviso prévio e contra um alvo com valor simbólico e industrial. A recomendação excluiu deliberadamente alvos puramente militares, optando por cidades com concentração civil e industrial, para maximizar o impacto psicológico sobre o governo japonês.

Oppenheimer e a comunidade científica

O papel dos cientistas do Projeto Manhattan é frequentemente debatido no contexto da responsabilidade moral. Oppenheimer participou no Comité de Alvos (Target Committee), que em 1945 recomendou as cidades a bombardear. Votou duas vezes a favor do ataque a Hiroshima e concordou que o alvo devia ser urbano, e não estritamente militar.

Nem todos os cientistas envolvidos partilharam essa posição. O físico Leo Szilárd, um dos primeiros a alertar Roosevelt para a possibilidade de uma bomba nuclear alemã, circulou em 1945 uma petição assinada por dezenas de cientistas apelando ao presidente para que não usasse a bomba sem aviso prévio. A petição foi retida pelo General Groves e nunca chegou a Truman antes do ataque.

Após a guerra, Oppenheimer tornou-se uma das figuras mais contraditórias da história científica norte-americana. Em 1945, ao assistir ao teste Trinity, citou o texto hindu do Bhagavad Gita: «Tornei-me a Morte, o destruidor de mundos.» Mais tarde, opôs-se ao desenvolvimento da bomba de hidrogénio e foi alvo de perseguição política durante o macartismo, tendo a sua habilitação de segurança sido revogada em 1954.

Os pilotos e as tripulações

A execução material dos bombardeamentos coube a militares. O Coronel Paul W. Tibbets pilotou o bombardeiro B-29 Enola Gay na missão sobre Hiroshima. A missão de Nagasaki foi liderada pelo Major Charles W. Sweeney, no avião Bockscar. Estes homens agiram no cumprimento de ordens legítimas no contexto da hierarquia militar e nunca foram sujeitos a qualquer processo judicial.

O debate histórico sobre a responsabilidade

Oito décadas depois dos bombardeamentos, o debate sobre a responsabilidade e a legitimidade da decisão permanece vivo entre historiadores, filósofos e juristas. A interpretação predominante nos Estados Unidos durante décadas — a de que os ataques foram necessários e aceleraram a paz — foi contestada por revisionistas históricos a partir dos anos 1960 e 1970, que argumentam que o Japão estava já próximo da capitulação e que os bombardeamentos serviram também objetivos geopolíticos relativos à União Soviética.

O General Dwight D. Eisenhower, futuro presidente dos Estados Unidos, escreveu nas suas memórias de 1963 que, quando foi informado dos planos para usar a bomba atómica, expressou ao Secretário Stimson a sua convicção de que a medida era desnecessária, por considerar que o Japão já procurava uma saída honrosa do conflito.

Do ponto de vista do direito internacional, os ataques nunca foram formalmente julgados como crimes de guerra, dado que as regras relativas a armamento nuclear não existiam em 1945. Contudo, várias organizações internacionais e países — incluindo o Japão — consideram os bombardeamentos uma violação dos princípios humanitários fundamentais.

Em 2026, os debates sobre o desarmamento nuclear e a responsabilidade histórica continuam a ser invocados nos fora internacionais, nomeadamente no âmbito do Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares (TPAN), que entrou em vigor em 2021. Os Estados Unidos não são signatários do tratado.

Perguntas frequentes

Quem tomou a decisão final de lançar as bombas atómicas?

A decisão final foi do Presidente dos Estados Unidos Harry S. Truman, que aprovou a ordem de utilização em julho de 1945. A decisão foi assessorada pelo Comité Interino, presidido pelo Secretário da Guerra Henry Stimson.

Qual foi o papel de Oppenheimer no uso das bombas?

J. Robert Oppenheimer dirigiu o Laboratório de Los Alamos onde as bombas foram desenvolvidas e participou no Comité de Alvos, tendo votado a favor do ataque a Hiroshima. Não detinha, porém, autoridade política para ordenar ou impedir o seu uso.

Algum cientista se opôs ao uso das bombas?

Sim. O físico Leo Szilárd liderou uma petição em 1945, assinada por dezenas de cientistas do Projeto Manhattan, a solicitar que as bombas não fossem usadas sem aviso prévio. A petição foi retida pelo General Groves e nunca chegou ao presidente antes dos ataques.

Houve algum julgamento pelos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki?

Não. Os ataques nunca foram alvo de julgamento por crimes de guerra. Em 1945 não existia legislação internacional específica sobre armas nucleares, e os vencedores da Segunda Guerra Mundial controlavam os tribunais internacionais então criados, como o de Nuremberga e o de Tóquio.

Quantas pessoas morreram nos bombardeamentos atómicos?

As estimativas variam conforme as fontes. Em Hiroshima morreram entre 70 000 e 140 000 pessoas até ao final de 1945; em Nagasaki, entre 40 000 e 80 000. Estes números incluem mortes imediatas e os efeitos da radiação nos meses seguintes.

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