Zwarte Piet é racista? Factos e argumentos do debate
O debate sobre o Zwarte Piet ("Pedro Preto"), a personagem que acompanha o São Nicolau (Sinterklaas) nas celebrações neerlandesas e belgas de dezembro, é uma das controvérsias culturais mais persistentes da Europa Ocidental. De um lado, há quem veja a figura como um resquício de estereótipos coloniais e racistas; do outro, há quem a defenda como parte inofensiva de uma tradição infantil com séculos de história. Em 2026, a discussão perdeu parte da intensidade mediática dos anos 2010, mas continua presente nas ruas, nos tribunais e nas sondagens de opinião.
Quem é o Zwarte Piet e de onde vem a tradição
Zwarte Piet é o ajudante de São Nicolau nas festividades de Sinterklaas, celebradas sobretudo nos Países Baixos, na Bélgica e em algumas antigas colónias neerlandesas. Na sua forma clássica, a personagem é interpretada por pessoas com o rosto pintado de preto, lábios vermelhos exagerados, cabelo crespo, brincos dourados e trajos de página renascentista. A figura popularizou-se a partir de meados do século XIX, num livro infantil de 1850 do professor amesterdamês Jan Schenkman, numa altura em que os Países Baixos ainda estavam envolvidos no comércio colonial e na escravatura no Suriname e nas Antilhas neerlandesas (abolida oficialmente em 1863).
Porque é que muitos consideram Zwarte Piet racista
Os críticos da tradição argumentam que a combinação de características associadas à personagem — pele totalmente pintada de preto, lábios grossos e vermelhos, cabelo afro, sotaque "estropiado" e um comportamento subserviente perante o São Nicolau branco — reproduz estereótipos raciais historicamente usados para desumanizar pessoas negras. Para estes críticos, não se trata de uma questão de intenção, mas de efeito: a imagem remete para caricaturas coloniais do "escravo" ou do "criado" negro, algo que consideram pedagogicamente problemático para crianças de todas as origens, incluindo as de ascendência africana ou caribenha que crescem nos Países Baixos.
Vários organismos oficiais têm-se pronunciado neste sentido. O Colégio para os Direitos Humanos dos Países Baixos, a Provedoria da Criança neerlandesa e o Comité dos Direitos Humanos das Nações Unidas manifestaram preocupação com o carácter estereotipado da figura. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos chegou a questionar formalmente, numa carta ao Governo neerlandês, se a celebração não constituía uma forma de estereotipia racial de pessoas de ascendência africana que devesse ser combatida pelo Estado.
O que diz a justiça neerlandesa
A questão chegou várias vezes aos tribunais. Em julho de 2014, o tribunal administrativo de Amesterdão considerou, numa decisão sobre a autorização da entrada oficial de Sinterklaas na cidade, que a aparência e o comportamento de Zwarte Piet contribuíam para a imagem de que as pessoas negras são subservientes e pouco inteligentes. O tribunal identificou como problemática a combinação específica de rosto totalmente preto ou castanho-escuro, cabelo crespo, lábios vermelhos grossos, brincos de ouro, sotaque exagerado, comportamento pouco inteligente, atletismo físico e postura submissa. Decisões posteriores de instâncias superiores acabaram por não travar as celebrações, mas o reconhecimento judicial do carácter estereotipado da figura marcou um ponto de viragem no debate público.
O que argumentam os defensores da tradição
Para quem defende Zwarte Piet, a personagem não tem qualquer intenção racista na origem nem na perceção da maioria das famílias que a celebram: é vista como uma figura fantasiosa e alegre, associada à infância, aos presentes e ao Natal neerlandês, sem qualquer ligação consciente à escravatura ou ao colonialismo por parte de quem participa nas festas. Argumenta-se ainda que a cor preta se explicaria, segundo a versão popular mais difundida, pela fuligem das chaminés por onde a personagem desceria para entregar presentes — embora historiadores contestem esta explicação como uma racionalização posterior, já que os primeiros retratos de Zwarte Piet o mostram com traços deliberadamente associados a povos africanos, e não com fuligem dispersa de forma realista.
Defensores da tradição consideram também que a substituição total da personagem apaga um património cultural popular e acusam os críticos de "importar" um debate racial norte-americano para um contexto neerlandês distinto. Esta posição mantém-se maioritária em sondagens recentes, sobretudo fora das grandes cidades.
Como a personagem tem mudado nos últimos anos
Desde meados da década de 2010, muitas televisões, câmaras municipais e organizadores de cortejos têm substituído o Zwarte Piet clássico pelo chamado "roetveegpiet" (Pedro-fuligem), com apenas algumas riscas de fuligem na cara em vez do rosto totalmente pintado, sem lábios vermelhos exagerados nem brincos dourados. Desde 2019, o cortejo nacional de entrada de Sinterklaas, transmitido pela televisão pública neerlandesa e seguido no "Sinterklaasjournaal" (o telejornal infantil dedicado à quadra), usa exclusivamente esta versão.
A situação, no entanto, está longe de ser uniforme. Um levantamento feito na província da Frísia em 2025 mostrou que, de 139 localidades analisadas, cerca de 24% mantinham o Zwarte Piet totalmente preto, 62% já tinham adotado o roetveegpiet e 14% optavam por uma versão mista. A maioria dos municípios deixa a escolha a cargo das comissões organizadoras locais; poucos, como Súdwest-Fryslân, proíbem explicitamente a versão totalmente preta nos cortejos que autorizam.
Um marco simbólico ocorreu em 2025: o movimento ativista "Kick Out Zwarte Piet" (KOZP), responsável por protestos anuais desde 2014 e por confrontos por vezes violentos com apoiantes da tradição, anunciou que terminaria a sua atividade organizada após o dia 5 de dezembro de 2025, considerando cumprido o essencial do seu objetivo de eliminar o Zwarte Piet clássico dos cortejos oficiais e da televisão.
O que dizem as sondagens mais recentes
Apesar da retirada gradual da figura clássica dos meios oficiais, as sondagens de opinião pública neerlandesa mostram, desde 2024-2025, uma recuperação do apoio ao Zwarte Piet tradicional, invertendo a tendência de queda registada entre 2018 e 2022. Estudos como os da Ipsos I&O e da Hart van Nederland indicam que cerca de 56% a 64% dos neerlandeses preferem manter a personagem como sempre foi, contra cerca de um terço que defende o seu desaparecimento; cerca de 18% preferem uma solução mista. Há, no entanto, uma clara divisão regional: em zonas fora da chamada Randstad (a região metropolitana que inclui Amesterdão, Roterdão e Utreque), como a Drenthe, a Zelândia ou o Limburgo, mais de 65% preferem a versão clássica, enquanto nas grandes cidades o roetveegpiet é já a norma social dominante.
E na Bélgica?
Na Flandres, região belga de língua neerlandesa onde a tradição de Sinterklaas também é celebrada, o debate seguiu uma trajetória semelhante, ainda que com menor intensidade mediática do que nos Países Baixos. Várias cidades e emissoras públicas flamengas optaram igualmente por versões coloridas ou com riscas de fuligem, enquanto zonas mais rurais mantêm a figura tradicional em festas locais.
Perguntas frequentes
Zwarte Piet é oficialmente considerado racista nos Países Baixos?
Não existe uma proibição legal nacional, mas um tribunal administrativo de Amesterdão já reconheceu, em 2014, que a combinação de características da personagem contribui para um estereótipo racial. Vários organismos de direitos humanos, neerlandeses e da ONU, partilham esta análise, embora o Governo nunca tenha proibido a tradição.
O que é o roetveegpiet?
É a versão alternativa do Zwarte Piet criada para evitar o blackface e os estereótipos associados: em vez do rosto pintado de preto, o intérprete usa apenas algumas riscas de fuligem na cara, sem lábios pintados de vermelho nem brincos dourados, remetendo à ideia de alguém que desceu por uma chaminé.
O movimento Kick Out Zwarte Piet ainda existe em 2026?
O grupo anunciou em 2025 que encerraria a sua atividade organizada de protesto após o dia 5 de dezembro desse ano, considerando atingido o objetivo principal de retirar a versão clássica dos cortejos e da televisão oficiais.
A maioria dos neerlandeses quer acabar com o Zwarte Piet tradicional?
Não. Sondagens de 2025 indicam que entre 56% e 64% dos neerlandeses preferem manter a personagem como sempre foi, sobretudo fora das grandes cidades, enquanto cerca de um terço defende o seu desaparecimento total.
Desde quando é que a televisão pública neerlandesa deixou de mostrar o Zwarte Piet clássico?
Desde 2019, o cortejo nacional de Sinterklaas transmitido pela televisão pública e o telejornal infantil "Sinterklaasjournaal" usam apenas a versão roetveegpiet.