Por que as guerras persistem há séculos no mundo
A história da humanidade é, em larga medida, a história dos seus conflitos. Apesar dos avanços tecnológicos, do direito internacional e de séculos de tratados de paz, a guerra continua a ser uma constante na experiência humana. Em 2026, organizações como o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e o Uppsala Conflict Data Program (UCDP) registam entre 56 e mais de 100 conflitos armados ativos em todo o mundo, consoante o critério utilizado para os contabilizar, e estudos recentes apontam para o maior número de conflitos entre Estados desde a Segunda Guerra Mundial. A persistência da guerra não se explica por uma causa única, mas pela combinação de fatores estruturais, políticos, económicos e psicológicos que se repetem ao longo da História, apenas mudando de forma e de cenário.
Que fatores explicam a persistência das guerras?
Os investigadores em ciência política e relações internacionais identificam um conjunto recorrente de causas que, combinadas, tornam a guerra uma opção sempre disponível para Estados, grupos armados e líderes políticos.
- Competição por recursos: território, água, petróleo, minerais e outras matérias-primas continuam a estar na origem de disputas, da África Central à Ásia Central.
- Identidade e nacionalismo: diferenças étnicas, religiosas ou nacionais são frequentemente mobilizadas por líderes para legitimar a violência e angariar apoio popular.
- Ausência de uma autoridade global eficaz: ao contrário do que sucede dentro de um Estado, não existe um poder superior capaz de impor e fazer cumprir a paz entre nações soberanas, um problema clássico estudado pela teoria das relações internacionais conhecido como "anarquia internacional".
- Interesses económicos e comércio de armas: a indústria militar e o comércio de armamento criam incentivos económicos à manutenção de conflitos, sobretudo quando há potências externas a fornecer armas e financiamento a uma das partes.
- Falhas de governação e Estados frágeis: em países com instituições fracas, corrupção generalizada ou ausência de controlo territorial, surgem mais facilmente milícias, grupos rebeldes e guerras civis, como acontece atualmente no Sudão, no Mali ou no Níger.
- Memória histórica e ciclos de vingança: conflitos antigos deixam ressentimentos que atravessam gerações, alimentando novas rondas de violência décadas ou séculos depois.
A guerra é parte da natureza humana ou uma escolha política?
Esta é uma das questões mais debatidas pela filosofia, antropologia e psicologia. Algumas correntes, influenciadas por autores como Thomas Hobbes, defendem que a competição e a violência são traços inerentes à condição humana, sobretudo em contextos de escassez. Outras, baseadas em estudos antropológicos sobre sociedades de caçadores-recoletores, argumentam que a guerra organizada em grande escala é um fenómeno relativamente recente, ligado ao surgimento da agricultura, da propriedade privada e dos Estados centralizados, há cerca de dez mil anos. Nesta perspetiva, a guerra não seria inevitável, mas sim o resultado de estruturas sociais e políticas específicas — o que implicaria que, em teoria, poderia ser superada através de outras estruturas, como a diplomacia, o comércio e o direito internacional.
Por que motivo as instituições internacionais não conseguem impedir as guerras?
Organizações como a Organização das Nações Unidas (ONU) foram criadas precisamente para evitar a repetição de conflitos globais como as duas guerras mundiais. No entanto, o seu poder de ação é limitado por vários fatores estruturais: o direito de veto das grandes potências no Conselho de Segurança impede frequentemente intervenções decisivas, a soberania dos Estados restringe a capacidade de ingerência externa, e a falta de mecanismos coercivos eficazes torna muitas resoluções pouco mais do que declarações de intenção. Conflitos como a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, ou a guerra civil no Sudão, agravada desde 2023, ilustram como interesses geopolíticos de grandes potências podem paralisar respostas internacionais coordenadas.
Qual é o panorama dos conflitos armados em 2026?
De acordo com dados recolhidos por organizações como o UCDP, a ACLED e o CICV, o número de conflitos ativos no mundo manteve-se elevado em 2026, com estimativas que variam entre cerca de 56 conflitos de maior intensidade e mais de 100 confrontos armados de menor escala, dependendo da metodologia adotada. Entre os mais relevantes contam-se:
- A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que prossegue sem resolução diplomática clara, com centenas de milhares de baixas estimadas desde 2022.
- O conflito israelo-palestiniano, com raízes que remontam à criação do Estado de Israel em 1948 e que continua a gerar perdas humanas significativas na Faixa de Gaza.
- A guerra civil no Sudão, com combates intensos em regiões como Darfur e o Cordofão, responsáveis por dezenas de milhares de mortos e milhões de deslocados.
- Os conflitos no Sael africano (Mali, Níger e Burkina Faso), marcados por insurgências jihadistas e instabilidade política.
- A guerra civil em Myanmar, entre o exército e diversas forças étnicas armadas, prolongada já há vários anos.
- A tensão crescente na Venezuela, com aumento da presença militar dos Estados Unidos na região e ataques a embarcações ligadas ao regime de Nicolás Maduro.
Investigadores suecos da Uppsala University assinalaram que 2025 registou o maior número de conflitos entre Estados desde a Segunda Guerra Mundial, bem como o maior número de mortes em combate desde o genocídio do Ruanda, em 1994, um sinal de que a tendência de pacificação observada nas décadas pós-Guerra Fria se inverteu nos últimos anos.
Existe alguma tendência de redução das guerras a longo prazo?
Apesar do panorama atual, alguns historiadores e cientistas sociais, como Steven Pinker, defendem que, numa perspetiva de longo prazo histórico, a violência letal entre humanos diminuiu de forma significativa desde a Idade Média até à atualidade, em termos proporcionais à população mundial. Contudo, esta visão é contestada por outros investigadores, que apontam para o facto de o número absoluto de conflitos e o de pessoas afetadas por eles ter voltado a aumentar na última década, com a multiplicação de guerras civis, conflitos por procuração e tensões entre grandes potências. A persistência da guerra parece assim depender menos de uma tendência linear e mais do equilíbrio momentâneo entre forças de cooperação internacional e forças de competição geopolítica.
Perguntas frequentes
Quantos conflitos armados existem atualmente no mundo?
Em 2026, as estimativas variam consoante a fonte e a metodologia: o Uppsala Conflict Data Program contabiliza cerca de 56 conflitos armados ativos, enquanto o Comité Internacional da Cruz Vermelha refere mais de 100 confrontos armados em curso à escala global.
Qual é a principal causa das guerras ao longo da História?
Não existe uma causa única. As guerras resultam tipicamente da combinação de competição por recursos, disputas territoriais, divisões étnicas ou religiosas, ausência de uma autoridade internacional capaz de impor a paz e interesses económicos e políticos de Estados ou grupos armados.
Por que razão a ONU não consegue impedir as guerras?
O poder de veto das grandes potências no Conselho de Segurança, o princípio da soberania nacional e a inexistência de mecanismos coercivos eficazes limitam a capacidade da ONU para intervir e impor a paz em conflitos internacionais.
O número de guerras está a aumentar ou a diminuir?
Segundo investigadores da Uppsala University, 2025 registou o maior número de conflitos entre Estados desde a Segunda Guerra Mundial, indicando um agravamento recente após décadas de relativa redução no período pós-Guerra Fria.
A guerra é inevitável na natureza humana?
É uma questão debatida. Algumas teorias consideram a guerra inerente à condição humana, enquanto outras, apoiadas em estudos antropológicos, defendem que a guerra organizada surgiu apenas com a agricultura e os Estados centralizados, sugerindo que não é biologicamente inevitável.