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Como a quimioterapia se tornou o tratamento do cancro

Publicado 11. junho 2025 Atualizado 30. junho 2026

Como a quimioterapia se tornou o tratamento para o câncer?

A quimioterapia, hoje um dos pilares do tratamento oncológico a par da cirurgia, da radioterapia, da imunoterapia e das terapêuticas-alvo, nasceu de uma circunstância improvável: o estudo dos efeitos tóxicos de uma arma química utilizada na Primeira Guerra Mundial. O percurso que vai dessa observação até aos protocolos de combinação de fármacos usados nos hospitais portugueses em 2026 estendeu-se por mais de oito décadas, marcado por avanços acidentais, investigação clínica rigorosa e a progressiva compreensão da biologia do cancro.

O ponto de partida: o gás mostarda e a guerra

A origem da quimioterapia moderna remonta à Primeira Guerra Mundial, quando o gás mostarda foi utilizado como arma química. Os médicos que tratavam os soldados expostos notaram um efeito peculiar: a substância destruía de forma seletiva o tecido linfático e a medula óssea, os locais onde se formam as células do sangue. Essa observação ficaria adormecida durante mais de duas décadas, até que, já na Segunda Guerra Mundial, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos recrutou os farmacologistas Louis Goodman e Alfred Gilman, da Universidade de Yale, para investigar aplicações terapêuticas dos agentes de guerra química.

Goodman e Gilman colocaram uma hipótese ousada: se o gás mostarda destruía tecido linfático saudável, talvez pudesse também destruir tecido linfático canceroso, como o presente no linfoma. Testaram primeiro a ideia em ratinhos com linfomas induzidos e, perante os resultados encorajadores, avançaram para um ensaio em humanos. Em 1942, um doente identificado apenas pelas iniciais "J.D.", com um linfoma avançado, tornou-se a primeira pessoa a receber mostarda azotada como tratamento contra o cancro. Os seus tumores diminuíram de forma visível, ainda que temporária. Por razões de sigilo militar, os resultados só foram publicados em 1946, mas esse momento é geralmente apontado como o nascimento da quimioterapia. A mostarda azotada tornou-se o protótipo dos chamados agentes alquilantes, uma classe de fármacos ainda hoje utilizada.

Sidney Farber e a leucemia infantil

Pouco depois, no final da década de 1940, outro avanço decisivo ocorreu em Boston, pela mão do patologista pediátrico Sidney Farber, hoje frequentemente designado "pai da quimioterapia moderna". Farber observou que o ácido fólico parecia acelerar a progressão da leucemia em crianças e raciocinou que um composto capaz de bloquear essa via — um antagonista do ácido fólico — poderia travar a doença. Em dezembro de 1947, começou a administrar aminopterina a um menino de oito anos gravemente doente com leucemia aguda; quatro meses depois, a criança estava em remissão clínica e hematológica.

Em 1948, Farber publicou na New England Journal of Medicine os resultados de um estudo com 16 crianças, das quais dez mostraram melhorias clínicas claras. Foi a primeira demonstração de que um fármaco podia induzir remissões em leucemias agudas, uma doença até então quase invariavelmente fatal em crianças. A aminopterina deu lugar pouco depois ao metotrexato, com eficácia semelhante e menos efeitos adversos, fármaco que continua a integrar protocolos de tratamento de leucemia linfoblástica aguda e de muitos outros tumores.

Da remissão temporária à cura: a era da combinação de fármacos

Os primeiros sucessos com a mostarda azotada e a aminopterina partilhavam uma limitação grave: as remissões eram, em regra, breves, porque as células cancerosas sobreviventes acabavam por desenvolver resistência a um único fármaco. A solução, encontrada ao longo das décadas de 1950 e 1960, sobretudo no Instituto Nacional do Cancro norte-americano (NCI), foi combinar vários fármacos com mecanismos de ação diferentes, administrados em simultâneo ou em sequência, de forma a atacar as células cancerosas por várias frentes e reduzir a probabilidade de resistência.

Esta estratégia produziu os primeiros casos de cura efetiva de cancros avançados por via medicamentosa. O protocolo VAMP, aplicado a crianças com leucemia, e mais tarde o esquema MOPP, desenvolvido para o linfoma de Hodgkin, demonstraram pela primeira vez que doenças oncológicas disseminadas podiam ser curadas, e não apenas controladas, recorrendo apenas a fármacos. Estes resultados, alcançados num contexto de grande ceticismo médico — muitos oncologistas da época duvidavam que substâncias tóxicas administradas por via sistémica pudessem alguma vez curar um cancro —, foram decisivos para legitimar a quimioterapia como disciplina médica séria e não apenas como último recurso paliativo.

A institucionalização: ensaios clínicos e o tratamento padrão

A consolidação da quimioterapia como tratamento estabelecido exigiu também uma transformação no modo como os fármacos eram testados. A criação de redes de ensaios clínicos randomizados, coordenadas por instituições como o NCI e, mais tarde, por grupos cooperativos internacionais, permitiu comparar de forma sistemática diferentes esquemas terapêuticos e determinar doses, sequências e combinações ótimas. Foi este aparato de investigação clínica rigorosa, e não apenas a descoberta isolada de novos fármacos, que transformou a quimioterapia de um conjunto de experiências promissoras num corpo de protocolos validados e reprodutíveis, integrados nas diretrizes oncológicas a nível mundial a partir das décadas de 1970 e 1980.

Ao longo das décadas seguintes surgiram dezenas de novos agentes — entre os quais a cisplatina, introduzida nos anos 1970 e fundamental no tratamento do cancro testicular, ou os taxanos, descobertos a partir do teixo, nos anos 1990 — cada um ampliando o leque de cancros tratáveis e, em muitos casos, curáveis.

A quimioterapia em 2026: já não atua sozinha

Em 2026, a quimioterapia continua a ser indispensável em muitos planos de tratamento, mas raramente atua isolada. A tendência dominante na oncologia atual é a combinação de quimioterapia clássica com imunoterapia, terapêuticas-alvo e, cada vez mais, com biomarcadores moleculares que permitem personalizar o esquema terapêutico ao perfil genético específico de cada tumor. Especialistas reunidos no início de 2026 destacaram avanços nesta linha em vários tipos de cancro: no cancro do pâncreas metastático, por exemplo, dados de um ensaio de fase II mostraram que associar um novo inibidor à quimioterapia padrão com gemcitabina e nab-paclitaxel praticamente duplicou a sobrevivência aos 12 meses; no cancro da mama, multiplicam-se as terapêuticas orais dirigidas a subtipos específicos; e em vários tumores sólidos difíceis de tratar avançam os anticorpos conjugados com fármacos, que combinam a precisão dos anticorpos com a citotoxicidade clássica da quimioterapia.

Esta evolução reflete uma mudança de paradigma: da quimioterapia entendida como um ataque generalizado a todas as células de divisão rápida, para esquemas cada vez mais seletivos, concebidos para maximizar o efeito sobre o tumor e minimizar os efeitos secundários no resto do organismo. Ainda assim, os princípios estabelecidos há mais de oitenta anos — destruir células cancerosas através de agentes citotóxicos sistémicos e combinar fármacos para reduzir a resistência — continuam na base de praticamente todos os protocolos oncológicos atuais.

Perguntas frequentes

Quando começou a ser usada a quimioterapia contra o cancro?

O primeiro tratamento documentado data de 1942, quando um doente com linfoma avançado recebeu mostarda azotada, um derivado do gás mostarda usado na Primeira Guerra Mundial. Os resultados só foram tornados públicos em 1946, devido ao sigilo militar associado à investigação.

Quem é considerado o "pai da quimioterapia moderna"?

O título é geralmente atribuído a Sidney Farber, patologista pediátrico que, em 1947-1948, demonstrou que a aminopterina podia induzir remissões em crianças com leucemia aguda, abrindo caminho ao desenvolvimento do metotrexato e de outras terapêuticas modernas.

Porque é que a quimioterapia passou a combinar vários fármacos?

Os tratamentos com um único fármaco produziam, em regra, remissões curtas, porque as células cancerosas sobreviventes desenvolviam resistência. A combinação de fármacos com mecanismos de ação distintos, testada a partir das décadas de 1950 e 1960, permitiu obter as primeiras curas efetivas de cancros como o linfoma de Hodgkin e certas leucemias.

A quimioterapia continua a ser relevante em 2026?

Sim. Continua a integrar a maioria dos protocolos oncológicos, mas é cada vez mais combinada com imunoterapia, terapêuticas-alvo e anticorpos conjugados com fármacos, numa abordagem personalizada ao perfil molecular de cada tumor.

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