Como os cientistas estudam o comportamento dos gatos
Durante décadas, o gato doméstico (Felis catus) foi um dos animais menos estudados na ciência do comportamento, sobretudo em comparação com o cão. A razão é em grande parte metodológica: os gatos reagem mal a ambientes de laboratório, stressam-se facilmente com a manipulação humana e raramente cooperam em tarefas experimentais clássicas. Nos últimos anos, porém, a etologia felina tornou-se uma área de investigação em expansão acelerada, apoiada por novas tecnologias de rastreio, inteligência artificial e ciência cidadã. Em 2026, os investigadores combinam observação comportamental clássica com ferramentas digitais para compreender como os gatos pensam, comunicam e se relacionam com o ambiente e com os humanos.
Porque é tão difícil estudar cientificamente os gatos
O principal obstáculo à investigação sobre gatos é o chamado "efeito de laboratório": retirado do ambiente familiar e colocado numa sala estranha, um gato tende a inibir o comportamento espontâneo, escondendo-se ou permanecendo imóvel por ansiedade. Ao contrário dos cães, que foram selecionados ao longo de milénios para cooperar ativamente com pessoas, os gatos foram domesticados sobretudo pela sua utilidade autónoma no controlo de roedores, o que resultou numa espécie menos inclinada a seguir instruções ou a participar voluntariamente em testes. Por isso, grande parte da investigação recente privilegia métodos que observam o animal no seu contexto natural — a casa, o quintal, a colónia de rua — em vez de o levar a um laboratório.
Observação comportamental e expressões faciais
Um dos avanços mais significativos da última década foi a criação de sistemas padronizados para descodificar a comunicação felina através da face. O CatFACS (Cat Facial Action Coding System) é um protocolo científico que cataloga os movimentos musculares individuais da cara do gato — posição das orelhas, abertura dos olhos, tensão do focinho ou posição dos bigodes — permitindo aos investigadores registar de forma objetiva e reprodutível o que normalmente seria apenas uma impressão subjetiva. Estudos recentes que aplicaram este sistema identificaram cerca de 276 combinações distintas de expressões faciais em interações entre gatos, resultantes da combinação de 26 movimentos musculares diferentes, cobrindo desde sinais de simpatia e disposição para brincar até agressividade e medo.
A partir deste trabalho nasceu também a Feline Grimace Scale (Escala de Careta Felina), desenvolvida por investigadores da Universidade de Montreal, que identifica cinco unidades de ação facial associadas à dor: posição das orelhas, aperto orbital dos olhos, tensão do focinho, posição dos bigodes e postura da cabeça. Esta escala é hoje usada em clínicas veterinárias para avaliar objetivamente o sofrimento de um animal que não pode comunicar verbalmente, e tornou-se uma referência para a investigação sobre bem-estar felino.
Ciência cidadã: os donos de gatos como investigadores
Como os gatos se comportam de forma diferente perante estranhos, cada vez mais estudos recorrem à colaboração dos próprios donos, que gravam vídeos ou preenchem questionários sobre o comportamento do seu animal em casa. Este método, conhecido como ciência cidadã, permite reunir grandes volumes de dados sem impor o stress de um ambiente de laboratório ao animal. Um exemplo recente e particularmente inovador é a chamada "ciência cidadã síncrona", um método desenvolvido para testar a cognição felina que garante o bem-estar do animal ao decorrer inteiramente no ambiente doméstico, com o tutor a seguir instruções em tempo real transmitidas por um investigador. Outro exemplo é o uso de vídeos publicados nas redes sociais — incluindo TikTok e YouTube — em que donos mostram os seus gatos perante imagens refletidas ou filtros de realidade aumentada, permitindo às equipas de investigação analisar mais de 200 casos de reação a estímulos visuais sem qualquer contacto direto com o animal.
Rastreio por GPS e o mapeamento dos territórios felinos
Para perceber como os gatos se movimentam fora de casa, os investigadores recorrem cada vez mais a coleiras equipadas com dispositivos de localização por satélite. O projeto "Cat Tracker", realizado no sul da Austrália, equipou centenas de gatos domésticos com unidades GPS durante uma semana, reunindo também dados de um inquérito com milhares de donos. Este tipo de estudo permitiu mapear o que os cientistas chamam de "catscape" — o território real ocupado por uma população de gatos com acesso ao exterior — revelando que a maioria destes animais permanece muito mais próxima de casa do que se pensava, embora existam exceções significativas em função do sexo, idade e esterilização do animal. Além do benefício científico, estes projetos têm um efeito educativo comprovado: donos que participam no rastreio tendem a atribuir maior importância à contenção dos seus gatos, por perceberem melhor os riscos que a deambulação livre representa para a fauna local e para a segurança do próprio animal.
Inteligência artificial e reconhecimento automático
A par dos métodos observacionais, a investigação felina começou a incorporar ferramentas de visão computacional. Sistemas de deteção automática de pontos de referência faciais (facial landmarks) usam algoritmos de aprendizagem automática para identificar, a partir de fotografias ou vídeo, a posição exata de orelhas, olhos e bigodes, acelerando drasticamente a análise que antes exigia horas de codificação manual por especialistas treinados. Estas ferramentas estão também a ser associadas à investigação sobre biomecânica felina — por exemplo, o estudo do chamado "reflexo de endireitamento" que permite a um gato girar o corpo no ar durante uma queda para aterrar de pé, um fenómeno que, além do interesse biológico, tem vindo a inspirar aplicações em robótica e sistemas de controlo autónomo.
Testes de cognição social e memória espacial
Uma parte da investigação continua a decorrer sob condições controladas, ainda que adaptadas à sensibilidade da espécie. Testes de memória espacial avaliam a capacidade de um gato recordar a localização de um recipiente com comida escondida, enquanto testes de cognição social observam a reação do animal perante um problema insolúvel — por exemplo, um recipiente de comida que não pode ser aberto — registando se o gato procura ajuda olhando para o humano presente, um comportamento que os cães exibem de forma muito mais consistente. Estudos recentes sobre gatos idosos têm ainda associado o desempenho nestes testes de memória e cognição social a marcadores de inflamação e a estados emocionais negativos, sugerindo que o declínio cognitivo felino partilha mecanismos com o envelhecimento observado noutras espécies, incluindo o ser humano.
Perguntas frequentes
Porque é mais difícil estudar gatos do que cães em laboratório?
Os gatos stressam-se facilmente em ambientes desconhecidos e tendem a inibir o comportamento espontâneo quando saem de casa, ao contrário dos cães, que foram selecionados ao longo da domesticação para cooperar ativamente com pessoas.
O que é o CatFACS?
É um sistema científico de codificação de ação facial que regista de forma objetiva os movimentos musculares da face do gato, permitindo identificar até 276 combinações de expressões associadas a diferentes estados emocionais.
Como é usada a ciência cidadã no estudo do comportamento felino?
Os donos gravam vídeos ou seguem instruções em tempo real dadas por investigadores, permitindo recolher dados comportamentais no ambiente doméstico do animal, sem o stress de um laboratório.
Para que serve o rastreio GPS em gatos domésticos?
Permite mapear os territórios reais ocupados pelos gatos com acesso ao exterior, avaliar riscos para a fauna local e sensibilizar os donos para a importância da contenção do animal.
Como se avalia a dor num gato através da face?
Através da Feline Grimace Scale, que analisa cinco sinais faciais — posição das orelhas, aperto dos olhos, tensão do focinho, posição dos bigodes e postura da cabeça — para detetar sofrimento de forma objetiva.