Como os tubarões usam os sentidos para caçar
Os tubarões estão entre os predadores mais eficientes dos oceanos, e essa eficácia assenta numa combinação de sentidos altamente especializados que funcionam em conjunto. Ao contrário da imagem popular do animal guiado apenas pelo cheiro do sangue, a caça nos tubarões resulta de um processo escalonado em que cada sentido entra em ação a uma distância diferente da presa. O olfato e a audição operam a grande distância, a visão e a linha lateral intervêm na aproximação, e a eletrorreceção assume o controlo nos instantes finais, mesmo quando a presa está imóvel ou enterrada. Este artigo descreve cada um destes sistemas sensoriais e a forma como se articulam durante a caça.
Olfato: o alarme de longa distância
O olfato é, em muitas espécies, o sentido dominante na deteção inicial de uma presa. As narinas dos tubarões, situadas na parte inferior do focinho, não servem para respirar — destinam-se exclusivamente a captar substâncias químicas dissolvidas na água. No interior encontram-se lamelas olfativas com uma vasta área sensorial, o que confere a estes animais uma sensibilidade notável a aminoácidos, sangue e outros compostos libertados por animais feridos ou em decomposição.
É comum afirmar-se que um tubarão deteta "uma gota de sangue numa piscina olímpica". A imagem é exagerada, mas reflete uma realidade: muitas espécies reagem a concentrações da ordem de uma parte por milhão ou inferiores. Mais importante do que a sensibilidade absoluta é a forma como o tubarão localiza a origem do cheiro. Ao comparar o intervalo de tempo com que o odor chega a cada narina — e não apenas a sua intensidade —, o animal determina a direção da fonte e nada contra a corrente em ziguezague até à origem. Investigação divulgada em 2026 sugere ainda que o olfato apoia a própria orientação dos tubarões em grandes deslocações, e não só a deteção de alimento.
Audição e perceção de vibrações
A audição é outro sentido de longo alcance. Os tubarões possuem ouvidos internos sensíveis a sons de baixa frequência, sobretudo aos impulsos irregulares produzidos por um peixe ferido ou por um cardume em pânico. Estas vibrações propagam-se rapidamente na água e podem ser detetadas a centenas de metros, muitas vezes antes de qualquer rasto químico chegar ao predador.
A linha lateral: sentir o movimento da água
À medida que se aproxima, o tubarão recorre à linha lateral, um sistema partilhado por praticamente todos os peixes. Trata-se de um canal que percorre os flancos do corpo, repleto de células sensoriais designadas neuromastos, capazes de detetar variações de pressão e o deslocamento da água. Através deste sentido, o tubarão "sente" os movimentos de presas próximas, identifica a direção de uma fuga e ajusta a sua trajetória. A linha lateral é especialmente útil em águas turvas ou na escuridão, quando a visão tem pouca utilidade.
Visão: a aproximação final
A ideia de que os tubarões veem mal é incorreta. Muitas espécies têm uma visão adaptada a ambientes de baixa luminosidade, graças a uma camada refletora atrás da retina, o tapetum lucidum, que amplifica a luz disponível. Embora a visão entre em ação a curta distância, é determinante na fase de ataque, ajudando o predador a fixar o alvo. Em alguns tubarões, como o tubarão-branco, observa-se ainda uma proteção do olho durante a abocanhada, momento em que o animal deixa praticamente de ver e passa a depender de outros sentidos.
Eletrorreceção: o sexto sentido
O sistema sensorial mais distintivo dos tubarões é a eletrorreceção, assegurada pelas ampolas de Lorenzini. Trata-se de centenas de poros, concentrados sobretudo à volta do focinho, ligados a canais preenchidos por um gel condutor que termina em grupos de células sensoriais. Este gel transmite as variações elétricas da água do mar até aos recetores, que enviam a informação ao cérebro.
Todos os seres vivos geram campos elétricos ténues através das contrações musculares, dos batimentos cardíacos e da própria respiração. As ampolas de Lorenzini são tão sensíveis que detetam diferenças de potencial da ordem de mil milionésimos de volt. Graças a este sistema, um tubarão consegue localizar uma presa completamente imóvel e enterrada na areia — como uma raia escondida —, bastando o sinal elétrico do seu funcionamento corporal. É a eletrorreceção que guia a abocanhada final, no momento em que a visão deixa de ser fiável. Este mesmo sentido contribui ainda para a orientação dos tubarões, ao permitir-lhes perceber as interações entre as correntes oceânicas e o campo magnético terrestre.
Sentidos que trabalham em conjunto
A caça resulta da integração ordenada destes sistemas. À distância, o olfato e a audição alertam o tubarão e indicam-lhe uma direção. À medida que se aproxima, a linha lateral e a visão afinam a localização do alvo. No contacto final, as ampolas de Lorenzini confirmam a posição exata da presa e desencadeiam o ataque. Esta redundância explica por que razão os tubarões continuam a ser predadores eficazes mesmo em águas escuras, turvas ou profundas, onde nenhum sentido isolado seria suficiente.
O conhecimento destes mecanismos tem hoje aplicações práticas. Em 2026, equipas de investigação na Austrália estudavam o comportamento dos campos elétricos subaquáticos em diferentes salinidades, com o objetivo de desenvolver dissuasores elétricos que afastem os tubarões sem lhes causar dano — uma abordagem que assenta precisamente na extrema sensibilidade da sua eletrorreceção.
Perguntas frequentes
Qual é o sentido mais importante de um tubarão para caçar?
Não existe um único sentido dominante: cada um atua a uma distância diferente. O olfato e a audição detetam a presa ao longe, a linha lateral e a visão intervêm na aproximação, e a eletrorreceção orienta o ataque final, mesmo quando a presa está imóvel.
O que são as ampolas de Lorenzini?
São órgãos sensoriais formados por poros e canais preenchidos por um gel condutor, situados sobretudo no focinho. Detetam campos elétricos ténues gerados por outros animais, permitindo localizar presas escondidas na areia.
Os tubarões conseguem mesmo cheirar uma gota de sangue ao longe?
Têm um olfato muito apurado e reagem a concentrações ínfimas de certas substâncias, mas as comparações populares são exageradas. Mais relevante é a capacidade de determinar a direção do cheiro comparando o que chega a cada narina.
Como caçam os tubarões em águas escuras ou turvas?
Quando a visão é inútil, recorrem à linha lateral, que deteta movimentos e variações de pressão na água, e às ampolas de Lorenzini, que captam os campos elétricos das presas, permitindo caçar sem ver o alvo.