Esclerose múltipla: o que é, sintomas, tratamento e impacto na vida
A esclerose múltipla (EM) é uma doença crónica autoimune do sistema nervoso central que afeta o cérebro, o cerebelo, o tronco cerebral e a medula espinhal. O sistema imunitário ataca a bainha de mielina — a camada protetora que envolve as fibras nervosas —, perturbando ou bloqueando a transmissão dos sinais elétricos entre o cérebro e o resto do corpo. O resultado é um conjunto variado de sintomas neurológicos que diferem de pessoa para pessoa, tornando a EM uma das doenças neurológicas mais imprevisíveis e individualizadas da atualidade. A nível mundial, a prevalência da doença quase duplicou entre 1990 e 2021 (+87,9 %), e estima-se que cerca de 300 pessoas recebam o diagnóstico todos os dias em todo o mundo.
Tipos de esclerose múltipla
A EM não segue um curso único. Existem quatro formas clínicas principais, classificadas consoante a evolução dos surtos e da incapacidade acumulada:
- Recidivante-remitente (EMRR) — a forma mais comum, que representa cerca de 85 % dos diagnósticos iniciais. Caracteriza-se por episódios de agravamento (surtos) seguidos de períodos de recuperação parcial ou total.
- Secundariamente progressiva (EMSP) — surge geralmente anos após a EMRR, quando a recuperação entre surtos deixa de ser completa e a incapacidade se acumula de forma gradual.
- Primariamente progressiva (EMPP) — afeta cerca de 10 a 15 % dos doentes; a incapacidade aumenta desde o início, sem surtos definidos.
- Progressiva-recidivante — forma rara, com progressão contínua desde o diagnóstico intercalada com surtos ocasionais.
Em 2026, a investigação científica assistida por inteligência artificial identificou dois novos subtipos biológicos dentro das categorias já conhecidas, abrindo caminho para abordagens terapêuticas mais personalizadas.
Causas e fatores de risco
A causa exata da EM permanece desconhecida, mas os investigadores reconhecem uma combinação de fatores genéticos e ambientais. Sabe-se que:
- Pessoas com familiares de primeiro grau afetados têm um risco superior à média;
- A EM é duas a três vezes mais frequente em mulheres do que em homens;
- A doença tende a ser diagnosticada entre os 20 e os 40 anos, embora possa surgir em qualquer idade;
- Fatores ambientais como baixa exposição solar, deficiência de vitamina D, tabagismo e algumas infeções virais (particularmente o vírus Epstein-Barr) estão associados a maior risco;
- Regiões geográficas mais afastadas do equador registam prevalências mais elevadas.
Sintomas: uma doença de mil faces
A esclerose múltipla recebe, por vezes, a designação informal de "doença de mil faces" precisamente porque os sintomas variam enormemente de doente para doente, e até no mesmo doente ao longo do tempo. Os mais frequentes incluem:
- Fadiga — presente em mais de 80 % dos casos e frequentemente descrita como o sintoma mais incapacitante;
- Perturbações visuais — neurite ótica, visão turva ou dupla, dor ocular;
- Fraqueza muscular e espasticidade nos membros;
- Alterações da marcha e problemas de equilíbrio;
- Dormência, formigueiro ou sensação de choque elétrico (sinal de Lhermitte);
- Disfunção cognitiva — dificuldades de memória, atenção e velocidade de processamento;
- Disfunção vesical e intestinal;
- Depressão e ansiedade, que afetam uma proporção significativa dos doentes.
Os sintomas podem surgir e desaparecer (nos casos recidivante-remitentes), ser permanentes ou agravar-se progressivamente. O calor e o esforço físico tendem a exacerbar temporariamente os sintomas já existentes — fenómeno conhecido como efeito Uhthoff.
Diagnóstico
O diagnóstico da EM é clínico e imagiológico, baseado nos critérios de McDonald, revistos pela última vez em 2017. Exige a demonstração de lesões disseminadas no tempo e no espaço dentro do sistema nervoso central. Os principais meios de diagnóstico são:
- Ressonância magnética (RM) ao cérebro e à medula espinhal — o exame mais sensível, capaz de detetar placas de desmielinização;
- Análise do líquido cefalorraquidiano (punção lombar), que pode revelar bandas oligoclonais de imunoglobulinas;
- Potenciais evocados — avaliam a velocidade de condução nervosa nos vários sistemas sensoriais.
O diagnóstico precoce é determinante para iniciar tratamento antes de a doença provocar danos neurológicos irreversíveis. Ainda assim, em Portugal, o diagnóstico demora em média três anos desde o aparecimento dos primeiros sintomas, e o início da terapia farmacológica pode demorar ainda mais tempo.
Tratamentos disponíveis em 2026
Não existe cura para a esclerose múltipla, mas o panorama terapêutico evoluiu de forma significativa nas últimas décadas. As terapias modificadoras da doença (TMD) visam reduzir a frequência e gravidade dos surtos, retardar a progressão da incapacidade e proteger o sistema nervoso central. Em 2026, o arsenal terapêutico disponível inclui:
- Interferões beta e acetato de glatirâmero — fármacos de primeira linha com perfil de segurança estabelecido;
- Teriflunomida e fumarato de dimetilo — administração oral;
- Fingolimode, siponimod — moduladores dos recetores de esfingosina-1-fosfato;
- Natalizumab — anticorpo monoclonal de eficácia elevada para a EMRR;
- Ocrelizumab — aprovado tanto para a EMRR como para a EMPP;
- Alentuzumabe e cladribina — fármacos de alta eficácia com mecanismos de linfodepleção;
- Fenebrutinibe — em 2026, destaca-se como o primeiro fármaco investigacional em mais de uma década a reduzir a progressão da incapacidade na esclerose múltipla primariamente progressiva, com resultados apresentados no ACTRIMS Forum 2026.
Além das TMD, o tratamento sintomático — com fármacos para a espasticidade, a fadiga, a disfunção vesical e a dor neuropática — é essencial para a qualidade de vida. A fisioterapia, a terapia ocupacional e o acompanhamento psicológico integram a abordagem multidisciplinar recomendada pelas principais sociedades científicas.
Impacto na vida quotidiana
A esclerose múltipla afeta todas as esferas da vida. A fadiga crónica, os problemas de mobilidade e as disfunções cognitivas podem comprometer a capacidade laboral: muitos doentes precisam de adaptar o seu posto de trabalho ou reduzir o horário; uma parte significativa deixa a vida profissional ativa antes da reforma. Nas relações pessoais, a imprevisibilidade da doença — com dias bons e dias maus sem aviso prévio — pode gerar tensão e incompreensão.
A saúde mental é uma preocupação maior: a depressão é cerca de três vezes mais prevalente em pessoas com EM do que na população geral, tanto por fatores neurobiológicos diretamente ligados à doença como pelas implicações psicossociais do diagnóstico. O apoio psicológico e os grupos de pares são componentes importantes na gestão da doença a longo prazo.
A adaptação do ambiente doméstico e de meios de transporte, bem como o acesso a tecnologias assistivas, contribui para a autonomia dos doentes com maior grau de incapacidade.
A esclerose múltipla em Portugal
Em Portugal, a prevalência da EM situa-se em aproximadamente 64,4 por 100 000 habitantes, o que representa alguns milhares de pessoas afetadas em todo o país. O acesso aos tratamentos mais recentes tem sido objeto de reivindicação por parte das associações de doentes: a Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla sublinha a necessidade de encurtar os prazos de diagnóstico e de alargar o acesso às terapias de alta eficácia. Em 2025, dados divulgados pelo Observador revelaram que um em cada dez doentes esperou mais de seis anos para iniciar uma terapia modificadora da doença.
Perspetivas de investigação
A investigação em esclerose múltipla avança em múltiplas frentes. A neuroproteção — travar a degeneração axonal independente dos surtos — é uma das áreas prioritárias. O papel do microbioma intestinal, as terapias celulares (como o transplante autólogo de células estaminais hematopoiéticas) e a monitorização digital dos sintomas por aplicações móveis são domínios em rápida evolução. A inteligência artificial, já aplicada na identificação de novos subtipos biológicos, promete também personalizar a escolha terapêutica com base no perfil genético e imagiológico de cada doente.
Perguntas frequentes
A esclerose múltipla é hereditária?
A EM não é uma doença hereditária no sentido clássico, mas existem fatores genéticos que aumentam a predisposição. Um familiar de primeiro grau com EM eleva ligeiramente o risco, mas a grande maioria dos casos surge sem historial familiar. Fatores ambientais têm um papel igualmente relevante.
A esclerose múltipla reduz a esperança de vida?
Nas formas mais comuns, a EM não reduz significativamente a esperança de vida. Com os tratamentos modernos e uma gestão adequada da doença, a maioria dos doentes tem uma longevidade próxima da média populacional, embora a qualidade de vida possa ser afetada pela acumulação de incapacidade.
É possível trabalhar com esclerose múltipla?
Muitas pessoas com EM mantêm uma vida profissional ativa, especialmente quando o diagnóstico é precoce e o tratamento eficaz. A adaptação do posto de trabalho, horários flexíveis e trabalho remoto podem facilitar a continuidade laboral. Em casos de incapacidade mais elevada, pode ser necessária a cessação da atividade profissional.
Que diferença existe entre esclerose múltipla e esclerose lateral amiotrófica (ELA)?
São doenças distintas. A EM é autoimune e desmielinizante, afetando a bainha de mielina; a ELA é uma doença neurodegenerativa que destrói progressivamente os neurónios motores e não tem componente autoimune. A evolução, os sintomas e os tratamentos são completamente diferentes.
Existe cura para a esclerose múltipla?
Em 2026, não existe cura definitiva para a esclerose múltipla. No entanto, as terapias modificadoras da doença disponíveis são capazes de reduzir os surtos, retardar a progressão e preservar a qualidade de vida durante décadas. A investigação em neuroproteção e em terapias celulares é a área com maior potencial para alterar este panorama no futuro.