Midgard: o mundo dos humanos na mitologia nórdica
Na cosmologia da mitologia nórdica, Midgard (em nórdico antigo: Miðgarðr) é o reino habitado pelos seres humanos, correspondendo de forma aproximada ao conceito de Terra ou mundo conhecido. Situado no centro dos Nove Mundos que compõem o universo nórdico, Midgard é o único reino plenamente perceptível pelos homens, ao contrário das outras esferas, que existem em dimensões invisíveis ou inacessíveis ao comum dos mortais. O termo é documentado nas principais fontes da tradição nórdica pré-cristã, nomeadamente na Edda Poética e na Edda em Prosa, compostas ou compiladas na Islândia entre os séculos X e XIII.
Etimologia e significado do nome
A palavra Miðgarðr resulta da combinação de dois termos do nórdico antigo: miðr, que significa "meio" ou "central", e garðr, que designa "recinto", "cerco" ou "jardim murado". A tradução mais precisa seria, portanto, "recinto do meio" ou "encerramento central". Este nome reflecte a posição que o mundo humano ocupa no esquema cosmológico nórdico: um espaço delimitado e protegido, situado entre as esferas divinas e caóticas. Midgard é também conhecido pelo nome alternativo Manna-heim, que significa literalmente "lar dos homens".
A raiz germânica do termo sobrevive em várias línguas modernas: o inglês arcaico utilizava middangeard, presente no famoso poema épico Beowulf, e o próprio termo inglês "Middle-earth" (Terra Média), popularizado por J. R. R. Tolkien nas suas obras de fantasia, deriva directamente desta tradição etimológica.
A cosmologia nórdica e os Nove Mundos
De acordo com a visão de mundo nórdica, o universo é composto por Nove Mundos, todos interligados pelas raízes e ramos da árvore cósmica Yggdrasil, um freixo gigantesco cujas dimensões transcendem a compreensão humana. Midgard ocupa o nível intermédio desta estrutura. Os Nove Mundos são:
- Asgard — o reino dos deuses Æsir, situado no alto da árvore;
- Vanaheim — o lar dos deuses Vanir;
- Alfheim — o mundo dos elfos da luz;
- Midgard — o mundo dos seres humanos;
- Jotunheim — o reino dos gigantes (jötnar);
- Svartalfheim (ou Nidavellir) — o reino subterrâneo dos anões (dvergar);
- Niflheim — o reino primordial do gelo, da névoa e do frio;
- Muspelheim — o reino do fogo e do calor primordial;
- Hel — o reino dos mortos que não morreram em combate.
Midgard situa-se entre Asgard, acima, e os reinos subterrâneos, abaixo, em posição central e de charneira no cosmos nórdico.
A criação de Midgard
Segundo a Gylfaginning, secção da Edda em Prosa da autoria de Snorri Sturluson (século XIII), Midgard foi criado pelos três deuses Æsir primordiais: Odin, Vili e Vé — filhos de Borr e netos do gigante Búri. Estes deuses deram morte ao primeiro ser vivo, o gigante primordial Ymir, que existia desde antes da criação, e utilizaram o seu corpo como matéria-prima para construir o mundo:
- A carne de Ymir tornou-se a terra;
- O sangue formou os mares e os rios;
- Os ossos deram origem às montanhas;
- Os dentes e fragmentos de osso tornaram-se rochas e pedras;
- O crânio foi transformado na abóbada celeste, sustentado nos quatro cantos por quatro anões: Nordri, Sudri, Austri e Vestri;
- O cérebro foi lançado ao ar e tornou-se as nuvens;
- As pestanas e sobrancelhas de Ymir foram usadas para erigir uma muralha de protecção em volta do mundo humano.
Esta muralha construída com as sobrancelhas do gigante morto serve de barreira entre o espaço ordenado e habitável de Midgard e o caos exterior de Jotunheim, onde vivem os gigantes hostis.
Os habitantes de Midgard
Os seres humanos: Ask e Embla
Após terem criado o mundo a partir do corpo de Ymir, Odin, Vili e Vé encontraram dois troncos de árvore — um freixo (askr) e um ulmeiro (embla) — deitados na terra. Desses troncos criaram os primeiros seres humanos: Ask e Embla. Os três deuses concederam-lhes diferentes dons essenciais:
- Odin deu-lhes önd, o sopro e o espírito, isto é, a vida;
- Vili concedeu-lhes óðr, o entendimento, a consciência e o poder do movimento;
- Vé conferiu-lhes a aparência, a fala, a audição e a visão.
Ask e Embla são, assim, os progenitores de toda a raça humana, e todos os povos da Terra descendem deste primeiro casal. A narrativa apresenta paralelos com mitos de criação de outras culturas indo-europeias, onde os primeiros humanos emergem de elementos naturais como árvores, pedra ou barro.
Outros seres associados a Midgard
Embora Midgard seja o reino por excelência dos humanos, as fontes nórdicas sugerem que outros seres podiam transitar ou habitar as suas margens. Os elfos da escuridão (dökkálfar) e os anões existiam nas profundezas da terra, em regiões que se sobrepunham às fronteiras de Midgard. Os gigantes de Jotunheim viviam além do oceano que circundava o mundo humano, mas entravam em contacto frequente — nem sempre hostil — com os deuses e, por extensão, com os homens. Os próprios deuses Æsir visitavam Midgard com regularidade, movendo-se entre os dois mundos.
A estrutura física de Midgard
Na visão cosmográfica nórdica, Midgard é rodeado por um oceano vasto e intransponível. Nas profundezas desse oceano habita Jörmungandr, a Serpente do Mundo, filho do deus Loki com a gigante Angrboda. Jörmungandr é tão enorme que consegue enrolar-se em volta de todo o mundo humano e morder a própria cauda — daí ser também chamada a Serpente do Midgard (Midgarðsormr). A serpente funciona como uma fronteira viva e ameaçadora: enquanto permanecer enrolada, mantém o equilíbrio do mundo; quando soltar a cauda, sinaliza o início do Ragnarök.
A muralha de sobrancelhas de Ymir, já mencionada, delimita a área interior e civilizada de Midgard, separando-a das regiões selvagens habitadas pelos gigantes. Esta distinção entre espaço interior ordenado e exterior caótico é um tema recorrente na cosmologia nórdica.
A ponte Bifrost e a ligação a Asgard
Midgard e Asgard — o reino dos deuses — estão ligados pela Bifrost, uma ponte em arco de cores luminosas, frequentemente identificada com o arco-íris. A Bifrost é descrita como uma estrutura de grande resistência, construída com grande arte pelos deuses, mas ainda assim destinada a colapsar durante o Ragnarök sob o peso dos gigantes do fogo que avançam de Muspelheim.
A entrada da Bifrost do lado de Asgard é guardada por Heimdall, o sentinela dos deuses, dotado de visão e audição sobre-humanas. Heimdall possuía o chifre Gjallarhorn, cujo som, quando soado com toda a força, seria ouvido em todos os Nove Mundos — sinal do início do fim dos tempos.
Midgard e o Ragnarök
Na escatologia nórdica, Midgard está destinado a ser destruído no Ragnarök, a batalha final entre os deuses e as forças do caos. Os presságios incluem o inverno de três anos sem verão (Fimbulwinter), a libertação de Jörmungandr do oceano, a rutura da Bifrost e a morte de Heimdall e Thor em combate mútuo. No final do Ragnarök, Midgard afundará no mar. Contudo, algumas versões do mito, nomeadamente na Völuspá (poema da Edda Poética), descrevem o ressurgimento de um novo mundo verde e fértil das águas, habitado pelos sobreviventes e pelos filhos dos deuses caídos.
Fontes e transmissão do mito
O conhecimento moderno sobre Midgard provém essencialmente de dois grandes textos medievais islandeses. A Edda Poética (também chamada Edda Antiga ou Edda de Sæmundr) é uma colecção de poemas anónimos, preservada no manuscrito Codex Regius do século XIII, que contém poemas como a Völuspá e a Grímnismál, fundamentais para a compreensão da cosmologia nórdica. A Edda em Prosa foi compilada pelo historiador e poeta islandês Snorri Sturluson por volta de 1220, sistematizando e explicando os mitos para uso de poetas (skálds) que precisavam dominar a tradição mitológica.
Perguntas frequentes
O que significa a palavra Midgard?
Midgard deriva do nórdico antigo Miðgarðr, que significa "recinto do meio" ou "encerramento central". O nome reflecte a posição do mundo humano no centro dos Nove Mundos da cosmologia nórdica, entre o reino dos deuses (Asgard) e os reinos inferiores ou caóticos.
Quem criou Midgard?
Midgard foi criado pelos deuses Odin, Vili e Vé a partir do corpo do gigante primordial Ymir, que mataram. A carne de Ymir tornou-se a terra, o sangue os mares, os ossos as montanhas e o crânio a abóbada celeste. As sobrancelhas serviram para construir a muralha protectora em torno do mundo humano.
Quem eram os primeiros habitantes de Midgard?
Os primeiros seres humanos foram Ask e Embla, criados por Odin, Vili e Vé a partir de dois troncos de árvore encontrados na terra. Odin deu-lhes o sopro vital, Vili o entendimento e o movimento, e Vé a aparência e a fala. Toda a humanidade descende deste casal.
O que é a Serpente de Midgard?
A Serpente de Midgard (em nórdico antigo: Midgarðsormr), também chamada Jörmungandr, é um ser monstruoso filho de Loki e da gigante Angrboda. Habita o oceano que rodeia Midgard, enrolado em volta do mundo inteiro e mordendo a própria cauda. No Ragnarök, libertará a cauda e emergirá para combater o deus Thor, causando a morte de ambos.
Midgard é o mesmo que a Terra Média de Tolkien?
Não são o mesmo, mas existe uma relação directa. J. R. R. Tolkien era medievalista e profundo conhecedor da mitologia germânica e nórdica. O nome "Terra Média" (Middle-earth) é uma tradução do inglês antigo middangeard, que por sua vez deriva do mesmo conceito germânico que originou o nórdico Miðgarðr. Tolkien inspirou-se conscientemente nesta tradição ao criar o cenário dos seus romances.