A importância da artilharia nas guerras históricas
A artilharia foi, ao longo de vários séculos, um dos fatores mais determinantes no desfecho dos conflitos armados. Desde as primeiras bombardas medievais até aos sistemas de lançamento múltiplo de foguetes utilizados na atualidade, as peças de artilharia transformaram a forma como os exércitos planeiam batalhas, ocupam território e infligem baixas ao adversário. Estima-se que, em diversos conflitos do século XX, a artilharia tenha sido responsável pela maioria das mortes em combate, superando largamente as armas ligeiras. Compreender o seu papel histórico ajuda a explicar não só a evolução da arte da guerra, mas também a razão pela qual continua a ser uma prioridade estratégica em conflitos contemporâneos, como o que opõe a Rússia e a Ucrânia.
As origens da artilharia e o impacto da pólvora
O uso de máquinas de cerco, como catapultas, balistas e trabucos, antecede em muito a invenção da pólvora, remontando à Antiguidade e tendo sido aperfeiçoado pelos romanos e, mais tarde, pelos exércitos medievais europeus. Estas armas permitiam derrubar muralhas e atacar formações inimigas a distância, mas a sua eficácia era limitada pela física simples da torção e do contrapeso.
A introdução da pólvora negra na Europa, a partir do século XIV, mudou radicalmente esta equação. As primeiras bombardas, pesadas e de carregamento lento, foram decisivas em cercos como o de Constantinopla em 1453, onde a artilharia otomana abriu brechas em muralhas que tinham resistido a séculos de ataques. A partir desse momento, nenhuma fortificação medieval voltou a ser considerada inexpugnável, o que obrigou à reinvenção da arquitetura militar, com o surgimento das fortalezas em estrela (trace italienne), desenhadas precisamente para resistir ao fogo de artilharia.
A artilharia nas guerras napoleónicas
Napoleão Bonaparte, ele próprio oficial de artilharia de formação, foi um dos primeiros comandantes a explorar plenamente o potencial tático desta arma. Concentrava as suas peças em baterias massivas, utilizando-as para abrir brechas nas linhas inimigas antes de lançar a infantaria ou a cavalaria ao ataque. Esta doutrina, que ficou associada à sua frase atribuída sobre a artilharia ser "o deus da guerra", contribuiu para várias das suas vitórias mais marcantes, como Austerlitz e Wagram, e influenciou a doutrina militar europeia durante todo o século XIX.
A "rainha do campo de batalha" na Primeira Guerra Mundial
Foi, no entanto, na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) que a artilharia atingiu o seu apogeu enquanto arma decisiva. Os bombardeamentos prolongados que precediam as grandes ofensivas, como os da batalha do Somme ou de Verdun, mobilizavam milhares de peças e milhões de projéteis, transformando paisagens inteiras em terrenos lunares. Calcula-se que entre 60% e 70% das baixas militares deste conflito tenham sido causadas por fogo de artilharia, e não pelas armas ligeiras ou pela artilharia, ao contrário do que a imagem popular das trincheiras e da metralhadora sugere.
Esta guerra introduziu também inovações decisivas, como o tiro indireto apoiado por observadores aéreos e telefones de campanha, a cortina de fogo rolante (creeping barrage), destinada a proteger a infantaria em avanço, e os primeiros métodos científicos de cálculo balístico, que permitiam disparar com precisão sobre alvos não visíveis diretamente.
A Segunda Guerra Mundial e a artilharia móvel
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a artilharia tornou-se mais móvel e integrada com outras armas, no quadro das doutrinas de guerra relâmpago e de combate combinado. A artilharia autopropulsionada, montada sobre lagartas ou rodas, permitiu acompanhar de perto os avanços blindados, enquanto sistemas como o Katyusha soviético, um lançador múltiplo de foguetes, introduziram um novo conceito de saturação de área. Na frente oriental, em particular, a artilharia soviética desempenhou um papel central nas grandes ofensivas que viriam a desgastar e, por fim, derrotar a Wehrmacht, com concentrações de centenas de peças por quilómetro de frente em batalhas como Estaline grado.
A artilharia em conflitos da Guerra Fria e pós-Guerra Fria
Em conflitos posteriores, como a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietname ou a Guerra do Golfo, a artilharia manteve um papel relevante, ainda que progressivamente complementada e, em certos cenários, substituída pelo poder aéreo de precisão. A introdução de munições guiadas a partir das décadas de 1980 e 1990 permitiu obter níveis de precisão impensáveis nas guerras mundiais, reduzindo a necessidade de bombardeamentos massivos e prolongados para atingir um único objetivo.
A artilharia na guerra na Ucrânia: um regresso à guerra de atrito
O conflito iniciado com a invasão russa da Ucrânia em 2022 trouxe a artilharia de volta ao centro das atenções militares, mostrando que, apesar de décadas de investimento em precisão e em tecnologias de combate aéreo, o volume de fogo de artilharia continua a ser um fator decisivo em guerras de desgaste prolongadas. Analistas militares têm sublinhado repetidamente que o desfecho deste conflito está, em larga medida, associado a quem consegue disparar mais projéteis de forma sustentada ao longo do tempo.
Nos primeiros anos da guerra, a Rússia chegou a disparar cerca de dez mil projéteis por dia, contra apenas cerca de dois mil do lado ucraniano, uma disparidade que obrigou os países ocidentais a reativar e expandir linhas de produção de munições de calibre 155 mm que se encontravam praticamente paradas desde o final da Guerra Fria. Segundo dados mais recentes, a produção europeia de munições de artilharia cresceu de forma muito acentuada desde então, com a União Europeia a apontar para um teto de produção próximo de 2,4 milhões de projéteis anuais por volta de 2026, um aumento de cerca de oito vezes face a 2021. A Ucrânia desenvolveu igualmente capacidade própria de produção, nomeadamente através de uma linha conjunta com a alemã Rheinmetall, prevendo-se que o país e a União Europeia se aproximem dos níveis de produção russos ao longo de 2026.
Este episódio recente confirma uma lição recorrente da história militar: mesmo em ambientes dominados por drones, mísseis de precisão e guerra eletrónica, a artilharia convencional continua a determinar quem consegue manter ou romper uma linha de frente ao longo de meses ou anos de combate.
Porque é que a artilharia foi (e continua a ser) tão decisiva?
Vários fatores explicam a importância histórica e atual da artilharia:
- Alcance e poder de fogo: permite atingir o inimigo a grandes distâncias, sem exposição direta das tropas próprias;
- Efeito psicológico: bombardeamentos prolongados desgastam o moral das tropas defensoras, mesmo quando as baixas físicas são limitadas;
- Apoio à manobra: prepara e protege o avanço da infantaria e dos blindados, reduzindo as suas baixas;
- Capacidade de negação de área: impede a concentração de forças inimigas em determinados pontos do campo de batalha;
- Relativa simplicidade industrial: comparada com aviões de combate ou mísseis de precisão, a produção de canhões e projéteis convencionais é mais fácil de escalar rapidamente em tempo de guerra.
Esta combinação de fatores explica por que motivo, apesar de mais de seiscentos anos de evolução tecnológica, a artilharia continua a ser descrita por muitos analistas militares como a "rainha do campo de batalha", um título que conquistou ainda na Primeira Guerra Mundial e que mantém atualidade nos conflitos do século XXI.
Perguntas frequentes
Qual foi a guerra em que a artilharia causou mais baixas?
A Primeira Guerra Mundial é geralmente apontada como o conflito em que a artilharia teve o impacto mais devastador, sendo responsável por uma parcela muito significativa, estimada entre 60% e 70%, das baixas militares totais.
Porque é a artilharia chamada de "rainha do campo de batalha"?
A expressão surgiu para descrever o papel central da artilharia na Primeira Guerra Mundial, refletindo a sua capacidade de determinar o resultado de batalhas através do volume e da precisão do fogo, antes mesmo do contacto direto entre infantarias.
Qual é o papel da artilharia na guerra na Ucrânia em 2026?
A artilharia continua a ser uma das armas mais utilizadas no conflito, com ambos os lados a disparar centenas de milhares de projéteis por mês. A produção europeia e ucraniana de munições de 155 mm aumentou significativamente desde 2022, aproximando-se em 2026 dos níveis de produção russos.
A artilharia tornou-se obsoleta com o aparecimento dos drones e mísseis de precisão?
Não. Apesar do crescimento do uso de drones e munições guiadas, a artilharia convencional continua a ser essencial em guerras de desgaste prolongadas, devido ao seu custo relativamente baixo por disparo e à capacidade de sustentar fogo contínuo ao longo de meses ou anos.
Quando surgiu a artilharia moderna a pólvora?
As primeiras bombardas de pólvora surgiram na Europa a partir do século XIV, tendo o seu uso ficado historicamente associado ao cerco de Constantinopla em 1453, que demonstrou pela primeira vez a sua capacidade de derrubar muralhas tidas como inexpugnáveis.