Por que Van Gogh cortou a orelha: a verdade histórica
Na noite de 23 de dezembro de 1888, em Arles, no sul de França, o pintor holandês Vincent van Gogh mutilou a própria orelha esquerda com uma navalha. O ato tornou-se um dos episódios mais comentados e mal compreendidos da história da arte ocidental. Durante décadas, a versão popular reduziu o acontecimento a um gesto de loucura romântica; a investigação histórica e clínica das últimas décadas revela, porém, um quadro muito mais complexo, cruzando doença mental, dependência de álcool, tensões relacionais e uma vulnerabilidade emocional agravada por circunstâncias específicas. Ainda em 2026, o episódio continua a gerar debate académico, e várias das perguntas centrais — a extensão exata do corte, o destinatário da orelha e o verdadeiro gatilho psicológico — só foram respondidas com rigor por investigações recentes.
A noite de 23 de dezembro de 1888
Van Gogh residia há vários meses na chamada Casa Amarela em Arles, onde tentara criar uma comunidade de artistas. O pintor Paul Gauguin, convidado por Van Gogh e financiado pelo seu irmão Theo, habitava a mesma casa desde outubro. A convivência revelou-se tensa: os dois artistas tinham visões estéticas e personalidades antagónicas, e as discussões eram frequentes. Na tarde de 23 de dezembro, Gauguin anunciou que tenciona deixar Arles definitivamente.
Segundo o relato posterior de Gauguin, Van Gogh terá avançado sobre ele com uma navalha ainda nessa tarde, mas recuou. Na madrugada, Van Gogh cortou a orelha esquerda, embrulhou-a num papel de jornal e dirigiu-se a um bordel próximo, onde a entregou a uma mulher. Regressou à Casa Amarela, onde foi encontrado inconsciente no dia seguinte. Gauguin, que dormia num hotel, nunca mais voltou a ver Van Gogh pessoalmente.
O que foi realmente cortado
Durante décadas, o consenso historiográfico sustentava que Van Gogh cortara apenas o lóbulo da orelha esquerda. A investigadora Bernadette Murphy, após sete anos de pesquisa que resultaram no livro Van Gogh's Ear (2016), concluiu que o artista seccionou praticamente a totalidade da orelha, e não apenas o lóbulo. Murphy baseou-se, entre outros elementos, num esboço médico realizado pelo Dr. Félix Rey, o jovem interno que tratou Van Gogh no hospital de Arles, que indicava claramente o corte como abrangendo toda a orelha. Este esboço estivera guardado durante décadas numa coleção particular e era desconhecido do público.
A quem foi entregue a orelha
A versão tradicional identificava a destinatária como uma prostituta chamada Rachel. Bernadette Murphy descobriu, através de registos de arquivo e entrevistas com os descendentes da mulher, que a verdadeira identidade era Gabrielle Berlatier, conhecida como Gaby — não uma prostituta, mas uma empregada de limpeza que trabalhava no bordel para saldar dívidas médicas contraídas após ter sido mordida por um cão raivoso. Murphy apurou ainda que Gabrielle frequentava um café que Van Gogh visitava regularmente, o que sugere que os dois se conheciam, o que confere ao gesto uma dimensão diferente da de uma entrega anónima e aleatória.
As teorias sobre os motivos
Colapso emocional e doença mental
Van Gogh sofria de perturbações mentais crónicas que os médicos da época não conseguiram diagnosticar com precisão. O Dr. Félix Rey anotou na altura "mania aguda com delírio generalizado" e sugeriu a hipótese de epilepsia, referindo-se ao conceito vitoriano de épilepsie larvée mentale — uma forma em que o paciente não apresenta convulsões clássicas, mas episódios comportamentais paroxísticos. Estudos publicados no International Journal of Bipolar Disorders (2020) e no American Journal of Psychiatry analisaram retrospetivamente o historial clínico do pintor e descartaram diagnósticos anteriormente sugeridos como esquizofrenia, envenenamento por monóxido de carbono ou porfiria. A hipótese mais sustentada pela investigação atual aponta para epilepsia do lobo temporal combinada com episódios maníacos e depressivos.
Álcool, desnutrição e privação do sono
Uma investigação publicada na revista Smithsonian e sustentada por investigadores clínicos propôs que Van Gogh poderá ter sofrido abstinência aguda de álcool naquela noite, um estado que pode provocar alucinações, agitação extrema e comportamento violento. Van Gogh consumia quantidades elevadas de absinto e vinho barato, alimentava-se de forma deficiente e trabalhava em excesso. O conjunto destes fatores deteriorava progressivamente o seu estado neurológico e emocional.
A carta de Theo e o medo do abandono
Uma teoria complementar, apoiada por investigadores como Martin Bailey, relaciona o colapso com uma carta que Van Gogh recebeu de Theo, o seu irmão e principal mecenas, poucos dias antes do incidente. Nessa carta, Theo comunicava o seu noivado com Johanna Bonger. Para Vincent, que dependia emocionalmente e financeiramente de Theo, a perspetiva de o irmão formar uma família própria representava uma ameaça direta ao apoio que recebia e ao único laço afetivo estável da sua vida. A chegada desta notícia, somada à iminente partida de Gauguin, poderá ter precipitado o colapso.
A teoria da culpa de Gauguin
Os historiadores alemães Hans Kaufmann e Rita Wildegans propuseram, no livro Van Gogh's Ear: Paul Gauguin and the Pact of Silence (2009), que teria sido Gauguin — praticante de esgrima — a cortar a orelha de Van Gogh durante a discussão, com uma espada, e que ambos teriam firmado um pacto de silêncio para proteger Gauguin de consequências legais. Esta teoria foi recebida com ceticismo generalizado pela comunidade académica. As provas físicas — a navalha encontrada na cozinha da Casa Amarela, os rastos de sangue e o próprio relato de Gauguin — apontam consistentemente para a automutilação. Sem evidências de que Gauguin transportava uma arma branca, a hipótese mantém-se especulativa.
O internamento e o contexto da doença
Após o incidente, Van Gogh foi internado no hospital de Arles, onde permaneceu até fevereiro de 1889. Em maio desse ano, entrou voluntariamente no asilo de Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, onde continuou a pintar. Durante os períodos de lucidez, produziu obras fundamentais do seu catálogo, incluindo A Noite Estrelada. Os episódios de crise repetiam-se com alguma regularidade, e Van Gogh descrevia nas cartas a Theo o terror que sentia perante eles, bem como a consciência de que a doença interferia irremediavelmente com o seu trabalho e vida. Morreu a 29 de julho de 1890, em Auvers-sur-Oise, com 37 anos, dois dias após um tiro no peito.
O que permanece em debate
Apesar de décadas de investigação, a questão do motivo exato continua sem uma resposta definitiva e consensual. O que a investigação contemporânea permite afirmar com razoável segurança é que o episódio não foi um gesto teatral ou romanticamente calculado, mas o resultado de uma crise psiquiátrica grave, potenciada por fatores biológicos (doença mental), químicos (abuso de álcool e desnutrição) e contextuais (rutura com Gauguin, ameaça ao apoio de Theo). A figura do artista louco que se automutila por excesso de paixão é uma construção posterior que serve mais a mitologia popular do que a compreensão histórica e clínica do acontecimento.
Perguntas frequentes
Van Gogh cortou a orelha inteira ou só o lóbulo?
A investigadora Bernadette Murphy concluiu em 2016, com base num esboço médico do Dr. Félix Rey, que Van Gogh cortou praticamente a totalidade da orelha esquerda, e não apenas o lóbulo como se julgava anteriormente.
Por que razão Van Gogh cortou a orelha?
Não existe um motivo único estabelecido. A investigação aponta para uma convergência de fatores: crise psiquiátrica grave (possivelmente epilepsia do lobo temporal com componente maníaco), abuso de álcool e possível abstinência aguda, a partida iminente de Gauguin e a notícia do noivado do irmão Theo, de quem dependia financeiramente.
A quem entregou Van Gogh a orelha?
A destinatária era Gabrielle Berlatier, conhecida como Gaby, uma empregada de limpeza que trabalhava num bordel de Arles. Bernadette Murphy identificou-a em 2016, corrigindo a versão anterior que a descrevia como uma prostituta chamada Rachel.
Foi Gauguin quem cortou a orelha de Van Gogh?
Essa hipótese, proposta por Kaufmann e Wildegans em 2009, é rejeitada pela maioria dos investigadores. As provas físicas — a navalha encontrada na Casa Amarela e os rastos de sangue — apontam para automutilação. A teoria do "pacto de silêncio" com Gauguin não tem suporte documental sólido.
Van Gogh sofria de esquizofrenia?
Não. Estudos clínicos recentes, incluindo uma investigação de 2020 publicada no International Journal of Bipolar Disorders, descartaram o diagnóstico de esquizofrenia. A hipótese mais sustentada atualmente é epilepsia do lobo temporal combinada com perturbação bipolar.