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Por que Van Gogh cortou a orelha: teorias e factos históricos

Publicado 1. novembro 2024 Atualizado 24. junho 2026

Por que Van Gogh cortou a orelha? Entenda o motivo!

Em 23 de dezembro de 1888, o pintor neerlandês Vincent van Gogh entrou num bordel na cidade de Arles, no sul de França, e entregou um embrulho ensanguentado a uma jovem trabalhadora do estabelecimento. Dentro, estava parte da sua própria orelha esquerda. Este gesto perturbador tornou-se um dos episódios mais discutidos da história da arte — e o motivo que levou Van Gogh a mutilar-se continua a alimentar debate entre historiadores, médicos e investigadores até hoje.

O contexto: Arles e a Casa Amarela

Em fevereiro de 1888, Van Gogh mudou-se para Arles com o propósito de criar uma comunidade artística no sul de França. Instalou-se naquilo que ficou conhecido como a Casa Amarela, onde pintou algumas das suas obras mais célebres, incluindo os famosos Girassóis e O Quarto em Arles. Em outubro desse ano, chegou Paul Gauguin, pintor francês de renome, a convite de Van Gogh e com o apoio financeiro do irmão de Vincent, Theo van Gogh.

A relação entre os dois artistas era intensa: admiravam-se mutuamente, mas divergiam profundamente na filosofia e no método de trabalho. Gauguin preferia pintar de memória e com base na imaginação; Van Gogh insistia em trabalhar a partir da observação direta da natureza. Ao longo de semanas, a tensão foi crescendo. Os temperamentos opostos e as discussões sobre arte tornaram a convivência cada vez mais difícil. Em meados de dezembro de 1888, Gauguin anunciou a intenção de partir, o que perturbou profundamente Van Gogh.

A noite de 23 de dezembro de 1888

Na noite de 23 de dezembro, ocorreu um confronto entre os dois artistas cujos pormenores exatos permanecem por esclarecer. O que se sabe é que Van Gogh cortou a sua orelha esquerda. Investigações recentes sugerem que foi a totalidade da orelha e não apenas o lóbulo, como durante muito tempo se acreditou: a historiadora de arte Bernadette Murphy descobriu um diagrama desenhado pelo médico de Van Gogh, o Dr. Félix Rey, que aponta para um corte quase completo. Van Gogh embrulhou a orelha em papel, dirigiu-se ao bordel local na Rue du Bout d'Arles, e entregou-a a uma jovem. Regressou depois à Casa Amarela, onde foi encontrado desacordado pela polícia na manhã seguinte e internado no hospital de Arles.

As principais teorias sobre o motivo

O confronto com Gauguin

A explicação mais amplamente aceite aponta para o conflito com Paul Gauguin como o principal catalisador. A ameaça de abandono por parte do único companheiro artístico que Van Gogh tinha em Arles pode ter precipitado um colapso nervoso. Van Gogh era profundamente dependente das relações humanas e temia o isolamento; a partida iminente de Gauguin representaria o fracasso do seu projeto de comunidade artística e o fim de uma colaboração que valorizava imenso.

A teoria de Gauguin como agressor

Em 2001, os investigadores alemães Hans Kaufmann e Rita Wildegans avançaram com uma hipótese controversa: teria sido Gauguin a cortar a orelha de Van Gogh com uma espada durante a altercação, e o mito do autoferimento teria sido fabricado por ambos para proteger Gauguin de consequências legais. Esta teoria baseia-se em contradições nas declarações de Gauguin e em alguns detalhes das cartas de Van Gogh, mas não obteve aceitação generalizada entre a comunidade académica, que continua a considerar o autoferimento a hipótese mais sustentada.

O noivado de Theo

O jornalista e investigador britânico Martin Bailey, no livro Studio of the South (2016), propôs que o verdadeiro gatilho da crise foi a notícia do noivado do irmão Theo com Johanna Bonger. Theo era não apenas o irmão mais próximo de Vincent, mas o seu único mecenas e suporte financeiro. O casamento poderia significar uma reorientação das prioridades de Theo — e, consequentemente, uma ameaça ao apoio económico e emocional que sustentava a carreira do pintor. Bailey sugere que Van Gogh recebeu esta notícia por carta precisamente nos dias que antecederam o incidente, acumulando-se ao já frágil estado de espírito provocado pela iminente saída de Gauguin.

A saúde mental de Van Gogh

Nenhuma das teorias pode ser separada do estado de saúde mental de Van Gogh, que era há muito precário. Após o incidente da orelha, o seu médico diagnosticou-o com mania aguda com delírio generalizado e epilepsia mental. Ao longo dos anos, médicos e investigadores propuseram dezenas de diagnósticos retroativos, incluindo epilepsia do lobo temporal, perturbação bipolar, esquizofrenia, doença de Ménière, porfiria aguda intermitente e intoxicação por chumbo proveniente das tintas. O abuso de álcool — nomeadamente de absinto — e o tabagismo intenso agravavam certamente o seu estado. A verdade é que Van Gogh sofria de crises psicóticas recorrentes que nenhuma teoria isolada consegue explicar por completo.

Quem recebeu a orelha: o mistério resolvido

Durante décadas, a mulher que recebeu a orelha foi referida nos relatos históricos apenas como Rachel, uma prostituta do bordel de Arles. Em 2016, Martin Bailey e a investigadora Bernadette Murphy identificaram-na como Gabrielle Berlatier, filha de um agricultor da região. Gabrielle não era prostituta: trabalhava como empregada doméstica no bordel enquanto tentava reunir dinheiro para pagar tratamentos médicos — havia sido mordida por um cão raivoso e necessitava do tratamento recém-desenvolvido por Louis Pasteur. Registos do Instituto Pasteur em Paris, onde Gabrielle foi vacinada contra a raiva, confirmaram a sua identidade. Ela frequentava também um café onde Van Gogh era cliente habitual, o que explica o vínculo entre ambos.

As consequências do incidente

Van Gogh foi hospitalizado em Arles e, em maio de 1889, internou-se voluntariamente no asilo de Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, onde permaneceu pouco mais de um ano. Foi nesse período que pintou obras icónicas como A Noite Estrelada. Em julho de 1890, apenas semanas após ter saído do asilo e se mudado para Auvers-sur-Oise, Van Gogh morreu com 37 anos na sequência de um ferimento a tiro — provavelmente suicídio, embora algumas investigações recentes coloquem essa conclusão em questão.

O episódio da orelha continua a ser estudado como janela para compreender a mente de um dos maiores artistas da história. Nenhuma teoria consegue, por si só, explicar o ato na sua totalidade: a combinação de doença mental grave, relações afetivas frágeis, dependências e pressões financeiras criou um contexto em que o colapso era, provavelmente, inevitável.

Perguntas frequentes

Van Gogh cortou a orelha inteira ou apenas o lóbulo?

Investigações recentes, baseadas num diagrama do médico Félix Rey descoberto pela historiadora Bernadette Murphy, indicam que Van Gogh cortou a totalidade da orelha esquerda, e não apenas o lóbulo como durante muito tempo se supôs.

Por que razão Van Gogh entregou a orelha a uma mulher num bordel?

O motivo exato é desconhecido. A mulher foi identificada como Gabrielle Berlatier, uma empregada doméstica no bordel que Van Gogh conhecia de um café local. Algumas interpretações sugerem um gesto simbólico; outras apontam para a desorientação causada pela crise psicótica.

Foi Gauguin quem cortou a orelha de Van Gogh?

Esta hipótese, avançada pelos investigadores alemães Hans Kaufmann e Rita Wildegans em 2001, nunca foi confirmada. A maioria dos historiadores continua a considerar que Van Gogh se autoferiu durante uma crise psicótica, possivelmente desencadeada pelo confronto com Gauguin.

Que doença tinha Van Gogh?

Não existe consenso médico. Os diagnósticos propostos incluem epilepsia do lobo temporal, perturbação bipolar, esquizofrenia, doença de Ménière e porfiria aguda intermitente. O seu médico em Arles diagnosticou-o, à época, com epilepsia mental e mania aguda com delírio generalizado.

O que aconteceu a Van Gogh depois de cortar a orelha?

Foi hospitalizado em Arles e, em maio de 1889, internou-se voluntariamente no asilo de Saint-Paul-de-Mausole em Saint-Rémy-de-Provence. Em julho de 1890, morreu com 37 anos em Auvers-sur-Oise, provavelmente por suicídio.

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