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Riscos do excesso de testosterona nos homens

Publicado 8. novembro 2024 Atualizado 25. junho 2026

Quais os riscos da testosterona em excesso nos homens?

A testosterona é o principal androgénio masculino, produzida sobretudo nos testículos e, em menor quantidade, nas glândulas suprarrenais. Em adultos do sexo masculino, os valores de referência situam-se geralmente entre 300 e 1000 ng/dL (10,4 a 34,7 nmol/L), embora as margens possam variar consoante o laboratório e a metodologia utilizada. Quando os níveis sobem acima deste intervalo — seja por produção endógena excessiva, por administração exógena de testosterona ou pelo uso de esteroides anabolizantes — emergem riscos significativos para a saúde. A utilização recreativa ou não supervisionada de testosterona tem crescido nas últimas décadas, tornando o conhecimento dos seus efeitos adversos cada vez mais relevante do ponto de vista clínico e de saúde pública.

O que se considera excesso de testosterona

Fala-se em excesso de testosterona, ou hiperandrogenia masculina, quando os níveis séricos de testosterona total ultrapassam o limite superior do intervalo normal para a idade. Em homens adultos, valores acima de 1000–1200 ng/dL são geralmente considerados suprafisiológicos. Esta situação pode ocorrer em contextos distintos: tumores produtores de androgénios (como certas neoplasias testiculares ou adrenais), hiperplasia suprarrenal congénita, ou — mais frequentemente — uso de testosterona exógena para fins de terapêutica de substituição hormonal (TRT) mal supervisionada, culturismo ou melhoria do desempenho atlético.

Riscos cardiovasculares

Os efeitos cardiovasculares do excesso de testosterona são os mais documentados pela literatura científica. A principal preocupação é o aumento do hematócrito — a percentagem de eritrócitos no sangue —, fenómeno denominado eritrocitose secundária ou poliglobulia. Níveis suprafisiológicos de testosterona estimulam a eritropoiese via eritropoietina, tornando o sangue mais viscoso e aumentando o risco de tromboembolismo venoso (TEV), designadamente trombose venosa profunda e embolia pulmonar.

Estudos de randomização mendeliana demonstraram que homens com testosterona geneticamente mais elevada ao longo da vida apresentam um risco cerca de 17% superior de doença coronária, mecanismo parcialmente mediado pelo aumento da tensão arterial. O grande ensaio clínico TRAVERSE, publicado em 2023 e analisado em meta-análises que chegam a 2025, confirmou ainda um risco numericamente mais elevado de fibrilhação auricular e de lesão renal aguda nos homens a receber testosterona transdérmica — ainda que a magnitude absoluta seja pequena em contexto de TRT supervisionada. Em doses suprafisiológicas, esses riscos são proporcionalmente maiores.

Em 2025, a FDA norte-americana reviu a rotulagem dos medicamentos de testosterona: retirou o aviso de caixa negra relativo ao risco cardiovascular geral, mas acrescentou um aviso específico sobre elevação da tensão arterial. Esta decisão reflete a distinção entre TRT devidamente indicada e monitorizada, e o uso excessivo ou não supervisionado.

Efeitos sobre o sistema reprodutor

Um dos paradoxos mais conhecidos do excesso de testosterona exógena é o seu efeito contraceptivo. A testosterona em excesso suprime o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal: o hipotálamo reduz a secreção de hormona libertadora de gonadotrofinas (GnRH), o que leva à diminuição das gonadotrofinas hipofisárias LH e FSH. A ausência de LH provoca uma queda drástica na produção intratesticular de testosterona, enquanto a falta de FSH compromete a espermatogénese. O resultado é oligospermia ou azoospermia — redução grave ou ausência total de espermatozoides — e atrofia testicular progressiva, que pode ser parcialmente irreversível em casos de uso prolongado.

A infertilidade associada ao uso de esteroides anabolizantes andrógenos (EAA) é um problema clínico crescente, particularmente em homens jovens que recorrem a estas substâncias em contexto desportivo sem acompanhamento médico.

Alterações psiquiátricas e comportamentais

O excesso de testosterona pode afetar o sistema nervoso central, com manifestações que vão da irritabilidade e agressividade aumentadas a episódios de mania, comportamento impulsivo e, nalguns casos, psicose. O fenómeno coloquialmente designado por roid rage — embora mediático e por vezes exagerado — tem suporte em estudos que documentam alterações no humor e no controlo dos impulsos em utilizadores de doses elevadas de EAA.

Além disso, a interrupção abrupta após uso prolongado pode desencadear síndrome de abstinência com depressão grave, fadiga, hipogonadismo funcional transitório e, em casos extremos, ideação suicida. A dependência psicológica de EAA está documentada na literatura psiquiátrica e é reconhecida como entidade clínica.

Hepatotoxicidade

Os androgénios em excesso, particularmente nas formulações orais alquiladas em C-17 (como a oximetolona ou o estanozolol), são hepatotóxicos. Os efeitos hepáticos incluem colestase, peliose hepática (formação de cavidades cheias de sangue no parênquima hepático), elevação das transaminases e, com menor frequência mas documentada, adenoma e carcinoma hepatocelular. As formulações injetáveis e transdérmicas têm menor impacto hepático direto, mas não são isentas de risco em doses muito elevadas.

Efeitos dermatológicos

A pele é um tecido sensível aos androgénios. O excesso de testosterona aumenta a produção de sebo pelas glândulas sebáceas, favorecendo o aparecimento de acne severa — frequentemente no rosto, costas e tórax. Em homens com predisposição genética, a testosterona em excesso acelera a alopecia androgénica através da conversão em di-hidrotestosterona (DHT) pela enzima 5-alfa-reductase, que miniaturiza progressivamente os folículos pilosos.

Ginecomastia

A testosterona em excesso é parcialmente convertida em estradiol pela enzima aromatase, presente no tecido adiposo, no fígado e noutros tecidos. O aumento dos níveis de estradiol pode provocar ginecomastia — desenvolvimento de tecido glandular mamário nos homens —, frequentemente associada a sensibilidade e desconforto nos mamilos. A ginecomastia induzida por esteroides pode requerer intervenção cirúrgica se persistir após a interrupção da substância.

Apneia do sono

Estudos clínicos demonstram que o excesso de testosterona pode agravar ou desencadear apneia obstrutiva do sono, especialmente em homens com obesidade ou predisposição anatómica. O mecanismo envolve alterações na resposta ventilatória central e no tónus dos músculos das vias aéreas superiores. A apneia do sono não tratada aumenta, por sua vez, o risco cardiovascular, criando um ciclo de retroalimentação negativa.

Cancro da próstata

Durante décadas prevaleceu a hipótese de que a testosterona elevada aumentava o risco de cancro da próstata de novo. Esta posição tem sido progressivamente matizada: ensaios clínicos recentes, incluindo o TRAVERSE, não demonstraram um aumento significativo de cancro da próstata com TRT em doses de substituição fisiológica. Contudo, a testosterona é considerada um fator de progressão em tumores prostáticos já existentes, pelo que o cancro da próstata não tratado ou em vigilância ativa constitui uma contraindicação relativa ou absoluta ao uso de testosterona exógena. O impacto de níveis verdadeiramente suprafisiológicos sobre a próstata mantém-se objeto de investigação ativa.

Quem está em maior risco

Os grupos com maior exposição a níveis excessivos de testosterona incluem atletas e praticantes de culturismo que utilizam EAA sem prescrição, homens submetidos a TRT sem monitorização laboratorial regular e, menos frequentemente, indivíduos com tumores produtores de androgénios. A ausência de supervisão médica é o fator de risco modificável mais relevante, pois impede a deteção precoce de eritrocitose, dislipidemia, hipertensão ou outras complicações tratáveis.

Perguntas frequentes

Qual é o nível de testosterona considerado perigoso nos homens?

Valores de testosterona total acima de 1000–1200 ng/dL (34,7–41,6 nmol/L) são geralmente considerados suprafisiológicos. No entanto, o contexto clínico — saúde cardiovascular, hematócrito, tensão arterial — é determinante para avaliar o risco individual, independentemente do valor absoluto.

O uso de testosterona para musculação é seguro?

Não. O uso de testosterona ou esteroides anabolizantes em doses suprafisiológicas, sem indicação médica e sem monitorização, comporta riscos cardiovasculares, reprodutivos, hepáticos e psiquiátricos significativos, incluindo infertilidade e aumento do risco de enfarte do miocárdio e trombose.

O excesso de testosterona causa cancro da próstata?

A evidência atual não confirma que a testosterona em doses de substituição cause cancro da próstata de novo. Contudo, em tumores já existentes, a testosterona pode atuar como fator de progressão. Homens com cancro da próstata ativo não devem receber testosterona exógena sem avaliação oncológica especializada.

A testosterona em excesso provoca infertilidade?

Sim. A testosterona exógena suprime a produção de LH e FSH pela hipófise, inibindo a espermatogénese nos testículos. O resultado pode ser oligospermia ou azoospermia, por vezes de recuperação lenta ou incompleta após a interrupção, sobretudo em casos de uso prolongado.

Os efeitos do excesso de testosterona são reversíveis?

Muitos efeitos são reversíveis após a interrupção: acne, alterações de humor, eritrocitose leve e dislipidemia tendem a normalizar. Outros podem ser parcialmente irreversíveis, como a atrofia testicular prolongada, a infertilidade em casos graves, a ginecomastia avançada e certas alterações cardiovasculares estruturais associadas ao uso de EAA a longo prazo.

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