Substâncias nocivas nos cigarros: composição e riscos para a saúde
O fumo do cigarro é uma mistura complexa de mais de 7 000 compostos químicos gerados pela combustão do tabaco e dos materiais do cigarro. Destes, cerca de 250 são reconhecidamente prejudiciais para a saúde humana e pelo menos 70 estão classificados como cancerígenos confirmados ou prováveis. Os dados mais recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicados em 2025, confirmam que o tabaco continua a ser uma das principais causas evitáveis de morte no mundo, sendo responsável por mais de oito milhões de óbitos anuais. Conhecer a composição química do cigarro é fundamental para compreender os mecanismos pelos quais o tabagismo afeta o organismo a curto e a longo prazo.
Composição geral do fumo do cigarro
Quando um cigarro é aceso, a temperatura na ponta acesa pode atingir cerca de 900 °C. Este processo de combustão transforma os componentes da folha de tabaco, do papel e dos aditivos numa mistura de gases, partículas finas e compostos orgânicos voláteis. O fumo divide-se em dois fluxos principais: o fumo corrente, inalado diretamente pelo fumador, e o fumo lateral, libertado pela ponta acesa do cigarro para o ambiente. O fumo lateral contém, em geral, concentrações mais elevadas de determinados compostos tóxicos do que o fumo corrente, o que explica os riscos associados ao tabagismo passivo.
As substâncias nocivas presentes no cigarro podem ser agrupadas em grandes categorias: agentes dependência-indutores, gases tóxicos, partículas sólidas (alcatrão), metais pesados, compostos cancerígenos orgânicos e substâncias radioativas.
As principais substâncias nocivas
Nicotina
A nicotina é um alcaloide naturalmente presente nas folhas de tabaco e a substância responsável pela dependência tabágica. Após a inalação, atinge o cérebro em cerca de dez segundos, onde se liga a recetores nicotínicos de acetilcolina, estimulando a libertação de dopamina e criando sensações de prazer e alívio da ansiedade. Este mecanismo sustenta a dependência física e psicológica. A nicotina em si não é o principal agente cancerígeno do cigarro, mas acelera o crescimento de tumores existentes e tem efeitos cardiovasculares significativos, incluindo o aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial.
Alcatrão
O alcatrão é a designação coletiva para o conjunto de partículas sólidas e líquidas que permanecem no filtro após a combustão. Contém centenas de compostos, incluindo hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP), aminas aromáticas e nitrosaminas — três grupos responsáveis pela maior parte da atividade cancerígena do tabaco. O alcatrão deposita-se nos pulmões, contribuindo para o desenvolvimento de bronquite crónica, enfisema pulmonar e cancro do pulmão. Mesmo os cigarros designados como "light" ou "ultra-light" produzem alcatrão em quantidades que não eliminam o risco para a saúde.
Monóxido de carbono
O monóxido de carbono (CO) é um gás incolor e inodoro produzido pela combustão incompleta do tabaco. Liga-se à hemoglobina com uma afinidade cerca de 200 vezes superior à do oxigénio, formando carboxi-hemoglobina e reduzindo a capacidade de transporte de oxigénio pelo sangue. Nos fumadores crónicos, a concentração de carboxi-hemoglobina pode atingir 10 a 15 % do total de hemoglobina, comprometendo a oxigenação dos tecidos e sobrecarregando o sistema cardiovascular. Este efeito é particularmente perigoso em pessoas com doenças cardíacas ou respiratórias preexistentes.
Cianeto de hidrogénio
O cianeto de hidrogénio é um dos gases mais tóxicos presentes no fumo do cigarro. Inibe a respiração celular ao bloquear a enzima citocromo c oxidase, impedindo as células de utilizarem o oxigénio. Nos pulmões, danifica os cílios que tapizam as vias respiratórias e que são responsáveis pela eliminação de partículas e muco. A destruição progressiva destes cílios contribui para a chamada "tosse do fumador" e para o aumento da suscetibilidade a infeções respiratórias.
Compostos cancerígenos orgânicos
Entre os cancerígenos orgânicos mais bem documentados no fumo do cigarro destacam-se:
- Benzeno — solvente orgânico classificado como cancerígeno do Grupo 1 pela Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC); associado à leucemia.
- Formaldeído — gás com propriedades conservantes, cancerígeno do Grupo 1; causa irritação das mucosas e está associado a cancros da nasofaringe e do pulmão.
- Benzopireno — hidrocarboneto aromático policíclico altamente cancerígeno, resultante da combustão incompleta; causa mutações no ADN e está fortemente associado ao cancro do pulmão.
- Nitrosaminas específicas do tabaco (TSNA) — formam-se durante o processamento e a combustão do tabaco; incluem compostos como a NNK e a NNN, classificados como cancerígenos do Grupo 1 pela IARC.
- Acetaldeído — potencia os efeitos da nicotina na dependência e está classificado como possível cancerígeno humano.
- Acroleína — composto altamente irritante para as vias respiratórias; danifica o ADN e contribui para a inflamação crónica dos pulmões.
Metais pesados
A folha de tabaco absorve metais pesados do solo e dos fertilizantes durante o crescimento da planta. O fumo do cigarro contém, entre outros:
- Cádmio — acumula-se nos rins e pode causar insuficiência renal; está também associado ao cancro do pulmão e da bexiga.
- Chumbo — afeta o sistema nervoso, especialmente em crianças expostas ao fumo passivo; interfere com a produção de glóbulos vermelhos.
- Arsénio — cancerígeno do Grupo 1; está associado a cancros da pele, dos pulmões e da bexiga.
- Crómio — na sua forma hexavalente, é um potente cancerígeno pulmonar.
- Níquel — associado ao cancro do pulmão e das fossas nasais.
Substâncias radioativas
Um aspeto menos divulgado da composição do cigarro é a presença de substâncias radioativas. O polônio-210 é o mais relevante: trata-se de um emissor de partículas alfa que se deposita nos pulmões dos fumadores e emite radiação ionizante diretamente nos tecidos. Estima-se que a dose de radiação acumulada por um fumador de um maço por dia ao longo de um ano seja equivalente à de cerca de 200 radiografias ao tórax. O polônio-210 provém dos fertilizantes fosfatados utilizados na cultura do tabaco e concentra-se nas folhas. A sua presença é considerada um fator que contribui independentemente para o risco de cancro do pulmão nos fumadores.
Aditivos e substâncias acrescentadas pelos fabricantes
Para além dos compostos resultantes da combustão do tabaco, os fabricantes adicionam centenas de ingredientes aos cigarros com objetivos diversos: melhorar o sabor, aumentar a absorção da nicotina, ou prolongar a conservação do produto. Entre os aditivos mais controversos encontram-se o mentol — que reduz a irritação das vias respiratórias e facilita a inalação mais profunda do fumo — o açúcar e o cacau, que ao arderem produzem compostos como o acetaldeído, e o amoníaco, que ao alcalinizar o fumo aumenta a disponibilidade de nicotina livre para absorção. A União Europeia proibiu o mentol como aditivo aromatizante nos cigarros em 2020, no âmbito da Diretiva do Tabaco.
Efeitos cumulativos na saúde
A exposição simultânea a todos estes compostos produz efeitos que vão muito além de qualquer substância isolada. Os fumadores têm um risco aproximadamente 15 a 30 vezes superior ao dos não fumadores de desenvolver cancro do pulmão, e o tabaco é responsável por cerca de 85 % dos casos desta doença. O risco de enfarte do miocárdio é duas a quatro vezes maior, e o acidente vascular cerebral (AVC) também apresenta incidência significativamente mais elevada. A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), que inclui bronquite crónica e enfisema, afeta a grande maioria dos fumadores de longa data. Os efeitos manifestam-se igualmente na cavidade oral, esófago, estômago, pâncreas, rim, bexiga e colo do útero, entre outros órgãos.
O relatório da OMS de 2025 sobre a epidemia global do tabaco sublinha que, apesar da tendência descendente na prevalência do tabagismo em muitos países, cerca de um em cada cinco adultos no mundo continua a consumir produtos de tabaco — o que demonstra a persistência de um problema de saúde pública de grande escala.
Perguntas frequentes
Quantas substâncias nocivas existem no fumo do cigarro?
O fumo do cigarro contém mais de 7 000 compostos químicos. Destes, cerca de 250 são reconhecidamente prejudiciais para a saúde e pelo menos 70 estão classificados como cancerígenos confirmados ou prováveis por organismos como a IARC e a FDA.
Qual é a substância mais cancerígena do cigarro?
Não existe uma única substância mais cancerígena, mas entre as mais potentes encontram-se o benzopireno, as nitrosaminas específicas do tabaco (NNK e NNN), o benzeno, o formaldeído e o polônio-210. O conjunto destes compostos, associado ao alcatrão, é responsável pela elevada incidência de cancro do pulmão nos fumadores.
A nicotina é cancerígena?
A nicotina não é classificada como cancerígena direta, mas é o principal agente de dependência do cigarro e pode promover o crescimento de tumores existentes ao estimular a angiogénese (formação de vasos sanguíneos que alimentam tumores). Os danos cancerígenos do tabaco são atribuídos principalmente ao alcatrão e aos compostos resultantes da combustão, e não à nicotina isoladamente.
Os cigarros "light" contêm menos substâncias nocivas?
Não necessariamente. Os cigarros designados como "light" ou "ultra-light" foram concebidos para apresentar valores mais baixos em máquinas de medição normalizadas, mas na prática os fumadores tendem a inalar mais profundamente e com maior frequência para satisfazer a necessidade de nicotina, absorvendo quantidades semelhantes de substâncias nocivas. A designação "light" foi proibida na União Europeia precisamente por ser considerada enganosa.
O tabagismo passivo também expõe a estas substâncias?
Sim. O fumo lateral libertado pela ponta acesa do cigarro contém concentrações iguais ou superiores de muitos compostos tóxicos em comparação com o fumo inalado pelo fumador. A exposição ao tabagismo passivo está associada ao aumento do risco de cancro do pulmão, doenças cardiovasculares e, em crianças, a infeções respiratórias e asma.