História de Camarões: das origens à crise anglófona em 2026
Camarões é um país da África Central frequentemente descrito como "África em miniatura", expressão que traduz a extraordinária diversidade geográfica, climática, linguística e cultural que concentra num único território. Com mais de 27 milhões de habitantes e cerca de 475 grupos etnolinguísticos, o país partilha fronteiras com a Nigéria, o Chade, a República Centro-Africana, a República do Congo, o Gabão e a Guiné Equatorial. A sua história é marcada por séculos de civilizações pré-coloniais, pelo impacto do tráfico negreiro, pela colonização europeia e por um pós-independência complexo que ainda hoje molda tensões profundas no território.
Origens e povos pré-coloniais
A presença humana no território que é hoje Camarões recua ao Paleolítico Médio. Escavações arqueológicas em Shum Laka, no noroeste, revelaram vestígios de ocupação humana com cerca de 30 000 anos. As florestas tropicais do sul e do sudeste foram habitadas pelos povos Baka, caçadores-recoletores que constituem um dos grupos mais antigos da região da bacia do Congo.
Em torno do lago Chade, floresceu a civilização Sao, um povo de agricultores e construtores que ergueu cidades amuralhadas e esculpiu figuras em terracota. Esta civilização foi progressivamente absorvida pelo Império de Kanem, fundado no século IX e convertido ao islão no século XI. O Kanem, depois designado Kanem-Borno, atingiu o seu apogeu entre os séculos XVI e XVII, controlando vastas extensões do atual nordeste de Camarões. No mesmo período, os Fulani — povo pastoril muçulmano — iniciaram migrações que os fixaram no planalto de Adamaoua, contribuindo para a expansão do islão e para a criação de emirados que resistiram até à colonização europeia.
O contacto europeu e a origem do nome
O nome "Camarões" tem origem portuguesa. Em 1472, navegadores portugueses ao serviço da Coroa chegaram à foz do rio Wouri e encontraram tal abundância de camarões nas suas águas que baptizaram o curso de água como Rio dos Camarões. O topónimo evoluiu para Cameroon em inglês e Cameroun em francês, mantendo as duas formas até hoje a coexistir no país bilingue.
Os portugueses estabeleceram contactos comerciais com populações costeiras, mas a presença europeia permaneceu limitada durante séculos, em parte devido à malária que dizimava os colonos. O tráfico de escravizados marcou profundamente a costa durante os séculos XVII e XVIII, envolvendo tanto potências europeias — Portugal, Holanda, Inglaterra — como reinos africanos que actuavam como intermediários no comércio transatlântico.
A colonização alemã (1884–1916)
A situação alterou-se radicalmente na segunda metade do século XIX, após a disponibilização de quinino como profilaxia contra a malária, que abriu o interior de África à penetração europeia. Em 14 de julho de 1884, o cônsul alemão Gustav Nachtigal assinou um tratado com chefes Douala da costa, proclamando o protetorado alemão de Kamerun. A Alemanha foi, assim, a potência colonial que consolidou o território na forma que se aproxima mais das fronteiras atuais.
A administração alemã caracterizou-se pela construção de infraestruturas — caminhos de ferro, estradas e portos — e pela exploração agrícola intensiva, com recurso ao trabalho forçado. As plantações de cacau, borracha e palma transformaram a economia da região costeira. A resistência das populações locais foi violentamente reprimida, como sucedeu na guerra contra os Bulu e outras comunidades do interior. Com a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, o território foi ocupado pelos aliados franco-britânicos em 1916.
A partilha franco-britânica (1916–1960)
Em 1919, pelo Tratado de Versalhes, a Liga das Nações dividiu o antigo Kamerun entre a França e o Reino Unido como territórios sob mandato. A França recebeu cerca de quatro quintos do território — a parte oriental e central —, enquanto a Grã-Bretanha administrou duas faixas ocidentais contíguas à Nigéria: o Camarões Britânico do Norte e o Camarões Britânico do Sul. Este corte arbitrário separou comunidades étnicas e linguísticas e criou uma dualidade político-administrativa cujas consequências se fazem sentir ainda em 2026.
No lado francês, o território foi integrado na África Equatorial Francesa e submetido ao regime do trabalho forçado. No lado britânico, administrado de forma indireta a partir de Lagos e depois de Enugu (Nigéria), as comunidades gozaram de maior autonomia relativa. Após a Segunda Guerra Mundial, os mandatos foram transformados em territórios sob tutela das Nações Unidas, continuando sob administração francesa e britânica, mas com pressão crescente dos movimentos nacionalistas africanos.
Independência e reunificação (1960–1961)
O Camarões francês tornou-se independente a 1 de janeiro de 1960, sendo um dos primeiros territórios africanos a aceder à soberania na vaga de descolonizações desse ano. Ahmadou Ahidjo, político do norte muçulmano apoiado por Paris, assumiu a presidência em maio de 1960. O seu governo enfrentou imediatamente uma grave insurgência armada conduzida pela União das Populações do Camarões (UPC), movimento de orientação marxista que lutava pela reunificação e pela independência real face à influência francesa. A repressão foi violenta e prolongada até meados da década de 1970.
Quanto ao Camarões Britânico, um plebiscito supervisionado pela ONU em fevereiro de 1961 ofereceu duas escolhas às populações: a integração na Nigéria ou a união com a República do Camarões. O Camarões Britânico do Sul votou a favor da união, que entrou em vigor a 1 de outubro de 1961, dando origem à República Federal dos Camarões. O Camarões Britânico do Norte optou, pelo contrário, pela integração na Nigéria. Esta cisão criou a distinção estrutural entre as regiões francófonas — maioritárias — e as regiões anglófonas do noroeste e do sudoeste, com raízes institucionais, jurídicas e educativas distintas.
Do Estado federal ao Estado unitário (1961–1982)
A federação mostrou-se instável politicamente. Ahidjo concentrou progressivamente o poder, suprimiu os partidos de oposição e instalou um regime de partido único. Em 20 de maio de 1972, um referendo aprovou a transformação do Estado federal em Estado unitário, designado República Unida dos Camarões. A data de 20 de maio tornou-se o dia nacional do país. O sistema presidencialista foi reforçado, com poderes executivos e legislativos amplos concentrados na presidência.
Apesar do autoritarismo, o período Ahidjo foi relativamente estável do ponto de vista económico, beneficiando das receitas petrolíferas após a descoberta de jazidas offshore no início dos anos 1970. O país investiu em infraestruturas e diversificou a produção agrícola, mantendo-se autossuficiente em termos alimentares durante vários anos.
O regime de Paul Biya (1982–2026)
Em novembro de 1982, Ahidjo demitiu-se e foi substituído pelo primeiro-ministro Paul Biya, cristão do sul, cujo percurso seria radicalmente diferente do que qualquer analista então previa. Biya tornar-se-ia um dos chefes de Estado com mais longevidade no mundo. Em 1984, alterou a designação do país de volta para simplesmente República dos Camarões, apagando o adjetivo "unida" que reconhecia a natureza plural da federação.
A tentativa de golpe de Estado em abril de 1984, protagonizada por militares da Guarda Republicana ligados ao norte, foi reprimida com dureza. Nos anos seguintes, a queda do preço do petróleo e do cacau precipitou uma grave crise económica que Biya geriu através de programas de austeridade negociados com o FMI. A pressão interna e internacional forçou-o a aceitar o multipartidarismo em 1990, mas as eleições subsequentes foram marcadas por acusações de fraude sistemática.
Em outubro de 2025, Biya, com 92 anos de idade, foi declarado vencedor das eleições presidenciais com 53,66% dos votos para um oitavo mandato. A reeleição foi contestada pela oposição e criticada por observadores internacionais. Os protestos pós-eleitorais foram reprimidos pelas forças de segurança, aprofundando a crise de legitimidade do regime.
A crise anglófona e os desafios contemporâneos
O conflito mais grave da Camarões contemporâneos tem origem nas reivindicações das comunidades anglófonas do noroeste e do sudoeste. Em 2016, advogados e professores dessas regiões iniciaram greves e manifestações contra a imposição do francês nos tribunais e nas escolas, exigindo o respeito pelas suas tradições jurídicas e educativas de raiz britânica. A resposta do governo foi a repressão, o que radicalizou o movimento e levou ao surgimento de grupos armados separatistas que proclamaram a República da Ambazónia em 2017.
O conflito transformou-se numa guerra civil de baixa intensidade com consequências humanitárias graves. Estima-se que o conflito tenha causado milhares de mortos e forçado quase 500 000 pessoas ao deslocamento interno, com centenas de milhares de refugiados nas aldeias da floresta e na Nigéria vizinha. Em dezembro de 2025 e janeiro de 2026, novos ataques nas aldeias de Wowo e Gidado, no noroeste, mataram pelo menos 23 civis, na maioria mulheres e crianças.
Em maio de 2025, o ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki revelou publicamente que Biya recusou uma tentativa de mediação de antigos chefes de Estado africanos. Em abril de 2026, o Papa Leão XIV visitou Camarões e apelou ao fim da violência e ao combate à corrupção; fações separatistas anunciaram um cessar-fogo temporário por ocasião da visita, sinal da gravidade e da complexidade do conflito.
Para além da crise anglófona, Camarões enfrenta a insurgência jihadista no extremo norte, na região do lago Chade, onde grupos afiliados ao Boko Haram e ao Estado Islâmico da África Ocidental operam desde 2014. O país debate-se igualmente com desafios de governação, corrupção sistémica e dependência excessiva das exportações petrolíferas, cujas reservas entram em declínio.
Perguntas frequentes
Porque é que o país se chama Camarões?
O nome tem origem portuguesa. Em 1472, navegadores portugueses baptizaram o rio Wouri como "Rio dos Camarões" devido à grande abundância de camarões nas suas águas. O topónimo evoluiu para Cameroon em inglês e Cameroun em francês, e deu origem ao nome do país independente.
Quando é que Camarões se tornou independente?
O Camarões francês tornou-se independente a 1 de janeiro de 1960. Em outubro de 1961, o Camarões Britânico do Sul uniu-se à república recém-independente, formando a República Federal dos Camarões, posteriormente transformada em Estado unitário em 1972.
O que é a crise anglófona em Camarões?
É um conflito armado iniciado em 2016-2017 entre o governo camaronês, de maioria francófona, e grupos separatistas das regiões anglófonas do noroeste e do sudoeste. Os separatistas proclamaram a República da Ambazónia, reivindicando independência face ao que consideram marginalização cultural, jurídica e política. O conflito causou milhares de mortos e centenas de milhares de deslocados internos.
Quem é Paul Biya e há quanto tempo governa Camarões?
Paul Biya é o presidente de Camarões desde novembro de 1982, tornando-o um dos líderes com maior longevidade no poder no mundo. Em outubro de 2025, com 92 anos, foi reeleito para um oitavo mandato. O seu regime é caracterizado pela concentração do poder executivo e por restrições às liberdades políticas.
Porque é que Camarões é chamada "África em miniatura"?
A expressão refere-se à extraordinária diversidade que o país concentra num território relativamente pequeno: paisagens que vão das florestas tropicais às savanas e ao deserto do Sahel, praias atlânticas, montanhas vulcânicas, e cerca de 475 grupos etnolinguísticos diferentes, representando praticamente todos os grandes ecossistemas e culturas do continente africano.