História do Cazaquistão: das estepes nómadas à independência
O Cazaquistão é o maior país sem saída para o mar do mundo e o nono maior em área total, estendendo-se por cerca de 2,7 milhões de quilómetros quadrados na Ásia Central. A sua história abrange milénios de nomadismo nas estepes, a formação de um poderoso canato, a conquista pelo Império Russo, décadas de domínio soviético marcadas por fomes e deportações, e, finalmente, a independência proclamada em 1991. Em 2026, o país atravessa um período de transformação política na sequência dos violentos protestos de janeiro de 2022, com o Presidente Kassym-Jomart Tokayev a tentar reformar o sistema herdado do seu predecessor.
Pré-história e primeiros povos
Os primeiros vestígios de presença humana no território do atual Cazaquistão remontam ao Paleolítico Inferior, há mais de um milhão de anos. As condições climáticas e a vasta extensão de estepes favoreceram, desde cedo, modos de vida pastoris e nómadas. Durante a Idade do Bronze, culturas como a Andronovo e a Afanasevo deixaram a sua marca na região. Entre os séculos V a.C. e V d.C., o território foi habitado pelos sacas — um povo de pastores e guerreiros de origem indo-iraniana — e pelos hunos, cujas migrações abalaram o equilíbrio de poder da Eurásia.
Ao longo do primeiro milénio da era cristã, a região foi atravessada pela Rota da Seda, tornando-se ponto de passagem de mercadorias, culturas e religiões entre a China, a Pérsia e o Mediterrâneo. Cidades como Otrar (Farab) e Taraz cresceram como centros comerciais e intelectuais neste contexto.
Os mongóis e o Canato Cazaque
No século XIII, as conquistas de Gengis Khan transformaram profundamente a Ásia Central. As estepes cazaques foram integradas no vasto Império Mongol e, após a sua divisão em 1259, passaram a fazer parte da Horda de Ouro (ou Ulus de Jochi), o domínio atribuído ao filho mais velho do conquistador. A fragmentação progressiva da Horda de Ouro no século XV criou as condições para o surgimento de uma entidade política própria.
Por volta de 1465, os cãs Janibek e Giray fundaram o Canato Cazaque, considerado o predecessor direto do Estado cazaque moderno. O canato atingiu o seu apogeu no século XVI, controlando vastos territórios da estepe quipchaque. A organização social assentava em três grandes divisões tribais, os jüz (ou júzes): a Grande Horda, a Média Horda e a Pequena Horda, cada uma com os seus próprios chefes e territórios de pastoreio. O Canato Cazaque foi o último Estado de linhagem gengiscânida a persistir na região.
A conquista pelo Império Russo
A partir do século XVIII, o Canato Cazaque viu-se pressionado a leste pelo Império Dzungar (Kalmyk), cujas incursões devastadoras — conhecidas como o "Grande Desastre" (Aktaban Shubyryndy) na tradição oral cazaque — causaram enormes perdas humanas. Fragilizados, os líderes da Pequena Horda e da Média Horda procuraram a proteção do Império Russo, aceitando progressivamente a soberania czarista. As campanhas militares e a diplomacia russa estenderam gradualmente o controlo imperial: em meados do século XIX, a totalidade do território cazaque estava sob domínio russo.
A colonização russa trouxe assentamentos agrícolas eslavos para as estepes, deslocando pastores nómadas das suas terras ancestrais. As revoltas contra o domínio imperial, como a liderada por Amangeldy Imanov em 1916, foram duramente reprimidas.
A era soviética: coletivização, fome e deportações
Após a Revolução Russa de 1917 e a guerra civil que se seguiu, o território foi reorganizado em sucessivas estruturas administrativas. Em 1936, o Cazaquistão foi elevado ao estatuto de República Socialista Soviética Cazaque, integrando formalmente a URSS.
O período soviético foi marcado por traumas profundos. A coletivização forçada imposta por Estaline no final dos anos 1920 e início dos anos 1930 destruiu a economia pastoril tradicional, provocando uma fome catastrófica que eliminou entre um e dois milhões de cazaques — cerca de 38% da população indígena. Entre 1926 e 1939, a população total do país diminuiu cerca de 22% em resultado da fome, da violência e da emigração em massa.
O Cazaquistão serviu também como território de deportação para dezenas de povos considerados politicamente suspeitos pelo regime soviético: alemães do Volga, chechenos, tártaros da Crimeia, coreanos e muitos outros foram enviados à força para as estepes durante a Segunda Guerra Mundial. Paralelamente, o país acolheu o Gulag de Karlag, um dos maiores complexos do sistema de campos de trabalho forçado soviético.
Na era pós-estaliniana, o Cazaquistão tornou-se palco da campanha das "Terras Virgens" (1953–1965), que transformou vastas extensões de estepe em campos de cultivo de trigo. O país albergou ainda o cosmódromo de Baikonur, a partir do qual foi lançado o Sputnik em 1957 e de onde partem ainda hoje missões espaciais em 2026.
Independência e a era Nazarbayev (1991–2019)
O Cazaquistão foi a última república soviética a declarar a independência, em 16 de dezembro de 1991, poucos dias antes da dissolução formal da URSS. Nursultan Nazarbayev, que dirigia a república desde 1989, tornou-se o primeiro Presidente do país independente.
Sob a liderança de Nazarbayev, o Cazaquistão realizou uma transição para uma economia de mercado assente na exploração de vastas reservas de petróleo e gás natural, carvão, urânio e metais. O PIB cresceu de aproximadamente 11 mil milhões de dólares em 1991 para cerca de 190 mil milhões na segunda década do século XXI. A capital foi transferida de Almaty para Astaná em 1997 (renomeada Nur-Sultan em 2019, em homenagem ao presidente, e devolvida ao nome Astaná em 2022). O país adotou uma política externa "multivectorial", cultivando relações com a Rússia, a China, os Estados Unidos e a União Europeia.
No plano político interno, Nazarbayev governou de forma autoritária, concentrando poderes, limitando a liberdade de imprensa e neutralizando a oposição. Em março de 2019, renunciou formalmente à presidência — a primeira demissão voluntária de um chefe de Estado pós-soviético na Ásia Central — mas manteve influência através do cargo de presidente vitalício do Conselho de Segurança e do controlo do partido no poder.
Tokayev e o "Janeiro Sangrento" de 2022
Kassym-Jomart Tokayev, escolhido por Nazarbayev como sucessor, assumiu a presidência em 2019. Em janeiro de 2022, o Cazaquistão viveu a maior agitação social desde a independência. O estopim foi a duplicação do preço do gás liquefeito de petróleo após o levantamento de subsídios estatais, mas os protestos rapidamente absorveram décadas de descontentamento acumulado com a desigualdade, a corrupção e o nepotismo do clã Nazarbayev.
Os confrontos deixaram pelo menos 238 mortos e milhares de feridos. Tokayev invocou a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), liderada pela Rússia, que enviou tropas para apoiar o restabelecimento da ordem — a primeira vez na história que a aliança mobilizou forças militares em resposta a um conflito interno. O ex-presidente Nazarbayev foi afastado da presidência do Conselho de Segurança e viu a sua influência formal extinta.
Após os protestos, Tokayev prometeu reformas — "demonopolização do poder político" e uma redistribuição mais equitativa da riqueza nacional —, realizou eleições antecipadas em novembro de 2022 e promoveu uma revisão constitucional. Em março de 2026, um referendo aprovou uma segunda vaga de alterações à constituição, embora organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch, continuem a denunciar restrições à liberdade de expressão, de reunião e de associação, bem como a ausência de uma investigação eficaz e independente aos mortos de janeiro de 2022.
O Cazaquistão em 2026
Em 2026, o Cazaquistão é um Estado presidencialista com uma economia fortemente dependente dos hidrocarbonetos, membro da Organização de Cooperação de Xangai, da Comunidade de Estados Independentes e da União Económica Eurasiática. Astaná consolidou-se como centro diplomático e financeiro regional. O país enfrenta o desafio de diversificar a economia, reduzir a desigualdade e modernizar as instituições políticas, num contexto geopolítico complexo marcado pela guerra na Ucrânia e pela crescente influência chinesa na Ásia Central.
Perguntas frequentes
Quando é que o Cazaquistão se tornou independente?
O Cazaquistão declarou a independência em 16 de dezembro de 1991, sendo a última república soviética a fazê-lo, poucos dias antes da dissolução formal da União Soviética.
Quem foi Nursultan Nazarbayev?
Nursultan Nazarbayev foi o primeiro presidente do Cazaquistão independente, governando de 1991 a 2019. Consolidou um regime autoritário mas promoveu o desenvolvimento económico assente nos recursos energéticos do país. Após renunciar formalmente, manteve influência até aos protestos de janeiro de 2022, que precipitaram o seu afastamento definitivo do poder.
O que aconteceu nos protestos de janeiro de 2022 no Cazaquistão?
Em janeiro de 2022, uma subida abrupta do preço do gás deflagrou protestos em todo o país que se tornaram na maior agitação social desde a independência. Os confrontos causaram pelo menos 238 mortos. O Presidente Tokayev pediu apoio militar à OTSC (aliança liderada pela Rússia) e afastou Nazarbayev dos cargos que ainda detinha.
Qual é a capital do Cazaquistão?
A capital é Astaná. A cidade foi renomeada Nur-Sultan em 2019 em homenagem ao ex-presidente Nazarbayev, mas recuperou o nome Astaná em 2022, após a queda da sua influência política.
Qual é a importância do cosmódromo de Baikonur?
O cosmódromo de Baikonur, situado no sul do Cazaquistão, é o mais antigo e um dos maiores centros de lançamento espacial do mundo. Foi a partir daqui que a União Soviética lançou o Sputnik em 1957 e Yuri Gagarin em 1961. Em 2026, continua operacional e é arrendado pelo Cazaquistão à Rússia.