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Deserto do Atacama: a importância do lugar mais seco da Terra

Publicado 27. maio 2025 Atualizado 28. junho 2026

Qual é a importância do deserto do Atacama no Chile?

O deserto do Atacama, no norte do Chile, é frequentemente descrito como o lugar mais árido do planeta. Estende-se por cerca de mil quilómetros ao longo da costa do Pacífico, entre a cordilheira dos Andes e a Cordilheira da Costa, e a sua importância vai muito além do estatuto de recorde climático. É simultaneamente uma das principais janelas da humanidade para o universo, um dos maiores reservatórios mundiais de minerais estratégicos e um laboratório natural para a ciência. Em 2026, o Atacama concentra alguns dos debates mais relevantes sobre energia, recursos e preservação do céu noturno.

Porque é o Atacama tão importante?

A relevância do deserto assenta numa combinação rara de fatores geográficos. A altitude elevada, a extrema secura, a estabilidade atmosférica e o isolamento de grandes centros urbanos criam condições que praticamente não existem em mais nenhum local habitado. Algumas estações meteorológicas registaram períodos de anos sem qualquer precipitação mensurável, e parte do solo aproxima-se das condições encontradas em Marte. Esta aridez, que noutro contexto seria apenas um obstáculo, transforma o Atacama num recurso científico e económico de primeira ordem.

A capital mundial da astronomia

O céu do Atacama é considerado um dos mais escuros e límpidos do mundo. A ausência de humidade reduz a distorção da luz das estrelas, e a baixa poluição luminosa permite observar a Via Láctea a olho nu com nitidez excecional. Por estas razões, o deserto acolhe uma concentração de observatórios sem paralelo no planeta.

Entre as instalações mais importantes está o Observatório do Paranal, gerido pela Organização Europeia para a Astronomia do Hemisfério Sul (ESO), onde funciona o Very Large Telescope (VLT). Próximo encontra-se o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), um conjunto de antenas instalado a mais de 5000 metros de altitude que observa o universo em ondas milimétricas, permitindo estudar a formação de estrelas e galáxias.

O projeto mais ambicioso em curso é o Extremely Large Telescope (ELT), em construção no cimo do Cerro Armazones, a cerca de 23 quilómetros do Paranal. Com um espelho primário segmentado de aproximadamente 39 metros de diâmetro, será o maior telescópio ótico do mundo, capaz de captar cerca de cem milhões de vezes mais luz do que o olho humano. Em 2026, a obra ultrapassou metade da sua execução: a estrutura principal deverá ficar concluída até ao final do ano e a cúpula no início de 2027. A primeira luz do telescópio está agora prevista para março de 2029, com as primeiras observações científicas planeadas para dezembro de 2030, após sucessivos atrasos provocados pelas condições climáticas adversas no local e por dificuldades técnicas no fabrico de equipamento.

Uma reserva mundial de minerais estratégicos

O subsolo do Atacama é tão valioso quanto o seu céu. A região concentra enormes jazidas de cobre, nitratos (o histórico "salitre" que sustentou a economia chilena no início do século XX) e, sobretudo, lítio. O Chile é um dos maiores produtores mundiais destes recursos, e grande parte da extração ocorre precisamente neste deserto.

O Salar de Atacama, uma vasta planície salgada, é uma das principais fontes de lítio do mundo, fornecendo por si só cerca de um quarto da oferta global. O metal é extraído a partir de salmouras bombeadas e evaporadas ao sol, e é essencial para o fabrico das baterias que alimentam telemóveis, computadores portáteis e veículos elétricos. Em 2026, a produção chilena de lítio deverá rondar as 67 300 toneladas, um aumento de quase 5% face ao ano anterior, impulsionado pela expansão das operações no Salar. No mesmo ano consolidou-se uma parceria entre a estatal Codelco e a empresa SQM, através da nova entidade NovaAndino Litio, destinada a gerir a exploração do salar até 2060.

No cobre, o Atacama acolhe a mina de Escondida, operada pela BHP, a maior do mundo em volume de produção. O conjunto faz do Chile o país com as maiores reservas mundiais de cobre, um metal cuja procura tem disparado com a eletrificação global. Esta riqueza mineral é, contudo, fonte de tensão: a extração de lítio por evaporação consome quantidades significativas de água e salmoura numa das regiões mais secas do planeta, levantando preocupações sobre o impacto nos ecossistemas e nas comunidades indígenas atacamenhas.

Ciência, energia e os conflitos de 2026

O valor múltiplo do deserto gera conflitos crescentes entre usos incompatíveis. O mesmo céu escuro que atrai os astrónomos é cobiçado para projetos industriais e energéticos, dada a forte radiação solar e os ventos constantes que tornam o Atacama ideal para a produção de energia renovável.

O caso mais marcante ocorreu em janeiro de 2026, quando uma empresa cancelou um megaprojeto energético que previa instalar centrais solares fotovoltaicas, turbinas eólicas e um porto a poucos quilómetros dos grandes telescópios, para produzir hidrogénio e amoníaco "verdes". A iniciativa foi abandonada após uma forte mobilização internacional de astrónomos, físicos e laureados com o Nobel, que alertaram para o risco de a poluição luminosa comprometer de forma irreversível as observações no Paranal. O episódio ilustra o dilema central do deserto: como conciliar a transição energética, a mineração e a defesa de um património científico único.

Para além disso, o Atacama é também um destino turístico em expansão, conhecido pelos seus salares, géiseres, lagoas de flamingos e pela rara "deserto florido", quando chuvas excecionais fazem brotar tapetes de flores. Para a ciência, continua a ser um laboratório natural, usado nomeadamente pela investigação espacial para testar instrumentos destinados à exploração de Marte.

Perguntas frequentes

Porque é o deserto do Atacama tão seco?

A sua aridez resulta de uma combinação de fatores: a barreira dos Andes que bloqueia a humidade vinda do Atlântico, a corrente fria de Humboldt no Pacífico que inibe a formação de chuva, e a presença de uma zona de alta pressão atmosférica. Algumas áreas passaram anos sem precipitação mensurável.

Porque há tantos telescópios no Atacama?

A altitude elevada, o ar extremamente seco, a estabilidade atmosférica e a baixíssima poluição luminosa proporcionam algumas das melhores condições de observação do mundo, permitindo captar imagens nítidas do universo durante a maior parte do ano.

Que recursos minerais se extraem no Atacama?

Sobretudo cobre, lítio e nitratos. O Salar de Atacama é uma das maiores fontes mundiais de lítio, fundamental para baterias, e a mina de Escondida é a maior do mundo em produção de cobre.

Quando ficará concluído o Extremely Large Telescope?

A primeira luz do telescópio está prevista para março de 2029, com as primeiras observações científicas planeadas para dezembro de 2030, após vários atrasos na construção.

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