O papel do Canadá na Segunda Guerra Mundial
O Canadá entrou na Segunda Guerra Mundial a 10 de setembro de 1939, uma semana depois do Reino Unido, numa declaração de guerra própria e independente que sublinhava o seu estatuto de domínio soberano dentro da Commonwealth. O que começou como um país com um exército reduzido a poucos milhares de homens transformou-se, ao longo de seis anos, numa das potências aliadas com maior contributo per capita em homens, recursos e produção industrial. Mais de um milhão de canadianos serviram nas forças armadas, num país que em 1939 tinha pouco mais de 11 milhões de habitantes, e mais de 45 mil perderam a vida no conflito.
Da neutralidade relutante ao esforço de guerra total
Ao contrário da Primeira Guerra Mundial, em que o Canadá foi automaticamente arrastado para o conflito pela declaração britânica, em 1939 o Parlamento canadiano votou separadamente a entrada na guerra, um gesto simbólico importante para a afirmação da soberania nacional consagrada pelo Estatuto de Westminster de 1931. O primeiro-ministro William Lyon Mackenzie King liderou um esforço de mobilização que reconverteu rapidamente a economia: fábricas de automóveis passaram a produzir tanques e aviões, e o país tornou-se um dos principais fornecedores de munições, alimentos e equipamento militar para o Reino Unido e os restantes Aliados.
A Batalha do Atlântico
Um dos contributos mais decisivos do Canadá foi naval. A Marinha Real Canadiana, que em 1939 contava apenas com cerca de uma dezena de navios, cresceu para mais de 400 embarcações e cerca de 95 mil efetivos até ao final da guerra, tornando-se a terceira maior marinha aliada. A sua missão central foi escoltar os comboios mercantes que atravessavam o Atlântico Norte, garantindo o abastecimento essencial à Grã-Bretanha face aos ataques constantes dos submarinos alemães (U-Boote). Esta campanha, conhecida como Batalha do Atlântico, foi a mais longa da guerra e teve em Halifax e St. John's pontos de partida fundamentais para os comboios.
O Plano de Treino Aéreo da Commonwealth Britânica
A vastidão do território canadiano e a sua distância das zonas de combate tornaram o país no local ideal para treinar pilotos aliados. O Plano de Treino Aéreo da Commonwealth Britânica, sediado no Canadá, formou mais de 130 mil aviadores do Reino Unido, da Austrália, da Nova Zelândia e do próprio Canadá, com um custo superior a mil e meio de milhões de dólares da época, suportado em grande parte pelo governo canadiano. A Real Força Aérea Canadiana (RCAF) tornou-se a quarta maior força aérea aliada, participando ativamente nos bombardeamentos sobre a Alemanha e na defesa do espaço aéreo europeu.
Dieppe: uma lição amarga
Em agosto de 1942, cerca de cinco mil soldados canadianos participaram no ataque anfíbio a Dieppe, na costa francesa, um dos episódios mais dolorosos da participação canadiana na guerra. A operação terminou em desastre: mais de 900 canadianos morreram e cerca de 1.900 foram feitos prisioneiros, num único dia. Apesar do elevado custo humano, as lições retiradas de Dieppe sobre logística, comunicações e apoio aéreo influenciaram diretamente o planeamento do desembarque na Normandia, dois anos depois.
O Dia D e a Batalha da Normandia
O momento mais conhecido da participação canadiana na guerra ocorreu a 6 de junho de 1944, quando cerca de 14 a 15 mil soldados canadianos desembarcaram em Juno Beach, um dos cinco setores do desembarque da Normandia, ao lado das forças britânicas e norte-americanas. As tropas canadianas avançaram nesse dia mais para o interior do território francês do que qualquer outra divisão aliada. O preço foi elevado: no próprio dia 6 de junho registaram-se cerca de 1.096 baixas canadianas, das quais 381 mortos. Ao longo de toda a campanha da Normandia, que se prolongou até finais de agosto de 1944, as forças canadianas sofreram mais de 18 mil baixas, com cerca de 5.000 mortos, registando proporcionalmente as perdas mais elevadas de entre as divisões do grupo de exércitos britânico.
Itália e a libertação dos Países Baixos
Além da frente ocidental europeia, tropas canadianas combateram também na campanha de Itália a partir de 1943, incluindo nas difíceis batalhas em torno de Ortona. Mas é sobretudo na libertação dos Países Baixos, entre 1944 e 1945, que o papel canadiano deixou uma marca duradoura: mais de 7 mil soldados canadianos morreram nessa campanha, e o povo neerlandês mantém até hoje gestos anuais de gratidão, como o envio de tulipas para Otava, em memória do contributo canadiano para o fim da ocupação nazi.
A frente interna: economia, mulheres e internamento de nipo-canadianos
A guerra transformou profundamente a sociedade canadiana. A indústria foi reorientada para a produção bélica em larga escala, e milhares de mulheres entraram pela primeira vez no mercado de trabalho industrial e nas próprias forças armadas, através de corpos auxiliares do Exército, da Marinha e da Força Aérea. Este episódio convive, porém, com uma das páginas mais sombrias da história canadiana do período: a partir de 1942, cerca de 22 mil canadianos de origem japonesa foram forçados a abandonar as suas casas na costa oeste e internados em campos no interior do país, numa política racial que só seria oficialmente reconhecida e indemnizada décadas mais tarde, em 1988.
Custo humano e legado
No total, mais de um milhão de canadianos e canadianas serviram nas forças armadas durante a Segunda Guerra Mundial, num esforço extraordinário para um país da sua dimensão demográfica. Mais de 45 mil morreram e dezenas de milhares ficaram feridos. O conflito consolidou o Canadá como ator relevante na cena internacional: o país foi membro fundador das Nações Unidas em 1945 e, nas décadas seguintes, construiu uma reputação ligada à diplomacia, à mediação de conflitos e às missões de manutenção de paz, um legado que muitos historiadores fazem remontar diretamente ao papel desempenhado entre 1939 e 1945.
Perguntas frequentes
Quando entrou o Canadá na Segunda Guerra Mundial?
O Canadá declarou guerra à Alemanha a 10 de setembro de 1939, uma semana após o Reino Unido, numa decisão tomada de forma independente pelo Parlamento canadiano.
Quantos canadianos morreram na Segunda Guerra Mundial?
Mais de 45 mil canadianos perderam a vida durante o conflito, de um total superior a um milhão que serviram nas forças armadas.
Qual foi o papel do Canadá no Dia D?
Cerca de 14 a 15 mil soldados canadianos desembarcaram em Juno Beach a 6 de junho de 1944, avançando mais para o interior de território francês do que qualquer outra divisão aliada nesse dia.
O que foi o Plano de Treino Aéreo da Commonwealth Britânica?
Foi um programa sediado no Canadá que treinou mais de 130 mil aviadores aliados do Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Canadá, tornando a Real Força Aérea Canadiana na quarta maior força aérea aliada.
O que aconteceu aos canadianos de origem japonesa durante a guerra?
A partir de 1942, cerca de 22 mil nipo-canadianos foram forçados a deixar as suas casas na costa oeste e internados em campos, uma política que o governo canadiano reconheceu e indemnizou oficialmente em 1988.