Mehmed II: o sultão que conquistou Constantinopla
Mehmed II (1432-1481), conhecido em turco como Fatih Sultan Mehmed («o Conquistador»), foi um dos sultões mais influentes do Império Otomano e uma figura central na transição da Idade Média para a Idade Moderna. O seu nome ficou para sempre associado à conquista de Constantinopla em 1453, acontecimento que pôs fim ao milenar Império Bizantino e transformou a cidade na capital de um império que se estenderia por três continentes. Mais do que um conquistador militar, Mehmed II foi um governante culto, reformador administrativo e mecenas das artes que moldou a identidade otomana durante as gerações seguintes.
Quem foi Mehmed II
Mehmed nasceu a 30 de março de 1432 em Edirne, então capital otomana, filho do sultão Murad II e de Hüma Hatun. Subiu ao trono pela primeira vez ainda criança, com apenas doze anos, quando o pai abdicou em 1444. Esse primeiro reinado foi breve e turbulento: perante a ameaça de uma cruzada europeia e a inexperiência do jovem soberano, Murad II regressou ao poder em 1446. Mehmed só assumiria o trono em definitivo em fevereiro de 1451, após a morte do pai, e governaria de forma ininterrupta até 1481.
Desde cedo recebeu uma educação cuidada. Falava várias línguas — além do turco, conhecia o árabe, o persa, o grego e, segundo as fontes, noções de latim e de línguas eslavas. Interessava-se por história clássica, geografia, matemática e literatura, e admirava figuras como Alexandre, o Grande, e Júlio César, cujas conquistas procurou emular. Esta combinação de ambição militar com curiosidade intelectual definiria todo o seu reinado.
A conquista de Constantinopla (1453)
O objetivo que consagrou Mehmed II foi a tomada de Constantinopla, capital do Império Bizantino e cobiçada pelos otomanos havia décadas. O pai chegara a cercá-la sem êxito em 1422. Logo após assumir o poder, o jovem sultão, então com 21 anos, preparou meticulosamente a campanha.
Em 1452 assegurou tratados de paz com a Hungria e Veneza para neutralizar possíveis aliados dos bizantinos e mandou erguer a fortaleza de Rumeli Hisarı, no ponto mais estreito do Bósforo, para controlar a navegação e impedir a chegada de reforços pelo mar Negro. Reuniu depois um exército avultado, estimado entre 60 000 e 80 000 homens, contra uma guarnição defensora de apenas sete a oito mil combatentes, comandados pelo imperador Constantino XI Paleólogo e pelo experiente genovês Giovanni Giustiniani Longo.
A artilharia e a passagem das muralhas
O cerco, iniciado em abril de 1453, demonstrou a importância da tecnologia militar. Mehmed II contratou o engenheiro húngaro Orban, que fundiu canhões de dimensões inéditas, entre os quais uma bombarda colossal capaz de disparar projéteis de pedra de várias centenas de quilos. Estas peças martelaram sem trégua as famosas muralhas teodosianas, que durante mil anos tinham resistido a inúmeros agressores.
Outro lance decisivo foi de natureza logística. Bloqueado pela corrente que protegia a entrada do Corno de Ouro, o porto natural da cidade, o sultão ordenou que dezenas de navios fossem transportados por terra, sobre rampas de madeira untadas, contornando o obstáculo e entrando no porto pela retaguarda. A manobra completou o cerco e abalou o moral dos defensores.
A 29 de maio de 1453, após semanas de assédio, as tropas otomanas romperam as defesas. Constantino XI morreu em combate e a cidade caiu. Mehmed entrou em Constantinopla, converteu a basílica de Santa Sofia em mesquita e fez da urbe a nova capital imperial, que viria a ser conhecida como Istambul. A queda da cidade é frequentemente apontada como um dos marcos simbólicos do fim da Idade Média.
As outras conquistas de Mehmed II
A tomada de Constantinopla foi apenas o início de quase três décadas de expansão. Ao longo de mais de duas dezenas de campanhas militares, Mehmed II consolidou e alargou consideravelmente as fronteiras otomanas, tanto nos Balcãs como na Anatólia.
- Sérvia (1454-1455): submeteu grande parte do território sérvio, embora a fortaleza de Belgrado lhe tenha resistido em 1456.
- Peloponeso (1458-1460): anexou o despotado bizantino da Moreia, no sul da Grécia.
- Trebizonda (1461): conquistou o último reduto grego independente, o Império de Trebizonda, no litoral do mar Negro, bem como as colónias genovesas de Sinope e Kafa, iniciando o processo que levaria os tártaros da Crimeia a aceitar a suserania otomana.
- Valáquia: enfrentou Vlad III, o Empalador, em campanhas que se tornaram lendárias pela sua dureza.
- Bósnia (1463): incorporou o reino bósnio, alargando o domínio otomano no Sudeste europeu.
- Albânia: travou uma longa luta contra Jorge Castriota, conhecido como Escanderbegue, que só foi superada após a morte deste.
- Negroponte (1470): arrebatou a Veneza a estratégica ilha de Eubeia, no contexto de uma longa guerra com a República de Veneza.
Já no final do reinado, em 1480, uma força otomana sob o comando de Gedik Ahmed Pacha desembarcou no sul de Itália e tomou a cidade de Otranto, episódio que provocou enorme alarme na Europa cristã e chegou a ameaçar Roma. A morte do sultão, porém, interrompeu a ofensiva: a guarnição otomana acabou por se retirar e Otranto foi recuperada pelas forças cristãs em 1481. No mesmo período, o cerco a Rodes, defendida pelos Cavaleiros Hospitalários, fracassou.
Reformas, cultura e legado
Mehmed II não foi apenas um estratega. Reorganizou a administração do império, codificou leis no chamado kanun (legislação secular complementar à lei islâmica) e estruturou o aparelho de Estado em moldes que perdurariam séculos. Repovoou Istambul, atraindo populações de várias origens e religiões, e instituiu um sistema de relativa tolerância que permitia a coexistência de comunidades muçulmanas, cristãs e judaicas, cada uma com autonomia interna.
Como mecenas, reuniu na corte sábios, poetas e artistas de Oriente e Ocidente. Encomendou ao pintor veneziano Gentile Bellini o seu célebre retrato, hoje em Londres, num gesto de abertura ao Renascimento italiano invulgar para um soberano muçulmano da época. Fundou madraças, bibliotecas e o grande complexo da mesquita Fatih, em Istambul.
Quando morreu, a 3 de maio de 1481, perto de Gebze, Mehmed II deixava um Estado transformado num verdadeiro império que se estendia por três continentes e controlava rotas marítimas e terrestres vitais. O título de «Conquistador» resumia uma vida dedicada à expansão, mas o seu verdadeiro legado reside na fundação das estruturas políticas, culturais e simbólicas que fariam dos otomanos uma das maiores potências mundiais durante os séculos seguintes.
Perguntas frequentes
Em que ano Mehmed II conquistou Constantinopla?
Mehmed II conquistou Constantinopla a 29 de maio de 1453, pondo fim ao Império Bizantino. Tinha então 21 anos e a vitória valeu-lhe o cognome de «o Conquistador» (Fatih).
Porque é que Mehmed II é chamado «o Conquistador»?
O epíteto «Fatih», que significa «o Conquistador», resulta sobretudo da tomada de Constantinopla, mas também das mais de duas dezenas de campanhas que conduziu, anexando a Sérvia, a Bósnia, o Peloponeso, Trebizonda e outros territórios nos Balcãs e na Anatólia.
Quais foram as principais conquistas de Mehmed II além de Constantinopla?
Entre as suas conquistas contam-se a Sérvia (1454-1455), o Peloponeso (1458-1460), o Império de Trebizonda (1461), a Bósnia (1463) e a ilha de Negroponte (1470). Em 1480 chegou a tomar Otranto, no sul de Itália, posição que os otomanos perderiam após a sua morte.
Que tecnologia militar foi decisiva na queda de Constantinopla?
Foram determinantes os enormes canhões fundidos pelo engenheiro húngaro Orban, capazes de disparar projéteis de pedra de centenas de quilos contra as muralhas, e a ousada manobra de transportar navios por terra para dentro do Corno de Ouro.
Quando morreu Mehmed II?
Mehmed II morreu a 3 de maio de 1481, perto de Gebze, durante os preparativos de uma nova campanha. Deixou um império consolidado que se estendia por três continentes.