Quem descobriu a radioatividade: Becquerel ou Marie Curie?
A descoberta da radioatividade é frequentemente atribuída a Marie Curie no imaginário popular, e não é difícil perceber porquê: a cientista polaco-francesa tornou-se um símbolo incontornável da ciência do século XX, foi a primeira pessoa a receber dois Prémios Nobel e dedicou a vida inteira ao estudo dos fenómenos radioativos. No entanto, do ponto de vista histórico e científico, a descoberta da radioatividade pertence a outro nome: o do físico francês Antoine Henri Becquerel, que em 1896 observou pela primeira vez que certos materiais emitiam radiação espontânea sem qualquer fonte de energia externa. O contributo de Marie Curie foi extraordinário — mas veio depois, e foi de natureza distinta.
O contexto: os raios X e a febre das radiações
Para compreender como se chegou à descoberta da radioatividade, é necessário recuar a novembro de 1895, quando o físico alemão Wilhelm Röntgen anunciou a existência dos raios X. A notícia abalou a comunidade científica europeia e desencadeou uma corrida para perceber se outros materiais podiam emitir radiações semelhantes. Em janeiro de 1896, Henri Becquerel assistiu a uma sessão da Academia Francesa de Ciências onde os raios X foram apresentados e ficou imediatamente intrigado com uma hipótese: os sais de urânio que estudava — materiais fosforescentes que a família Becquerel investigava há décadas — poderiam absorver luz solar e reemitir energia sob a forma de raios X?
Esta hipótese era errada, mas foi ela que conduziu à descoberta certa.
A descoberta acidental de Becquerel em 1896
Becquerel concebeu uma experiência simples: embrulhou chapas fotográficas em papel negro — para bloquear a luz visível — colocou cristais de sulfato de uranilo sobre elas e expôs o conjunto ao sol, esperando que a fosforescência induzida pelo sol impressionasse as chapas através da emissão de raios X. Nos primeiros ensaios, em fevereiro de 1896, obteve imagens nítidas dos cristais e ficou convicto de que a hipótese estava a ser confirmada.
Contudo, Paris não colaborou: o tempo ficou encoberto durante vários dias. Becquerel guardou todo o material numa gaveta, à espera de sol. Quando, por impulso — ou por impaciência — decidiu revelar as chapas assim mesmo, deparou-se com algo que não esperava: as imagens estavam igualmente nítidas, como se as chapas tivessem sido expostas ao sol durante horas. Os cristais de urânio tinham impressionado as chapas sem qualquer exposição à luz. Era 1 de março de 1896.
Becquerel percebeu que estava perante um fenómeno completamente novo: a emissão espontânea de radiação pelo urânio, independente de qualquer excitação externa. Nos meses seguintes, comprovou que a radiação era uma propriedade intrínseca do urânio, não da fosforescência. Tinha descoberto a radioatividade — embora ainda não a designasse por esse nome.
O papel central de Marie Curie
Foi precisamente aqui que Marie Curie entrou em cena, e a sua contribuição foi muito além de confirmar o que Becquerel observara. Em 1897, a então jovem investigadora escolheu as «radiações de Becquerel» como tema da sua tese de doutoramento — uma escolha ousada, num campo praticamente virgem. Trabalhando no laboratório do marido Pierre Curie, desenvolveu métodos quantitativos rigorosos para medir a intensidade da radiação emitida, usando um electrómetro de precisão que permitia comparar diferentes amostras com exatidão sem precedentes.
Foi Marie Curie quem cunhou o termo radioatividade — palavra que utilizou pela primeira vez num artigo publicado em julho de 1898 — para descrever a propriedade dos átomos de emitirem radiação de forma espontânea. Antes dela, o fenómeno não tinha nome próprio.
Mas o contributo mais revolucionário foi outro: ao estudar a pecheblenda (um minério de urânio), Marie Curie verificou que a intensidade radioativa desta rocha era muito superior à que o urânio sozinho poderia explicar. Concluiu, com grande ousadia intelectual, que deviam existir no minério outros elementos ainda desconhecidos, mais radioativos do que o urânio. Em julho de 1898, os Curie anunciaram a descoberta do polônio (batizado em honra da Polónia natal de Marie) e, em dezembro do mesmo ano, apresentaram à Academia Francesa de Ciências a descoberta do rádio, um elemento com uma radioatividade extraordinariamente intensa.
Por que se confunde Marie Curie com a descobridora da radioatividade?
A confusão tem raízes compreensíveis. Em primeiro lugar, Marie Curie é vastamente mais conhecida do que Becquerel — tornou-se ícone cultural, símbolo do talento feminino numa época em que as mulheres eram sistematicamente excluídas da ciência académica. Em segundo lugar, o seu trabalho foi incomparavelmente mais profundo e prolongado: enquanto Becquerel fez uma observação fundamental mas não a desenvolveu muito além, Marie Curie passou décadas a dissecar o fenómeno, a nomear novos elementos e a construir a base teórica e experimental da física nuclear moderna.
Há também um fator prático: foi Marie Curie quem criou a palavra «radioatividade». Quem dá nome a um fenómeno tende a ficar associado a ele na memória coletiva.
Além disso, a visibilidade dos prémios contribuiu para a confusão. Em 1903, o Prémio Nobel da Física foi atribuído conjuntamente a Becquerel (por metade) e a Pierre e Marie Curie (pela outra metade), pela descoberta e pelo estudo da radioatividade, respetivamente. Em 1911, Marie Curie recebeu ainda o Prémio Nobel da Química, desta vez sozinha, pelo isolamento do rádio e do polônio — tornando-se a única pessoa, até hoje, a receber dois Nobéis em duas disciplinas científicas diferentes. A presença de Becquerel nesse palco ficou inevitavelmente ofuscada.
O que diz o consenso científico atual
Em 2026, o consenso histórico e científico é inequívoco: a descoberta da radioatividade é atribuída a Henri Becquerel, que em 1896 observou pela primeira vez a emissão espontânea de radiação por parte de sais de urânio. A este reconhecimento corresponde metade do Nobel de 1903. Marie Curie não descobriu a radioatividade — descobriu muito mais do que isso: nomeou o fenómeno, identificou os seus mecanismos, descobriu dois novos elementos e transformou uma curiosidade experimental numa área científica autónoma e transformadora.
A distinção é importante não para diminuir nenhum dos dois, mas para compreender como a ciência avança: por vezes, quem observa primeiro não é quem compreende mais fundo, e o mérito de uma descoberta raramente pertence a uma única pessoa ou a um único momento.
Perguntas frequentes
Quem descobriu a radioatividade?
A radioatividade foi descoberta pelo físico francês Henri Becquerel em 1896, quando observou que sais de urânio emitiam radiação espontânea mesmo sem estarem expostos à luz solar. Pela descoberta, Becquerel partilhou o Prémio Nobel da Física de 1903 com Pierre e Marie Curie.
Qual foi o contributo de Marie Curie para a radioatividade?
Marie Curie cunhou o próprio termo «radioatividade» em 1898, desenvolveu métodos rigorosos para medir a intensidade das emissões e, juntamente com o marido Pierre Curie, descobriu dois novos elementos radioativos: o polônio e o rádio. O seu trabalho transformou a radioatividade numa disciplina científica autónoma.
Por que é que Marie Curie é muitas vezes considerada a descobridora da radioatividade?
Porque o seu trabalho sobre o tema foi muito mais extenso, profundo e mediático do que o de Becquerel, e porque foi ela quem criou o termo «radioatividade». A sua fama — reforçada por dois Prémios Nobel — ofuscou historicamente o papel pioneiro de Becquerel no imaginário popular.
Como foi a descoberta da radioatividade por Becquerel?
Foi em grande parte acidental. Becquerel pretendia testar se sais de urânio expostos ao sol emitiam raios X. Como o céu esteve encoberto durante dias, guardou o material numa gaveta e, ao revelar as chapas fotográficas de qualquer forma, constatou que estavam igualmente impressionadas — prova de que o urânio emitia radiação espontaneamente, sem qualquer excitação externa.
Quantos Prémios Nobel recebeu Marie Curie?
Marie Curie recebeu dois Prémios Nobel: o de Física em 1903 (partilhado com Pierre Curie e Henri Becquerel) pelo estudo da radioatividade, e o de Química em 1911 (a título individual) pelo isolamento do rádio e do polônio. É a única pessoa da história a ter sido laureada em duas áreas científicas distintas.