Quem descobriu que a Terra é redonda e quando aconteceu
A ideia de que a Terra não é plana, mas esférica, não surgiu de um único momento de revelação nem de uma única pessoa. Trata-se de uma conquista intelectual acumulada ao longo de séculos, protagonizada sobretudo por filósofos e matemáticos da Grécia Antiga, entre o século VI e o século III a.C. Antes deles, as grandes civilizações do Médio Oriente representavam o mundo como um disco plano flutuando sobre as águas primordiais. Foram os gregos quem primeiro formulou, debateu e depois demonstrou — com rigor geométrico — que a Terra tem forma esférica.
O que acreditavam as civilizações antigas
As civilizações da Mesopotâmia e do Egito Antigo descreviam a Terra como um disco plano rodeado por oceanos, com o céu a repousar sobre quatro pilares ou montanhas nos seus extremos. Uma tábua de argila iraquiana datada de cerca de 1000 a.C. representa Babilónia no centro de um disco circular, confirmando esta visão cosmológica. O mesmo modelo era partilhado pelos egípcios, para quem o universo era organizado em três camadas: o céu, a terra plana e o submundo.
Mesmo entre os primeiros pensadores gregos, a Terra plana era a norma. Os poetas Homero e Hesíodo descreveram um mundo plano. O filósofo Tales de Mileto, considerado um dos pais do pensamento racional ocidental, e Demócrito, fundador da teoria atómica, mantiveram igualmente a crença numa Terra plana.
Pitágoras: a primeira proposta de uma Terra esférica (século VI a.C.)
O primeiro pensador a propor que a Terra seria esférica foi Pitágoras de Samos (c. 570–495 a.C.), matemático e filósofo grego. A sua argumentação, contudo, baseava-se principalmente em razões estéticas e filosóficas: para os pitagóricos, a esfera era a forma geométrica mais perfeita e, por isso, a mais adequada para descrever o mundo. Não havia ainda prova empírica — era, em linguagem moderna, uma hipótese filosófica.
Também Parménides de Eleia (c. 515–450 a.C.) defendeu a esfericidade da Terra no século V a.C., embora igualmente sem demonstração observacional rigorosa. Ainda assim, estas ideias foram ganhando terreno no pensamento grego.
Aristóteles: as primeiras provas físicas (330 a.C.)
O passo decisivo para a aceitação científica da Terra esférica foi dado por Aristóteles (384–322 a.C.), que pela primeira vez reuniu argumentos empíricos e observacionais para sustentar a teoria. Na sua obra Do Céu (De Caelo), escrita por volta de 330 a.C., Aristóteles apresentou três tipos de evidências:
- Os eclipses lunares: durante um eclipse, a sombra que a Terra projeta na Lua é sempre circular, independentemente do ângulo de observação. Apenas uma esfera projeta sempre uma sombra circular.
- A variação do céu estrelado: viajando para sul, surgem constelações que não são visíveis mais a norte, e vice-versa. Numa Terra plana, todos veriam o mesmo céu.
- O horizonte dos navios: os barcos que se afastam no mar desaparecem primeiro pelo casco e só depois pelo mastro, o que só é possível se a superfície da Terra for curva.
Aristóteles não calculou as dimensões da Terra, mas a sua argumentação lógica e baseada na observação foi determinante para que a esfericidade deixasse de ser apenas uma proposta filosófica e passasse a ser uma tese com fundamento racional sólido.
Eratóstenes: a medição da circunferência (c. 240 a.C.)
O contributo mais espetacular da Antiguidade pertence a Eratóstenes de Cirene (c. 276–194 a.C.), matemático, geógrafo e bibliotecário da famosa Biblioteca de Alexandria. Não se contentou em afirmar que a Terra era redonda: calculou a sua circunferência com uma precisão notável, usando apenas um pau, a geometria e o sol.
Por volta de 240 a.C., Eratóstenes soube, pela leitura de documentos na Biblioteca de Alexandria, que na cidade de Siena (atual Aswão, no Egito), no dia do solstício de verão ao meio-dia, os raios do sol iluminavam o fundo dos poços verticalmente — ou seja, o sol estava diretamente no zénite. Na mesma data e hora, em Alexandria, uma vara vertical projetava uma sombra. Eratóstenes mediu o ângulo dessa sombra e concluiu que era de aproximadamente 7,2 graus — ou seja, 1/50 de um círculo completo (360 graus).
Partindo do princípio de que os raios do sol chegam à Terra em paralelo, deduziu que a diferença angular entre as duas cidades correspondia exatamente a 1/50 da circunferência total da Terra. Conhecendo a distância entre Alexandria e Siena — estimada em cerca de 5 000 estádios (aproximadamente 800 km) —, multiplicou esse valor por 50 e obteve uma circunferência de cerca de 250 000 estádios, equivalente a aproximadamente 39 375 km.
O valor atual da circunferência terrestre medida ao longo do equador é de 40 075 km. O erro de Eratóstenes foi inferior a 2%, o que é extraordinário para uma medição realizada sem instrumentação moderna, há mais de 2 200 anos.
O legado na Idade Média e os equívocos históricos
Contrariamente a um mito difundido, os sábios medievais europeus não acreditavam que a Terra era plana. A esfericidade da Terra era ensinada nas universidades medievais e era conhecida pelos eruditos da época. A ideia de que Cristóvão Colombo "provou" que a Terra era redonda ao atravessar o Atlântico em 1492 é historicamente incorreta: o debate em torno da sua viagem não incidia sobre a forma da Terra, mas sim sobre a sua dimensão e sobre a distância à Ásia navegando para oeste.
O mito do medievalismo "terraplanista" foi popularizado no século XIX, sobretudo através de obras de divulgação histórica que caricaturaram o pensamento da época. Os próprios escribas e teólogos medievais citavam Aristóteles e Eratóstenes com familiaridade.
Perguntas frequentes
Quem foi o primeiro a dizer que a Terra é redonda?
O filósofo grego Pitágoras de Samos, no século VI a.C. (c. 570–495 a.C.), foi o primeiro pensador conhecido a propor que a Terra teria forma esférica. A sua proposta baseava-se em razões filosóficas e estéticas, sem demonstração observacional.
Quem foi o primeiro a provar com evidências que a Terra é esférica?
Aristóteles, por volta de 330 a.C., foi o primeiro a reunir provas físicas e observacionais da esfericidade da Terra: a sombra circular nos eclipses lunares, a variação das constelações conforme a latitude e o desaparecimento progressivo dos navios no horizonte.
Como é que Eratóstenes calculou a circunferência da Terra?
Eratóstenes comparou o ângulo da sombra de uma vara em Alexandria com a ausência de sombra em Siena no mesmo momento do solstício de verão. O ângulo medido (7,2 graus) correspondia a 1/50 de um círculo. Multiplicando a distância entre as duas cidades por 50, obteve a circunferência total da Terra — com um erro inferior a 2% em relação ao valor real.
Os povos medievais acreditavam que a Terra era plana?
Não. Trata-se de um mito histórico popularizado no século XIX. Os eruditos medievais europeus conheciam e ensinavam a esfericidade da Terra, baseando-se nas obras de Aristóteles e outros autores clássicos. O debate em torno de Colombo não era sobre a forma da Terra, mas sobre as suas dimensões.
Qual é a diferença entre dizer que a Terra é "redonda" e "esférica"?
Em sentido rigoroso, a Terra não é uma esfera perfeita, mas um esferóide oblato: ligeiramente achatada nos polos e mais larga no equador. No entanto, para fins históricos e de comunicação geral, os termos "redonda" e "esférica" são usados de forma equivalente para distinguir este modelo do modelo de Terra plana.