Islamabad: a capital do Paquistão e as suas razões históricas
A capital do Paquistão é Islamabad, uma cidade planeada e construída de raiz na década de 1960, situada ao norte do país, nas imediações da Cordilheira Margalla. A sua escolha como sede do governo não foi imediata: durante os primeiros anos de existência do Paquistão enquanto Estado independente, foi a cidade de Carachi que desempenhou esse papel. A transferência da capital para Islamabad resultou de um conjunto de razões estratégicas, políticas, geográficas e urbanas que marcaram profundamente a história do país.
Carachi como primeira capital
Quando o Paquistão proclamou a independência a 14 de agosto de 1947, separando-se da antiga Índia Britânica, Carachi foi designada capital provisória do novo Estado. A escolha foi pragmática: Carachi era já o maior centro comercial e portuário do país, dispunha de infraestruturas administrativas herdadas da era colonial e concentrava uma parte significativa das elites políticas e económicas da nascente nação.
Contudo, desde cedo se levantaram dúvidas sobre a adequação de Carachi a capital permanente. A cidade crescia de forma descontrolada, os interesses comerciais entrosavam-se com os governativos de forma problemática, e a sua localização na costa sul do país, junto ao Mar da Arábia, era considerada estrategicamente vulnerável, em particular num contexto de Guerra Fria e de tensão regional com a Índia.
A decisão de construir uma nova capital
Em 1958, o general Muhammad Ayub Khan ascendeu ao poder através de um golpe de Estado e assumiu a presidência do Paquistão. Foi sob o seu governo que a questão da capital foi definitivamente resolvida. Em 1959, Ayub Khan constituiu uma comissão de alto nível encarregada de avaliar a adequação de Carachi e de recomendar uma alternativa caso a cidade fosse considerada inapropriada. A comissão concluiu que era necessária uma nova capital e recomendou a região a nordeste de Rawalpindi, no norte do país.
A 24 de fevereiro de 1960, o governo atribuiu oficialmente o nome Islamabad à futura capital — um topónimo que combina Islam com o sufixo persa -abad, significando aproximadamente "lugar do islão" ou "cidade do islão". Em junho do mesmo ano foi criada a Capital Development Authority (CDA), organismo responsável pelo planeamento e construção da nova cidade. As obras tiveram início em outubro de 1961.
O arquiteto da cidade: Doxiadis e o plano urbanístico
O governo paquistanês encarregou o arquiteto e urbanista grego Constantinos Apostolou Doxiadis de conceber o plano geral de Islamabad. Doxiadis aplicou os princípios da ekística, ciência por ele desenvolvida que estuda os assentamentos humanos. Dividiu a cidade em oito zonas funcionais — administrativa, diplomática, residencial, educativa, industrial, comercial, rural e verde —, criando uma malha urbana regular, com largos corredores viários, parques e espaços abertos generosos.
O conjunto arquitetónico resultante é marcado por edifícios modernistas de grande escala, com destaque para a Mesquita de Faisal, inaugurada em 1986, que é um dos maiores templos islâmicos do mundo e um símbolo icónico da cidade. A Mesquita Nacional do Paquistão distingue-se pelo seu design contemporâneo inspirado nas tendas beduínas, obra do arquiteto turco Vedat Dalokay.
As razões históricas da transferência
A mudança de capital de Carachi para Islamabad não teve uma causa única, mas decorreu da convergência de vários fatores:
- Vulnerabilidade estratégica de Carachi: a localização costeira de Carachi tornava-a suscetível a ataques navais e a intervenção estrangeira. Numa época de grande instabilidade regional, uma capital no interior, protegida por cadeias montanhosas, era considerada mais segura e defensável.
- Centralidade geográfica: Islamabad situa-se numa posição mais central em relação ao conjunto do território paquistanês, facilitando o acesso às diferentes províncias do país, nomeadamente às regiões setentrionais e ao Punjab, à época a província mais populosa.
- Independência face aos interesses comerciais: Carachi era um polo financeiro e empresarial de grande peso, o que tornava difícil a governação autónoma. A pressão dos grupos económicos sobre as instituições do Estado era considerada excessiva e incompatível com uma administração eficaz.
- Clima e qualidade de vida: o clima de Carachi, quente e húmido, foi igualmente apontado como menos favorável à instalação dos órgãos de soberania, em comparação com o clima mais ameno e temperado da região de Islamabad, a uma altitude superior.
- Simbolismo político: a construção de uma capital de raiz, moderna e planeada, respondia ao desejo do regime de Ayub Khan de projetar uma imagem de progresso, de modernidade e de ruptura com a herança colonial, apresentando ao mundo um Paquistão renovado.
Rawalpindi como capital interina
Durante o período de construção de Islamabad, a cidade vizinha de Rawalpindi funcionou como capital interina do Paquistão, acolhendo temporariamente as funções de governo. Esta situação vigorou durante a primeira metade da década de 1960, até que as infraestruturas essenciais de Islamabad estiveram concluídas. A capital foi formalmente transferida para Islamabad em 1967.
Rawalpindi e Islamabad formam hoje uma área metropolitana contígua conhecida como a twin cities ("cidades gémeas"), funcionalmente interdependentes: Rawalpindi concentra o comércio e a indústria, enquanto Islamabad alberga as instituições governamentais, as embaixadas e os organismos internacionais.
Islamabad em 2026
Em 2026, Islamabad continua a ser a capital federal do Paquistão e sede dos três poderes do Estado — executivo, legislativo e judicial. A cidade tem uma população estimada em cerca de 1,2 milhões de habitantes no núcleo urbano, embora a área metropolitana alargada ultrapasse os 3 milhões. Apesar de não ser a maior cidade do país — esse título pertence a Carachi, com mais de 14 milhões de habitantes —, Islamabad mantém o estatuto de centro nevrálgico da vida política paquistanesa.
A cidade é administrada pelo Islamabad Capital Territory (ICT), um território federal sob tutela direta do governo central, à semelhança de outras capitais federais como Washington D.C. ou Brasília. A CDA continua a gerir o planeamento urbano e o desenvolvimento da cidade, que tem crescido significativamente para além dos limites originalmente traçados por Doxiadis.
Perguntas frequentes
Qual é a capital do Paquistão?
A capital do Paquistão é Islamabad, uma cidade planeada construída na década de 1960 nas proximidades da Cordilheira Margalla, no norte do país. Assumiu oficialmente este estatuto em 1967, substituindo Carachi.
Porque é que a capital do Paquistão foi transferida de Carachi para Islamabad?
A transferência deveu-se a um conjunto de razões: a vulnerabilidade estratégica de Carachi por ser uma cidade costeira, a sua posição geográfica excêntrica relativamente ao território nacional, a interferência dos interesses comerciais na governação e a intenção de criar uma capital moderna que simbolizasse o desenvolvimento do país.
Quem decidiu construir Islamabad?
A decisão foi tomada pelo presidente Muhammad Ayub Khan, que em 1959 nomeou uma comissão para avaliar alternativas a Carachi. O plano urbanístico foi elaborado pelo arquiteto grego Constantinos Apostolou Doxiadis.
Quando se tornou Islamabad a capital oficial do Paquistão?
Islamabad foi oficialmente designada capital do Paquistão em 1967, após vários anos de construção. Durante o período de transição, entre o início dos anos 1960 e 1967, Rawalpindi serviu como capital interina.
Islamabad é a maior cidade do Paquistão?
Não. Islamabad é a capital política e administrativa, mas não a maior cidade do país. Carachi, no sul, continua a ser a maior metrópole paquistanesa, com mais de 14 milhões de habitantes, e o principal centro económico e portuário.