Cuba: história resumida, das origens à crise de 2026
Cuba, a maior ilha das Caraíbas, tem uma história marcada por colonização, escravatura, lutas de independência, revolução e décadas de confronto com os Estados Unidos. Do domínio espanhol ao regime socialista liderado por Fidel Castro e, hoje, por Miguel Díaz-Canel, o país atravessa em 2026 uma das crises económicas e energéticas mais graves da sua história recente, agravada pela queda do fornecimento de petróleo venezuelano e pelo reforço das sanções norte-americanas.
As origens: povos indígenas e colonização espanhola
Antes da chegada dos europeus, Cuba era habitada por povos indígenas como os taínos e os siboneis, dedicados à agricultura, à pesca e à cerâmica. Em 1492, Cristóvão Colombo chegou à ilha durante a sua primeira viagem, reclamando-a para a coroa espanhola. A colonização efetiva começou em 1511, com Diego Velázquez de Cuéllar, que fundou as primeiras povoações, entre elas Havana. O contacto com os colonizadores, as doenças trazidas da Europa e o trabalho forçado dizimaram rapidamente a população indígena original.
Ao longo dos séculos seguintes, Cuba tornou-se uma peça central do império espanhol nas Américas, sobretudo como entreposto estratégico das rotas marítimas. A partir do século XVIII, a economia da ilha passou a assentar fortemente no cultivo de açúcar e tabaco, sustentado pela importação massiva de escravos africanos, o que deixou uma marca profunda na composição étnica e cultural cubana.
As guerras de independência
O século XIX foi dominado pela luta pela independência face a Espanha. A Guerra dos Dez Anos (1868-1878) foi a primeira grande tentativa, seguida por um novo levantamento em 1895, liderado por figuras como José Martí, considerado o herói nacional cubano, e os generais Máximo Gómez e Antonio Maceo. Martí morreu em combate logo no início do conflito, mas o seu pensamento sobre soberania e identidade nacional continua a ser referência central na retórica política cubana até aos dias de hoje.
A guerra terminou de forma inesperada em 1898, quando os Estados Unidos intervieram no conflito após o afundamento do navio USS Maine em Havana, dando início à Guerra Hispano-Americana. Espanha foi derrotada e Cuba passou a estar sob ocupação militar norte-americana, obtendo a independência formal em 1902, ainda que condicionada pela Emenda Platt, que dava a Washington o direito de intervir nos assuntos internos da ilha.
República, corrupção e a ditadura de Batista
As décadas seguintes foram marcadas por instabilidade política, corrupção generalizada e forte dependência económica dos Estados Unidos, que controlavam grande parte da indústria açucareira e do turismo. Fulgencio Batista, que já tinha exercido o poder anteriormente, tomou o controlo do país através de um golpe de Estado em 1952, instaurando uma ditadura autoritária associada à repressão política e a laços estreitos com interesses económicos norte-americanos.
A Revolução Cubana de 1959
A oposição a Batista organizou-se em torno de Fidel Castro, do seu irmão Raúl Castro e do argentino Ernesto "Che" Guevara, que lideraram uma guerrilha a partir da Sierra Maestra. Em 1º de janeiro de 1959, o regime de Batista caiu e os revolucionários tomaram o poder em Havana. Nos anos seguintes, o novo governo nacionalizou empresas norte-americanas e propriedades privadas, aproximou-se da União Soviética e declarou o carácter socialista da revolução, o que levou os Estados Unidos a romper relações diplomáticas em 1961 e a impor um embargo comercial que se mantém, com variações, até hoje.
O momento mais tenso desta fase foi a Crise dos Mísseis de Cuba, em outubro de 1962, quando a descoberta de mísseis nucleares soviéticos na ilha colocou os Estados Unidos e a URSS à beira de um confronto nuclear direto. A crise foi resolvida por via diplomática, mas consolidou Cuba como ponto central da Guerra Fria no hemisfério ocidental.
Consolidação do regime e o "Período Especial"
Durante décadas, Cuba manteve um sistema de partido único, economia planificada e forte apoio soviético, que financiava boa parte da economia insular. Este apoio investiu-se em saúde e educação, áreas em que Cuba alcançou indicadores comparáveis aos de países desenvolvidos, mas o sistema político manteve-se marcado pela ausência de eleições multipartidárias e pela repressão de opositores.
O colapso da União Soviética, em 1991, retirou a Cuba o seu principal apoio económico, dando início ao chamado "Período Especial", uma década de escassez severa de combustível, alimentos e bens básicos. O país sobreviveu através de reformas parciais, abertura limitada ao turismo estrangeiro e maior tolerância ao trabalho por conta própria, sem nunca abandonar o modelo político de partido único.
De Raúl Castro a Díaz-Canel
Fidel Castro afastou-se do poder por motivos de saúde em 2006, sendo substituído pelo irmão Raúl Castro, que introduziu reformas económicas moderadas e negociou, em 2014-2015, um histórico degelo diplomático com a administração de Barack Obama, incluindo a reabertura de embaixadas. Esse processo foi em grande parte revertido a partir de 2017, com o regresso de sanções mais duras sob a administração Trump.
Em 2018, Miguel Díaz-Canel tornou-se o primeiro presidente cubano fora da família Castro em quase seis décadas, assumindo também a liderança do Partido Comunista em 2021, ano marcado por protestos populares sem precedentes contra a escassez e os apagões. A Constituição de 2019 manteve o carácter socialista do Estado e o papel dirigente do partido único.
A crise de 2026: petróleo, apagões e emigração
Segundo notícias verificadas em 2026, Cuba atravessa atualmente uma das crises mais graves da sua história recente. O ponto de viragem ocorreu a 3 de janeiro de 2026, quando uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela derrubou o presidente Nicolás Maduro, interrompendo o fornecimento de petróleo venezuelano de que Cuba dependia fortemente. Díaz-Canel afirmou publicamente que, durante meses, "não chegaram navios de combustível" à ilha, descrevendo condições "muito adversas" que afetam toda a população.
A crise energética traduziu-se em apagões prolongados, que em várias regiões chegaram a ultrapassar 15 horas diárias, obrigando ao encerramento de escolas, à suspensão de trabalhadores sem remuneração, ao esvaziamento de hotéis turísticos e à redução de serviços hospitalares. Os Estados Unidos, sob a administração Trump, reforçaram ainda mais a pressão ao ameaçar com tarifas países e empresas, como a mexicana Pemex, que continuassem a fornecer petróleo a Havana, e a bloquear petroleiros com destino à ilha.
Este cenário agravou uma vaga migratória já em curso: estima-se que entre 1,4 e 2,5 milhões de cubanos tenham deixado o país entre o final de 2020 e o final de 2024, a maior emigração da história cubana, impulsionada pela escassez, pela queda do poder de compra e pelo desencanto com as perspetivas futuras. Em 2026, Washington impôs ainda sanções diretas a Díaz-Canel e à sua mulher, ao mesmo tempo que o próprio presidente cubano anunciava reformas económicas destinadas, nas suas palavras, a "salvar a revolução" sem capitular perante a pressão externa.
Perguntas frequentes
Quando é que Cuba se tornou independente de Espanha?
A independência formal ocorreu em 1902, após a Guerra Hispano-Americana de 1898, embora nos primeiros anos tenha estado condicionada pela Emenda Platt, que garantia aos Estados Unidos o direito de intervir nos assuntos internos cubanos.
Quando começou a Revolução Cubana?
Fidel Castro e os seus aliados tomaram o poder a 1 de janeiro de 1959, após derrubarem a ditadura de Fulgencio Batista, dando início ao regime socialista que se mantém até hoje.
Porque é que Cuba enfrenta apagões em 2026?
A crise resulta sobretudo da interrupção do fornecimento de petróleo venezuelano após a queda de Nicolás Maduro em janeiro de 2026 e do reforço de sanções e bloqueios norte-americanos sobre navios petroleiros com destino à ilha.
Quem é o atual presidente de Cuba?
Miguel Díaz-Canel é presidente desde 2018 e líder do Partido Comunista Cubano desde 2021, sendo o primeiro chefe de Estado fora da família Castro em quase 60 anos.
Quantos cubanos emigraram nos últimos anos?
Estima-se que entre 1,4 e 2,5 milhões de pessoas tenham deixado Cuba entre o final de 2020 e o final de 2024, a maior vaga migratória da história do país.