Quando Chegaram os Primeiros Habitantes à Europa?
A questão de quando chegaram os primeiros habitantes à Europa tem sido reescrita várias vezes ao longo da última década, à medida que novas descobertas arqueológicas empurram essa data cada vez mais para trás no tempo. A investigação distingue claramente dois momentos fundamentais: a chegada dos primeiros hominíneos (espécies humanas arcaicas, anteriores ao Homo sapiens) ao continente, que remonta a quase dois milhões de anos, e a chegada da nossa própria espécie, o Homo sapiens, que ocorreu muito mais tarde, há cerca de 45 a 56 mil anos. Estudos publicados entre 2025 e 2026 confirmaram e refinaram estes marcos, tornando a história do povoamento europeu mais antiga e mais complexa do que se pensava há apenas alguns anos.
Os primeiros hominíneos na Europa: quase dois milhões de anos
Durante décadas, considerou-se que os primeiros hominíneos tinham chegado à Europa há cerca de 1,8 milhões de anos, com base em vestígios encontrados na Geórgia (Dmanisi), no limite entre a Europa e a Ásia. Contudo, um estudo publicado em janeiro de 2025 na revista Nature Communications alterou este quadro de forma significativa. Uma equipa internacional analisou ossadas fossilizadas de animais escavadas no sítio de Grăunceanu, na Roménia, já nos anos 1960, e identificou marcas de corte produzidas por ferramentas de pedra em pelo menos 20 ossos. A datação magnetostratigráfica situou esta atividade humana há cerca de 1,95 milhões de anos, ou seja, quase 200 mil anos antes do que se pensava anteriormente.
A análise isotópica do local revelou ainda que, apesar de os invernos serem suficientemente amenos para permitir a presença de espécies adaptadas a climas quentes, como pangolins e macacos, o clima já era marcadamente mais sazonal do que em África, com invernos húmidos e verões secos bem definidos. Isto mostra que estes primeiros hominíneos já possuíam alguma capacidade de adaptação a ambientes distintos dos africanos, um passo relevante na história da expansão humana fora de África.
O rosto mais antigo da Europa Ocidental: o caso de Atapuerca
Outra descoberta marcante, divulgada em março de 2025, veio do sítio de Sima del Elefante, na Serra de Atapuerca, em Espanha, um dos locais mais estudados da paleoantropologia europeia. Ali foi encontrado um fragmento facial, catalogado como ATE7-1 e apelidado informalmente de "Pink", datado entre 1,1 e 1,4 milhões de anos. Trata-se do rosto humano mais antigo já identificado na Europa Ocidental.
Os investigadores atribuíram este fóssil a uma forma atribuída a Homo affinis erectus, mais primitiva do que a espécie Homo antecessor, também identificada em Atapuerca e associada a ossadas com cerca de 800 mil anos. As características faciais de "Pink", com uma estrutura nasal mais achatada e menos desenvolvida, aproximam-na de Homo erectus, sugerindo que a Península Ibérica foi palco de sucessivas ondas de povoamento por diferentes espécies humanas ao longo de mais de um milhão de anos, antes mesmo do aparecimento dos neandertais ou do Homo sapiens.
Os neandertais: uma espécie europeia por excelência
Entre estes hominíneos arcaicos e a chegada do Homo sapiens, a Europa foi habitada durante centenas de milhares de anos pelos neandertais (Homo neanderthalensis), que evoluíram no continente a partir de populações mais antigas, possivelmente descendentes do próprio Homo antecessor ou de espécies aparentadas. Os neandertais dominaram a paisagem europeia entre há cerca de 400 mil e 40 mil anos, adaptando-se com sucesso a climas glaciares e interglaciares, e desenvolvendo tecnologia lítica sofisticada, como a indústria musteriense. A sua presença é essencial para compreender o contexto em que os primeiros Homo sapiens chegaram à Europa, uma vez que ambas as espécies coexistiram e, em alguns casos, se cruzaram geneticamente.
A chegada do Homo sapiens: Grotte Mandrin e os 54 mil anos
A data da primeira chegada da nossa espécie à Europa foi também revista significativamente. O marco mais citado atualmente é o da Grotte Mandrin, no vale do Ródano, em França, onde foi encontrado um único dente humano moderno inserido numa camada de ocupação datada entre 56.800 e 51.700 anos, com uma estimativa central de cerca de 54 mil anos. Este achado, publicado originalmente em 2022 e ainda hoje considerado a referência mais sólida, é particularmente interessante porque a camada com o dente de Homo sapiens se encontra estratigraficamente entre camadas com vestígios neandertais associados à indústria musteriense.
Este padrão sugere uma ocupação alternada do abrigo por neandertais e por humanos modernos, indicando que o primeiro grupo de Homo sapiens a entrar na Europa, provavelmente vindo da costa oriental do Mediterrâneo, não se manteve de forma contínua, tendo desaparecido do registo arqueológico pouco depois da sua chegada. Foi, portanto, uma incursão pioneira e efémera, e não ainda um povoamento permanente.
Bacho Kiro: o primeiro povoamento duradouro
Para um povoamento mais estável e geneticamente documentado, os investigadores apontam para a Caverna de Bacho Kiro, na Bulgária, onde foram encontrados um dente e seis fragmentos ósseos datados diretamente entre 46 mil e 44 mil anos, atualmente os restos de Homo sapiens mais antigos e com datação mais segura na Europa. Estes fósseis surgem associados a ferramentas de pedra, ossos de animais caçados, utensílios em osso e adornos pessoais, alguns dos quais estão entre os mais antigos objetos ornamentais conhecidos no continente.
A análise genómica destes indivíduos revelou algo particularmente relevante: possuíam segmentos alargados de ADN neandertal, indicando ancestrais neandertais apenas cinco a sete gerações antes. Isto sugere que a mistura genética entre as duas espécies era a regra, e não a exceção, nas primeiras vagas de humanos modernos a chegar à Europa. Ainda assim, alguns arqueólogos consideram que também esta presença em Bacho Kiro poderá ter sido breve, sem se traduzir imediatamente num povoamento contínuo e bem-sucedido a longo prazo — esse processo de fixação definitiva só se consolidaria nos milénios seguintes, à medida que as populações de Homo sapiens se espalhavam e os neandertais se extinguiam, por volta de há 40 mil anos.
Perguntas frequentes
Quando chegaram os primeiros hominíneos à Europa?
De acordo com um estudo de 2025, os primeiros hominíneos chegaram à Europa há cerca de 1,95 milhões de anos, com base em marcas de corte em ossadas encontradas no sítio de Grăunceanu, na Roménia.
Quando chegou o Homo sapiens à Europa?
A evidência mais antiga e sólida da presença de Homo sapiens na Europa vem da Grotte Mandrin, em França, e data de há cerca de 54 mil anos (entre 56.800 e 51.700 anos).
Qual é o rosto humano mais antigo encontrado na Europa?
O fóssil facial mais antigo da Europa Ocidental foi descoberto em Sima del Elefante, em Atapuerca, Espanha, e está datado entre 1,1 e 1,4 milhões de anos, atribuído a uma forma próxima de Homo erectus.
Onde está o povoamento mais antigo e bem documentado de Homo sapiens na Europa?
A Caverna de Bacho Kiro, na Bulgária, contém os restos de Homo sapiens mais antigos com datação direta segura na Europa, entre 46 mil e 44 mil anos, associados a ferramentas e adornos pessoais.
Os primeiros Homo sapiens cruzaram-se com os neandertais na Europa?
Sim. A análise genética dos indivíduos de Bacho Kiro revelou ascendência neandertal recente, de apenas cinco a sete gerações antes, mostrando que o cruzamento entre as duas espécies era comum nas primeiras vagas de povoamento moderno.