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Porque é que Gibraltar é britânico e não espanhol

Publicado 23. novembro 2024 Atualizado 28. junho 2026

Por que Gibraltar é britânico e não espanhol? Entenda!

Gibraltar é um pequeno território de cerca de 6,8 quilómetros quadrados no extremo sul da Península Ibérica, ligado por terra a Espanha mas administrado pelo Reino Unido como território britânico ultramarino. Esta situação, que dura há mais de três séculos, tem uma explicação histórica concreta: assenta num tratado internacional assinado em 1713, foi confirmada por sucessivos acordos e, sobretudo, sustenta-se na vontade repetidamente manifestada da própria população. A pergunta sobre por que razão o "Rochedo" é britânico e não espanhol responde-se com factos jurídicos, militares e políticos que se acumularam desde o início do século XVIII.

A origem: a Guerra da Sucessão de Espanha

Tudo começou com uma crise dinástica. Em 1700 morreu Carlos II de Espanha sem deixar descendência nem um sucessor claro, o que desencadeou a Guerra da Sucessão de Espanha (1701-1714). De um lado estava Filipe de Anjou, neto de Luís XIV de França; do outro, o pretendente austríaco, o arquiduque Carlos, apoiado por uma coligação que incluía a Inglaterra, os Países Baixos e o Sacro Império.

Em agosto de 1704, uma frota anglo-neerlandesa capturou Gibraltar. Importa um pormenor frequentemente esquecido: a praça não foi tomada em nome da Grã-Bretanha, mas em nome do arquiduque Carlos, o candidato apoiado pela coligação ao trono espanhol. Só com o desfecho da guerra a posse se converteu numa cedência formal e permanente à coroa britânica.

O Tratado de Utreque de 1713

O ponto jurídico decisivo é o Tratado de Utreque, assinado a 13 de julho de 1713, que pôs fim à guerra. No seu Artigo X, a coroa espanhola cedeu "a plena e inteira propriedade da cidade e castelo de Gibraltar, juntamente com o seu porto, defesas e fortalezas" à coroa britânica, e fê-lo "para sempre" (em latim, in perpetuum).

É este o fundamento que o Reino Unido invoca: um tratado internacional, livremente assinado por Espanha, que transferiu a soberania sem prazo. A soberania britânica foi posteriormente reafirmada noutros acordos, designadamente o Tratado de Sevilha (1729) e o Tratado de Paris (1783), depois de Espanha ter tentado, sem êxito, recuperar o território pela força — nomeadamente no Grande Cerco de 1779-1783.

Por que é que Espanha continua a reivindicá-lo

Apesar do tratado, Espanha nunca abandonou a reivindicação. Os seus argumentos assentam em vários pontos. Primeiro, sustenta que o Artigo X cedeu apenas a cidade, o castelo, o porto e as fortalezas — e não o istmo que liga o Rochedo ao continente (onde hoje se situa o aeroporto), nem as águas circundantes, nem o espaço aéreo. Madrid considera que essas zonas continuam sob soberania espanhola e que foram ocupadas indevidamente.

Segundo, o mesmo Artigo X contém uma cláusula segundo a qual, caso a Grã-Bretanha alguma vez queira alienar Gibraltar, Espanha teria preferência na sua reaquisição — o que, na leitura espanhola, exclui a possibilidade de independência. Terceiro, Espanha invoca a "integridade territorial", argumentando que a descolonização deveria devolver o território ao Estado vizinho. Foi com base nesta tese que, durante a ditadura de Franco, a fronteira chegou a ser encerrada entre 1969 e 1985.

O fator decisivo: a vontade da população

O argumento que hoje pesa mais a favor da continuidade britânica não é o tratado de 1713, mas a posição inequívoca dos próprios gibraltinos, que se reclamam de um direito à autodeterminação. Esta vontade foi medida em duas consultas populares com resultados esmagadores.

No referendo de 1967, perguntou-se aos eleitores se preferiam passar para soberania espanhola ou permanecer sob soberania britânica com instituições próprias de autogoverno: 99,6% votaram pela permanência britânica. No referendo de 2002, sobre uma proposta de soberania partilhada entre Londres e Madrid, 98,5% rejeitaram a partilha (17 900 votos contra, apenas 187 a favor).

Esta divergência alimenta um conflito de princípios nas Nações Unidas. O Reino Unido e Gibraltar defendem que a autodeterminação é um direito humano inalienável que prevalece. Espanha responde que, num caso de disputa de soberania como este, aplica-se antes o princípio da integridade territorial, e a Assembleia Geral da ONU tem efetivamente pedido negociações bilaterais entre Londres e Madrid, criticando a realização dos referendos. Gibraltar continua, formalmente, na lista de territórios não autónomos da ONU.

A situação em 2026: o novo acordo pós-Brexit

A saída do Reino Unido da União Europeia reabriu toda a questão prática da fronteira, já que Gibraltar votou esmagadoramente contra o Brexit em 2016 mas teve de o acompanhar. Depois de mais de quatro anos de negociações, foi alcançado em junho de 2025 um "acordo político conclusivo" entre a Comissão Europeia, o Reino Unido, Espanha e Gibraltar, cujo texto foi publicado a 26 de fevereiro de 2026.

O acordo elimina as barreiras físicas na fronteira terrestre, criando uma união aduaneira entre Gibraltar e a UE e aplicando as regras do espaço Schengen aos controlos de pessoas. Na prática, no aeroporto e no porto de Gibraltar passam a existir dois conjuntos de controlos: os das autoridades gibraltinas e os das autoridades espanholas, estas a atuar em nome de Schengen. A aplicação provisória do tratado está prevista para 15 de julho de 2026.

Crucialmente, o acordo não altera a soberania. O Governo britânico sublinha que o texto inclui uma cláusula que protege "explicitamente" a soberania do Reino Unido sobre Gibraltar e garante autonomia operacional total às suas instalações militares, incluindo a base aérea da RAF. Madrid, por seu lado, apresenta a presença de agentes espanhóis na fronteira como um avanço — o que mantém viva a leitura simbólica de ambos os lados. A soberania, portanto, continua britânica em 2026.

Perguntas frequentes

Que tratado tornou Gibraltar britânico?

O Tratado de Utreque, assinado a 13 de julho de 1713, que pôs fim à Guerra da Sucessão de Espanha. No seu Artigo X, Espanha cedeu "para sempre" a cidade, o castelo, o porto e as fortalezas de Gibraltar à coroa britânica.

Os habitantes de Gibraltar querem ser espanhóis?

Não. Em dois referendos a recusa foi esmagadora: 99,6% votaram pela soberania britânica em 1967 e 98,5% rejeitaram a soberania partilhada com Espanha em 2002.

Porque é que Espanha ainda reivindica Gibraltar?

Espanha alega que o tratado de 1713 cedeu apenas a cidade e as fortalezas, não o istmo, as águas e o espaço aéreo, e invoca o princípio da integridade territorial para reclamar a devolução do território.

O acordo de 2026 entrega Gibraltar a Espanha?

Não. O acordo pós-Brexit elimina a fronteira física e cria uma união aduaneira com a UE, mas inclui uma cláusula que protege explicitamente a soberania britânica. A soberania permanece do Reino Unido.

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