CCitopendia

África do Sul: história resumida das origens ao presente

Publicado 16. julho 2025 Atualizado 25. junho 2026

Qual é a história resumida da África do Sul?

A África do Sul é um país de história extraordinariamente densa, marcada por séculos de colonização europeia, exploração mineira, conflito racial institucionalizado e, por fim, uma transição democrática que se tornou um dos momentos mais emblemáticos do século XX. Situada na extremidade austral do continente africano, a sua trajetória vai desde as primeiras presenças humanas documentadas até à frágil democracia contemporânea, ainda confrontada com desigualdades estruturais profundas.

Povos pré-coloniais

Os registos arqueológicos situam a presença humana na África do Sul há mais de dois milhões de anos, o que torna a região um dos mais importantes centros da pré-história da humanidade. Os San (ou Bosquímanos) foram os primeiros habitantes documentados — caçadores-recoletores que habitavam o território há dezenas de milénios. Os Khoikhoi, pastores seminómadas, chegaram mais tarde e coexistiram com os San, sendo ambos os grupos frequentemente designados em conjunto como Khoisan.

A partir do século III d.C., povos Bantu provenientes da África Central migraram progressivamente para sul, trazendo a agricultura, a criação de gado e a fundição de ferro. Estas migrações deram origem aos ancestrais dos Zulu, Xhosa, Sotho, Tswana e outros grupos étnicos que ainda hoje constituem a maioria da população sul-africana.

A chegada dos europeus

Os primeiros europeus a atingir as costas sul-africanas foram os portugueses. Em 1488, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas — rebatizado Cabo da Boa Esperança —, abrindo caminho para a rota marítima para a Índia. Vasco da Gama passou pela região em 1497-1498 a caminho de Calecute. Apesar destas viagens pioneiras, Portugal não estabeleceu colónias permanentes.

Foi a Companhia Neerlandesa das Índias Orientais (VOC) que fundou, em 1652, um posto de abastecimento na atual Cidade do Cabo, sob o comando de Jan van Riebeeck. O que começara como uma estação de reabastecimento para navios em rota para a Ásia transformou-se rapidamente numa colónia em expansão. Os colonos neerlandeses, chamados Boers (agricultores, em neerlandês) ou africâneres, dispersaram-se pelo interior, deslocando e escravizando populações locais.

A colonização britânica e o Grande Trek

Durante as Guerras Napoleónicas, o Reino Unido ocupou a Colónia do Cabo em 1806 e formalizou o seu controlo em 1814. A imposição do inglês como língua oficial e a abolição da escravatura em 1833 geraram forte ressentimento entre os africâneres. Entre 1835 e 1840, dezenas de milhares destes abandonaram a Colónia do Cabo numa vasta migração para o interior conhecida como o Grande Trek. Estabeleceram duas repúblicas independentes — a República do Transvaal e o Estado Livre de Orange —, travando violentos conflitos com os povos Zulu e Ndebele, como aconteceu na Batalha de Blood River (1838).

Diamantes, ouro e as guerras anglo-bóeres

A descoberta de diamantes em Kimberley (1867-1871) e de ouro no Rand (Witwatersrand) em 1886 transformou radicalmente a África do Sul. O afluxo massivo de trabalhadores e investidores britânicos — os uitlanders — gerou tensão crescente entre o Império Britânico e as repúblicas africâneres. Eclodiu assim a Segunda Guerra Anglo-Bóer (1899-1902), conflito brutal em que os britânicos recorreram a campos de concentração onde morreram cerca de 26 000 africâneres e dezenas de milhares de africanos negros. A paz de Vereeniging (1902) integrou as repúblicas no Império.

A União da África do Sul (1910)

Em 1910, as colónias do Cabo, Natal, Transvaal e Orange Free State uniram-se para formar a União da África do Sul, um domínio autónomo do Império Britânico. A nova constituição excluía a grande maioria da população negra dos direitos políticos. Em 1912, foi fundado o Congresso Nacional Africano (ANC — African National Congress), que se tornaria o principal movimento de resistência à segregação racial. Em 1931, a União tornou-se formalmente independente, e em 1961 proclamou-se República, abandonando a Commonwealth.

O apartheid (1948–1990)

O termo apartheid — "separação" em africâner — designa o sistema de segregação racial institucionalizada imposto pelo Partido Nacional após a sua vitória eleitoral de 1948, sob líderes como D. F. Malan e, mais tarde, Hendrik Verwoerd. O regime classificou legalmente a população em quatro categorias raciais, determinando onde cada pessoa podia viver, trabalhar, estudar, viajar e com quem podia casar-se.

A resistência organizou-se rapidamente. O ANC, com figuras como Albert Luthuli, Oliver Tambo e Nelson Mandela, promoveu boicotes e greves. Em 1960, o Massacre de Sharpeville — em que a polícia matou 69 manifestantes desarmados — chocou o mundo e levou ao banimento do ANC. Mandela foi preso em 1964 e condenado a prisão perpétua no julgamento de Rivónia.

Em 16 de junho de 1976, estudantes do bairro de Soweto manifestaram-se contra a imposição do africâner como língua de ensino. A polícia abriu fogo, matando centenas de jovens. A revolta de Soweto tornou-se um símbolo universal da resistência ao apartheid e galvanizou a oposição interna e internacional. Em junho de 2026, a África do Sul assinalou o 50.º aniversário do levantamento — a data recorda que o desemprego jovem continua nos 60% na faixa etária dos 15 aos 24 anos, perpetuando as inquietações que estiveram na origem da revolta. As sanções internacionais, o boicote desportivo e cultural e a pressão interna crescente foram progressivamente isolando o regime ao longo dos anos 1980.

A transição democrática (1990–1994)

Em 1989, F. W. de Klerk assumiu a presidência. Em fevereiro de 1990, anunciou a legalização do ANC e de outros movimentos proibidos; em 11 de fevereiro de 1990, Nelson Mandela foi libertado após 27 anos de prisão. O referendo de março de 1992, reservado aos eleitores brancos, aprovou as reformas por 68,7%. Após negociações longas e difíceis — marcadas por violência interétnica e resistência de extremistas —, realizaram-se as primeiras eleições democráticas multirraciais em abril de 1994. O ANC venceu com 62,6% dos votos e Nelson Mandela tomou posse como primeiro presidente negro da África do Sul em 10 de maio de 1994.

A era pós-apartheid (1994–2026)

O governo Mandela (1994-1999) criou a Comissão de Verdade e Reconciliação (TRC), presidida pelo arcebispo Desmond Tutu, para lidar com os crimes do apartheid sem recorrer a julgamentos massivos. A Constituição de 1996, considerada uma das mais progressistas do mundo, consagrou direitos alargados a todos os cidadãos, incluindo proteção explícita da comunidade LGBTQ+.

Os sucessores de Mandela — Thabo Mbeki (1999-2008) e Jacob Zuma (2009-2018) — governaram num contexto de crescimento moderado mas também de corrupção crescente. O mandato de Zuma ficou marcado por escândalos e terminou com a sua resignação forçada em fevereiro de 2018. Cyril Ramaphosa assumiu então a presidência, sendo reeleito em 2019 e confirmado no cargo após as eleições de 2024.

Nestas eleições de maio de 2024, o ANC obteve apenas 40,2% dos votos — o resultado mais baixo desde 1994 —, perdendo a maioria absoluta pela primeira vez. Para evitar a instabilidade, formou um Governo de Unidade Nacional (GNU) com nove partidos, incluindo a Aliança Democrática (DA). O GNU enfrentou dificuldades desde o início: o orçamento de 2025 teve de ser apresentado três vezes devido a divergências internas sobre o IVA, e passaram 143 dias sem uma reunião formal entre o presidente e os líderes da coligação. Em abril de 2025, sondagens colocaram pela primeira vez a DA (30,3%) à frente do ANC (29,7%). As eleições locais estão agendadas para 4 de novembro de 2026.

A África do Sul de 2026 é um país de contrastes marcantes: a maior economia do continente africano, com constituição exemplar e diversidade cultural singular, mas com desemprego estrutural severo, infraestruturas em degradação — sobretudo no fornecimento elétrico — e índices de criminalidade e desigualdade entre os mais elevados do mundo.

Perguntas frequentes

Quando terminou o apartheid na África do Sul?

O apartheid terminou formalmente em 1994, com a realização das primeiras eleições democráticas multirraciais em abril desse ano, que foram vencidas pelo ANC. Nelson Mandela tomou posse como presidente em 10 de maio de 1994. As últimas leis do apartheid tinham sido revogadas entre 1990 e 1991, após o presidente F. W. de Klerk legalizar o ANC e libertar Mandela em fevereiro de 1990.

Quem foi Nelson Mandela?

Nelson Mandela (1918-2013) foi advogado, ativista anti-apartheid e estadista sul-africano. Líder do ANC, foi preso em 1964 e condenado a prisão perpétua no julgamento de Rivónia. Após 27 anos preso, foi libertado em 1990 e tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul (1994-1999). Recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1993, partilhado com F. W. de Klerk.

O que foi a revolta de Soweto?

A revolta de Soweto foi um levantamento popular iniciado em 16 de junho de 1976, quando estudantes negros de Soweto — bairro periférico de Joanesburgo — protestaram contra a obrigatoriedade do africâner como língua de ensino. A polícia abriu fogo sobre os manifestantes, matando centenas de jovens. O evento galvanizou a resistência interna e a pressão internacional contra o apartheid. O dia 16 de junho é hoje feriado nacional na África do Sul, o Dia da Juventude.

Quais são os maiores desafios da África do Sul em 2026?

Em 2026, a África do Sul enfrenta um desemprego jovem (15-24 anos) de cerca de 60%, elevada desigualdade económica, infraestruturas degradadas (especialmente falhas prolongadas no fornecimento elétrico, conhecidas como load shedding), corrupção generalizada e altos índices de criminalidade. O Governo de Unidade Nacional formado após as eleições de 2024 enfrenta ainda tensões internas entre partidos com visões políticas muito distintas.

Quais foram as consequências das eleições de 2024 na África do Sul?

Nas eleições de maio de 2024, o ANC perdeu a maioria absoluta pela primeira vez desde 1994, obtendo 40,2% dos votos. Para governar, formou um Governo de Unidade Nacional (GNU) com outros nove partidos, incluindo a Aliança Democrática (DA). Cyril Ramaphosa manteve a presidência, mas o governo enfrenta tensões internas frequentes. As eleições locais de novembro de 2026 serão o próximo teste à popularidade das forças políticas sul-africanas.

{"@context":"https://schema.org","@type":"FAQPage","mainEntity":[{"@type":"Question","name":"Quando terminou o apartheid na África do Sul?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"O apartheid terminou formalmente em 1994, com a realização das primeiras eleições democráticas multirraciais em abril desse ano, vencidas pelo ANC. Nelson Mandela tomou posse como presidente em 10 de maio de 1994. As últimas leis do apartheid tinham sido revogadas entre 1990 e 1991."}},{"@type":"Question","name":"Quem foi Nelson Mandela?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"Nelson Mandela (1918-2013) foi advogado, ativista anti-apartheid e estadista sul-africano. Líder do ANC, foi preso em 1964 e condenado a prisão perpétua. Após 27 anos, foi libertado em 1990 e tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul (1994-1999), recebendo o Prémio Nobel da Paz em 1993."}},{"@type":"Question","name":"O que foi a revolta de Soweto?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"A revolta de Soweto foi um levantamento iniciado em 16 de junho de 1976, quando estudantes negros protestaram contra a obrigatoriedade do africâner como língua de ensino. A polícia abriu fogo, matando centenas de jovens. O evento galvanizou a resistência ao apartheid e o 16 de junho é hoje o Dia da Juventude, feriado nacional."}},{"@type":"Question","name":"Quais são os maiores desafios da África do Sul em 2026?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"Em 2026, a África do Sul enfrenta desemprego jovem de cerca de 60%, elevada desigualdade, infraestruturas degradadas (especialmente falhas no fornecimento elétrico), corrupção e elevada criminalidade. O Governo de Unidade Nacional formado após 2024 enfrenta tensões internas entre partidos com visões políticas distintas."}},{"@type":"Question","name":"Quais foram as consequências das eleições de 2024 na África do Sul?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"Nas eleições de maio de 2024, o ANC perdeu a maioria absoluta pela primeira vez, obtendo 40,2% dos votos. Formou um Governo de Unidade Nacional com outros nove partidos, incluindo a Aliança Democrática. Cyril Ramaphosa manteve a presidência. As eleições locais de novembro de 2026 serão o próximo teste eleitoral."}}]}

Artigos relacionados